12 outubro 2017

A desigualdade vista do topo: a concentração de renda entre os ricos no Brasil, 1926-2013



A concentração de renda no topo da pirâmide social "teve idas e vindas que, mesmo temporárias, foram significativas, coincidindo com os grandes ciclos políticos do país." 


Tese apresentada pelo pesquisador do Ipea, Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza, venceu o prêmio Capes 2017 de melhor tese de doutorado de 2016.


Leia.


Citação:
SOUZA, Pedro Herculano Guimarães Ferreira de. A desigualdade vista do topo: a concentração de renda entre os ricos no Brasil, 1926-2013. 2016. 377 f., il. Tese (Doutorado em Sociologia)—Universidade de Brasília, Brasília, 2016. Disponível em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/22005/1/2016_PedroHerculanoGuimar%c3%a3esFerreiradeSouza.pdf

Resumo: Esta tese usa tabulações do imposto de renda para construir novas séries históricas para a concentração de renda no topo no Brasil. Entre 1926 e 2013, as frações recebidas pelos mais ricos combinaram estabilidade e mudança em um padrão distinto do observado nos países ricos no mesmo período. Ao contrário do previsto por teorias da industrialização e modernização, não houve nenhuma tendência secular clara. A fatia do centésimo mais rico da população adulta, em particular, oscilou frequentemente entre 20% e 25%, inclusive nos anos recentes. A concentração no topo teve idas e vindas que, mesmo temporárias, foram significativas, coincidindo com os grandes ciclos políticos do país. A fração apropriada para o 1% mais rico aumentou durante o Estado Novo e a 2a Guerra e caiu no imediato pós-guerra e, mais ainda, na segunda metade da década de 1950, tendência revertida depois do golpe militar de 1964, com uma volta ao patamar de duas décadas antes. Os anos 1970 foram marcados por instabilidade, mas a desigualdade cresceu novamente na década seguinte. Em seguida, houve alguma desconcentração até o fim da década de 1990 ou, talvez, meados dos anos 2000, e estabilidade desde então. Além disso, a análise empírica explora a repartição da renda entre os ricos, a comparação do Brasil com outros países e o contraste dos dados tributários com as PNADs e os Censos. Nesse último caso, as séries produzidas são usadas também para corrigir os coeficientes de Gini, levando em conta a subestimação dos rendimentos dos mais ricos nas pesquisas domiciliares. A discussão é estruturada por três perguntas de cunho histórico-comparativo, e os resultados são interpretados do ponto de vista institucional. As origens, implicações e justificativas para isso são apresentadas nos capítulos teóricos que precedem a análise empírica. Esses capítulos oferecem uma reconstrução da história das ideias sobre estratificação social no último século e colocam em destaque a longa e heterogênea tradição de estudos sobre os ricos. Seu argumento central é que o interesse acadêmico e político pela questão distributiva aflora quando ela é concebida em termos dicotômicos, com foco sobre os mais ricos. 

ABSTRACT
This dissertation uses income tax tabulations to estimate top income shares over the long-run for Brazil. Between 1926 and 2013, the concentration of income at the top of the distribution combined stability and change, diverging from the European and American patterns in the 20th century. Contrary to benign industrialization and modernization theories, there was no overarching, long-term trend. Most of the time the income share of the top 1% of the adult population fluctuated within a 20%--25% range, even in recent years. Still, top income shares had temporary yet significant ups and downs which largely coincided with the country's most important political cycles. The top 1% income share increased during the Estado Novo and World War II, then declined in the early post-war years and even more so in the second half of the 1950s. The 1964 coup d'état reversed that trend and income inequality rose back to post-war levels after a few years of military rule. The 1970s were marked by instability, but top income shares surged again in the 1980s. The share of the 1% then decreased somewhat in the 1990s and perhaps the mid-2000s. There were no real changes since then. In addition, this dissertation analyzes the concentration of income among the rich, provides international comparisons of top income shares, and contrasts the income tax series with estimates from household surveys. The income tax series are also used to compute “corrected” Gini coefficients which take into account the underestimation of top incomes in household surveys. The major research questions are comparative and historically oriented, and I argue in favor of an institutional interpretation of the results. The motivation for and implications of this approach are presented in the more theoretical chapters that precede the empirical analysis. In these chapters, I engage with the history of ideas about inequality and social stratification and highlight the long and heterogeneous tradition of studies about the rich and the wealthy. My main argument is that the academic and political concern with distributional issues flourishes when inequality is conceived in binary or dichotomous terms. 


RESUMEN
Esta tesis utiliza tabulaciones del impuesto sobre la renta para construir nuevas series históricas para la alta concentración de renta en Brasil. Entre 1926 y 2013, las fracciones recibidas por los más ricos combinaron estabilidad y cambios en un estándar distinto de lo observado en los países ricos en el mismo periodo. Al contrario de lo previsto por teorías de la industrialización y de la modernización, no hubo ninguna tendencia secular clara. La tajada del centésimo más rico de la población adulta osciló, en particular, frecuentemente entre 20% y 25 %, incluso en los años recientes. La concentración en la cima tuvo muchas idas y vueltas que, aunque temporarias, fueron significativas, coincidiendo con los grandes ciclos políticos del país. La fracción apropiada para el 1% más rico aumentó durante el Estado Nuevo y la Segunda Guerra Mundial y cayó inmediatamente en la posguerra y, todavía más, en la segunda mitad de la década de 1950, tendencia revertida después del Golpe Militar de 1964, volviendo al mismo nivel de dos décadas anteriores. El año de 1970 estuvo marcado por instabilidad, pero la desigualdad creció nuevamente en la década siguiente. A continuación, hubo alguna desconcentración hasta el final de la década de 1990 o, tal vez, mediados de los años 2000, y, desde entonces, estabilidad. Además, el análisis empírico explora la repartición de renta entre los ricos, la comparación de Brasil con otros países, y el contraste de datos tributarios con las PNADs y los Censos. En este último caso, las series producidas son utilizadas también para corregir los coeficientes de Gini, considerando la subestimación de los ingresos de los más ricos en las investigaciones domiciliares. La discusión está estructurada por tres preguntas de carácter histórico-comparativo y los resultados son interpretados desde el punto de vista institucional. Las orígenes, implicaciones y justificativas para esto serán presentadas en los capítulos teóricos que preceden el análisis empírico. Estos capítulos ofrecen una reconstrucción de la historia de las ideas sobre la estratificación social en el último siglo y destacan la larga y heterogenia tradición de estudios sobre los ricos. Su argumento central es que el interés académico por la cuestión distributiva surge cuando está concebida en términos dicotómicos, con enfoque sobre los más ricos. 

RESUMÉ
Cette thèse utilise des tableux statistiques de l’impôt de revenu pour construire des nouvelles séries historiques pour la concentration de revenu dans la couche plus fortunée au Brésil. Entre 1926 et 2013, les fractions reçues par les plus riches combine stabilité et changement dans un modèle distinct de celui observé aux pays riches à la même période. Au contraire du pronostic des théories de l’industrialisation et de la modernisation, aucune tendance séculaire était produite. En particulier, la tranche du centième plus riche de la population adulte a oscillé fréquemment entre 20% et 25%, les dernières années y compris. Cette concentration au sommet a eu des oscillations qui étaient significatives, même temporairement, en coïncidant avec les grands cycles politiques du pays. La fraction détenue par le 1% le plus riche augmente pendant l’État nouveau brésilien et la 2e Guerre mondiale et tombe immédiatement dans l’après-guerre, et plus encore à la deuxième moitié de la décennie de 1950, tendance refoulée après le coup militaire de 1964, avec un retour au même niveau de deux décennies avant. Les années 1970 sont marquées par l’instabilité, et l’inégalité a repoussé la décennie suivante. Ensuite, une déconcentration du revenu a eu lieu jusqu’à la fin de la décennie de 1990, peut-être jusqu’aux milieux des années 2000 et après cela, une période de stabilité se passe. En outre, l’analyse empirique explorera la répartition du revenu entre les riches, la comparaison du Brésil avec d’autres pays et le contraste des données tributaires avec les PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) et les Recensements. Dans ce dernier cas, les séries produites seront aussi utilisées pour corriger les coefficients de Gini en tenant compte la sous-estimation des revenus des plus riches dans les enquêtes sur les ménages. La discussion sera structurée par trois questions à caractère historique et comparative et les résultats seront interprétés du point de vue institutionnel. Les origines, implications et justifications pour cela seront présentées aux chapitres théoriques qui précèdent l’analyse empirique. Ces chapitres offriront une reconstruction de l’histoire des idées sur la stratification sociale pendant le dernier siècle et détachera la longue et hétérogène tradition des études sur les couches riches. L’argument central est que l’intérêt académique et politique par le sujet de la distribution de revenu émerge quand il est conçu dans des termes dichotomiques, mettant en relief les plus riches.

Descrição: Tese (doutorado)—Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Sociais, Departamento de Sociologia, 2016.














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09 outubro 2017

Centenário de Violeta Parra (1917-1967)


Em 2017, cantora chilena faria 100 anos. Pesquisadora da cultura popular, sua música influenciou diversas gerações. 


Errata: o vídeo diz que Violeta inspirou o movimento Nuevo Cancionero, quando na verdade foi o movimento Nueva Canción. O Nuevo Cancionero era argentino; o Nueva Canción, chileno.  

Fonte: Nexo Jornal no Youtube.


















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03 outubro 2017

Pesquisa mostra como Brasil protege sua elite endinheirada

Foi sobretudo a classe média quem pagou a ligeira ascensão dos mais pobres na última década. 
Mesmo isso, porém, agora tem sido revertido.
O fato explica o ódio que tanto vicejou na classe média, a ponto de algumas de suas parcelas se tornarem as mais raivosas opositora de programas sociais.


Segundo o economista Marc Morgan, doutorando em economia pela Escola de Economia de Paris e na prestigiada École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, 
While elites and the poor made gains, the Middle 40% of the distribution decreased its share from about 34% to 32%, posting less growth than the average for the whole economy. The “squeezed middle” is a product of its relatively low share of income and poor growth performance. Thus, inequality among the bottom 90% declined at the expense of growing concentration at the top. While labour income inequality did register a decline according to our corrected series, it was insufficient to mitigate the concentration of capital resources and reverse the growing concentration of national income among elite groups.

Ou seja, enquanto as elites e os pobres ganharam alguma coisa, nos últimos anos, a classe média foi espremida. Assim, quando o país cresceu, a desigualdade entre os 90% mais pobres declinou, ao mesmo tempo em que se viu uma crescente concentração no topo. 

A capacidade que as elites brasileiras têm demonstrado de reter renda e bloquear sua distribuição mais equânime entre a população é o fator  crucial que explica inclusive as sofríveis taxas de crescimento econômico do país.

Ainda segundo Morgan, que é orientando de Thomas Piketty,

Overall, elites still managed to capture disproportionate fractions of total growth due to their disproportionate share in total income. Over the short-to-medium term, it is the share of income that matters more than its growth

Traduzindo, as elites ainda conseguem capturar parcelas desproporcionais do crescimento econômico brasileiro, em função dessa desigualdade estrutural da renda. No curto e médio prazo, essa distribuição absurdamente desigual da renda importa mais do que o crescimento.


Leia o artigo:
Morgan, Marc. Extreme and Persistent Inequality: New Evidence for Brazil Combining National Accounts, Surveys and Fiscal Data, 2001-2015. WID.world WORKING PAPER SERIES N° 2017/12, august 2017. [abrir arquivo pdf




Analisei, em 2015, as consequências políticas dessa situação que foi um arranjo comum a vários dos governos de esquerda na América Latina. 

Dizia eu, à época, que


"A classe média tornou-se o maior contingente de inconformados. Como os governos de esquerda não mexem ou mexem muito pouco com os ricos, é principalmente sobre a classe média que recaem os custos maiores das políticas de benefícios sociais aos mais pobres.  
A classe média foi penalizada com impostos mais altos que bancam uma grande proporção dos gastos dos governos. Embora os gastos maiores do Estado sejam com os mais ricos, são os programas sociais para as camadas de mais baixa renda que mais irritam a classe média. 
Essa classe média se sente passada para trás quando recorda que tinha custos bem mais baixos, por exemplo, com a mão de obra de serviços domésticos, e uma situação de servilhismo dos pobres em relação a ela.  
Mesmo que não fosse rica, a classe média vivia em uma condição social distinta em que parecia fazer parte do mundo dos ricos, mesmo que em menor escala.  
O castelo de ilusões da classe média tradicional ruiu...A revolta da classe média é que isso tornou-se possível com o patrocínio de seu dinheiro, usado pelos governos de esquerda em benefício dos mais pobres. Por isso, a radicalização direitista de uma parte dessa classe se volta contra esses governos, e não contra partidos de direita.  
Para esse setor da classe média, a ameaça que sofre não vem dos ricos, e sim dos pobres. Eles lhes causam asco, indignação e um sentimento de ódio pela perda da noção de superioridade, na medida em que os pobres que ascenderam já nem acreditam mais nisso. Essa parcela da classe média, ainda minoritária, mas crescente, aprecia o elitismo radical embalado pelo liberalismo autoritário."


Leia em 













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02 outubro 2017

A volta dos mandarins?

A China enriqueceu, mas está se tornando, aceleradamente, mais desigual 


A análise é do já famoso economista Thomas Piketty (Paris School of Economics), em coautoria com Li Yang (World Bank and Paris School of Economics) e Gabriel Zucman (UC Berkeley and NBER).

"China’s inequality levels used to be close to Nordic countries and are now approaching U.S. levels." 


Leia o artigo.



















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27 setembro 2017

O Brasil é o país mais desigual do mundo, com exceção do Oriente Médio e, talvez, da África do Sul

"A história recente indica que houve uma escolha política pela desigualdade" 




"... dois fatores ilustram isso: a ausência de uma reforma agrária e um sistema que tributa mais os pobres."  

"Para nós, estrangeiros, impressiona que alíquotas de impostos sobre herança sejam de 2% a 4%. Em outros países chega a 30%. A tributação de fortunas fica em torno de 5%. Enquanto isso, os mais pobres pagam ao menos 30% de sua renda via impostos indiretos sobre luz e alimentação."
(Marc Morgan Milá, economista irlandês).


Essas são algumas conclusões do economista Marc Morgan Milá. Leia a entrevista completa em pdf ou na Folha.





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26 setembro 2017

Seis brasileiros concentram a riqueza correspondente à de mais de 100 milhões de brasileiros


Estudo da Oxfam revela que os 5% mais ricos detêm mesma fatia de renda que outros 95%.


Mulheres ganharão como homens só em 2047, e os negros como os brancos em 2089.

Pobres e classe média pagam os impostos que os super-ricos deixam de pagar.




Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim) são as seis pessoas mais ricas do Brasil. Eles concentram, juntos, a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres do país, ou seja, a metade da população brasileira (207,7 milhões). Estes seis bilionários, se gastassem um milhão de reais por dia, juntos, levariam 36 anos para esgotar o equivalente ao seu patrimônio. Foi o que revelou um estudo sobre desigualdade social realizado pela Oxfam.


















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22 setembro 2017

Homossexualidade: enforcamento, prisão, castração química e a música dos Stones, "Satisfaction"

Há pouco mais de 50 anos (julho de 1967), o Reino Unido começava, lentamente, um processo de descriminalização da homossexualidade.



As penas foram mudando de enforcamento, nos tempos de Henrique VIII (aquele mesmo que rompeu com a Igreja Católica e decapitou duas de suas muitas esposas) e prisão (caso, entre tantos outros, do escritor Oscar Wilde, aqui retratado) à castração química, como aconteceu com o matemático inglês Alan Turing





Entendeu porque os Rolling Stones cantavam, em 1965, I Can’t Get No Satisfaction? 


Ouça Satisfaction, dos Stones.





A lei de 1967 não aboliu a repressão à homossexualidade, tanto que a total descriminalização só passou a ser considerada completa em 2013. Leia a matéria do Guardian.





Assista ao filme O Jogo da Imitação (The Imitation Game, 2014), sobre a vida de Alan Turing, responsável por desvendar um dos segredos mais importantes da II Guerra na luta contra os nazistas. Disponível no Netflix.


E aproveite isso tudo para refletir um pouco sobre essa história de "cura gay" e sobre a ameaça de retorno à Idade Média que estamos vivendo.




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13 setembro 2017

Lava-Jato pode fazer combate à corrupção retroagir décadas

Trata-se de um espasmo de euforia demagógica seguido de deterioração do ambiente institucional.

Análise do cientista político Bruno Reis.

A Lava-Jato é o Plano Cruzado do combate à corrupção


Bruno P. W. Reis 

Professor associado ao 
departamento de Ciência Política e 
vice-diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da 
Universidade Federal de Minas Gerais.

Artigo publicado em Novos Estudos Cebrap, 2017.





Não, eu não quis dizer Plano Real. Eu quis dizer Plano Cruzado mesmo. Ao desorganizar o sistema político, a Lava-Jato solapa as condições institucionais para um combate eficaz à corrupção, assim como a desorganização das expectativas produzida pelo congelamento de preços e providências correlatas em 1986 deteriorou as condições de controle da inflação pela política econômica. Em ambos os casos trata-se de um espasmo de euforia demagógica seguido de deterioração do ambiente institucional, prejudicando a consecução dos objetivos a que ambas as empreitadas ostensivamente se dedicavam. Se persistir a instabilidade política em que mergulhamos nos últimos dois anos, não haverá qualquer razão para esperar melhoria progressiva no combate à corrupção.


Assim como o Cruzado deixou de se ocupar das causas mais permanentes da inflação, a Lava-Jato não traz consigo qualquer consideração sobre as causas dos ilícitos que ela investiga. Não se pergunta sobre os atributos do sistema institucional que favorecem as chances eleitorais daqueles envolvidos em esquemas agressivos de movimentação financeira escusa. Quando seus protagonistas fazem qualquer sugestão, limitam-se a pedir novos poderes de investigação e penas mais severas aos transgressores, ameaçando descaracterizar o Direito brasileiro com heterodoxias como restrições ao Habeas Corpus e aceitação de prova ilícita.

Diante da torrente infindável de denúncias, é preciso admitir a possibilidade de que o comportamento denunciado não seja de fato desviante, mas sim o comportamento-padrão dos mandatários eleitos no Brasil. Haveria razões bastante objetivas para isso: temos um sistema difícil de fiscalizar (com centenas ou mesmo milhares de candidaturas individuais por circunscrição), com votação sensível a gasto de campanha e fontes de recursos fortemente concentradas. Os eleitos, portanto, tenderão a depender de patronagem por poucos, grandes doadores, já que haverá um viés de seleção favorável àqueles que aceitam as doações desses grandes.Os esquemas desvelados todos os dias pela imprensa (numa rotina alimentada por vazamentos também ilegais) obviamente corroem as instituições políticas, e devem ser combatidos com rigor. Todavia, a bem da verdade, pelo menos na forma predominante nas revelações da delação da Odebrecht, eles tendem a ocorrer em quase todos os países do mundo: a venda de decisões, oculta sob doações eleitorais quase sempre legais, corrompe a democracia no planeta inteiro. Nossa principal peculiaridade reside no fato de que só no Brasil o teto para as doações é proporcional à renda do doador, abrindo brecha para a doação de milhões por uma única fonte e empurrando a elite política para um indecoroso beija-mão junto a doadores poderosos. Além desse, outro de nossos problemas, hoje em estudo no Congresso, decorre da falta de regulamentação do lobby, de uma delimitação clara do que se pode ou não se pode fazer nesse campo, até para que isso não fique ao sabor da interpretação do juiz de plantão.

Nesse cenário, quem se recusou a operar nos termos ditados pelos grandes doadores foi progressivamente expelido do sistema, pelo simples fato de que perdia eleições. A esta altura, quem ainda não foi exposto em alguma denúncia provavelmente deve sua sorte apenas à circunstância de não ter tido o seu operador investigado. Nessa toada, vão sobrar uns gatos pingados periféricos, com o sistema vulnerável aos aventureiros usuais nessas circunstâncias. Se isto é assim, então a ambição de “limpeza” implicada na delação premiada é contraproducente, até sob o ponto de vista de um combate sustentado à corrupção. Mais construtivo seria um processo de ajustamentos sucessivos de conduta – talvez criando-se algum instrumento análogo aos termos de ajustamento de conduta já conhecidos do nosso Ministério Público.

Talvez não exista previsão para algo semelhante aos TACs na investigação e no enquadramento das relações entre políticos e financiadores, mas isso é sempre legislável – e o Congresso certamente adoraria fazê-lo. Está claro que isso seria menos destrutivo do que a dinâmica autofágica que a delação premiada tem exibido. O próprio combate à corrupção se beneficiaria, a longo prazo.

Exceto pelo caso italiano (de consequências contraproducentes) a delação premiada nunca foi aplicada a investigações junto ao sistema político. Pelo simples fato de que nenhum sistema político fica em pé diante de uma investigação apoiada em instrumentos desse tipo. Pois todos os sistemas políticos, sem exceção, democráticos ou não, se apoiam em teias de compromissos e favores. E esta característica a política compartilha com o crime organizado, para cujo combate o instrumento da delação premiada foi concebido. Com sorte, quando tudo evolui bem, os compromissos implicados num regime político eventualmente se cristalizam numa ordem constitucional racionalizada com atribuição universal de direitos iguais, e isso os distinguirá das máfias ocasionais. Aquela rede, porém, permanece como a tessitura elementar da política. Os compromissos que constituem a ordem política só se distinguem da corrupção na medida em que a legislação ritualize os procedimentos que os legitimam e assim os consubstanciem em valores universais. Conceitualmente, é fácil distinguir entre um compromisso programático baseado em ideais e um ajuste corrupto de conveniências pessoais. Operacionalmente, nem tanto. O limite exato onde termina o ajuste lícito de interesses distintos e começa a corrupção acaba sendo traçado de variadas maneiras em cada país, definido convencionalmente, por tipificação legal.

A metodologia investigativa da delação premiada, concebida para se combater a Máfia, será fatalmente destrutiva em seus efeitos sobre sistemas políticos, dada a homologia formal entre as redes que constituem os dois sistemas. Por isso ela só foi empregada, para investigação política, na Itália – e, agora, no Brasil. E isso não se deu por Itália e Brasil serem mais corruptos que outros países. Mas simplesmente porque, pelas razões expostas, a delação premiada é autodestrutiva em política. Talvez tenha-se viabilizado aqui e na Itália por serem dois países com baixa auto-estima política, propensos a acreditarem que todos os políticos são corruptos. Assim, “prender todo mundo” se torna um objetivo publicamente aceitável.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o jogo bruto nos bastidores do sistema político, com abundante compra de decisões mediante pagamento oculto em doações de campanhas, é onipresente. Porém é verdade que, entre os americanos, o estrito ajuste pragmático de interesses goza de status normativo muito superior àquele de que desfruta entre nós. Aqui o próprio “lobby” é proibido. E toda negociação é espúria, e potencialmente criminalizável salvo por estrita observância de um rito processual pré-fixado ou por demonstração cabal de atendimento a uma mistificadora ideia de “interesse público”. Nesse enquadramento, toda barganha, todo ajuste de interesses vai para as sombras. Onde irá misturar-se ao crime, é claro.

Quando se trata de doação eleitoral devidamente declarada no caixa 1, pode até haver corrupção, mas não é trivial estabelecer-se o crime. Pois o representante político, como tal, deve gozar da liberdade de apoiar a proposição que quiser, e responderá politicamente por sua conduta. Na outra ponta, o cidadão privado tem o direito de apoiar, com sua doação, a causa que lhe aprouver, e isto deverá ser legítimo enquanto ele não tiver o poder de, sozinho, comprar a decisão que lhe apraz. Por isso é preciso estipular tetos para estas doações, e é imprescindível que esses tetos tenham o mesmo valor para todos. Na falta da imposição eficaz da observância desses tetos, ou quando os tetos são eles mesmos ineficazes, concentradores de influência política como em nosso caso, aí então esta compra indireta de decisões a serem pagas com doações eleitorais legais torna-se uma vulnerabilidade grave, difícil de se equacionar de modo a se preservarem tanto a natureza democrática do processo decisório quanto os direitos civis e políticos dos envolvidos. É um problema que, embora tenda, sim, a corromper a democracia no mundo todo, desafia soluções fáceis. Tais esquemas devem ser combatidos com vigor, sem dúvida. Aqui e alhures. Mas eles não são simplesmente erradicáveis. E o ônus da prova do crime, como se sabe, tem de recair sobre a acusação. Ou mataremos o doente com o remédio, e não haverá democracia que fique em pé.

Haverá, portanto, boas e más maneiras de se combaterem essas más práticas. Há maneiras construtivas de se combater a corrupção, por aperfeiçoamento progressivo de controles, cristalização de rotinas administrativas, qualificação permanente das instâncias burocráticas de vigilância, na estrita observância da lei pelos agentes de controle, assegurando os direitos dos implicados a cada passo. Isso reforça as regras. E há maneiras destrutivas, quando espasmos (sempre fúteis) de limpeza geral desorganizam o sistema político-partidário e, ao fazê-lo, desorganizam ironicamente o substrato político-institucional sobre o qual se assenta, no fim das contas, a própria autonomia dos órgãos de controle. Sendo o combate à corrupção tarefa permanente do estado, deve preocupar-nos a sustentabilidade desse combate ao longo do tempo.

Deve ser dito com clareza que o cumprimento do ideal democrático de total separação entre as fontes de poder econômico e de poder político (logo, de eliminação da corrupção) é uma tremenda exigência posta sobre a máquina do estado, mais fácil de falar que de fazer. Pois, de forma crua, envolve a capacidade de impor aos mais ricos o consentimento a decisões favorecidas por uma eventual maioria pobre. Em seus traços mais simples, a solução institucional formal para o problema consiste em não se permitir a ninguém comprar cargos políticos – nem as decisões deles decorrentes. Para o preenchimento dos cargos, fazem-se eleições; para as decisões, segue-se – após debate público – a vontade da maioria. Contudo, mesmo quando tudo corre bem, quando eleições são feitas e seus resultados são acatados, o problema fundamental que perdura é: como evitar que as desigualdades provenientes da competição econômica transbordem rumo ao sistema político, influenciando sistematicamente os resultados eleitorais e enviesando o sistema político em favor das pessoas mais ricas? Como evitar abuso de poder econômico nas campanhas eleitorais?


Nenhum regime democrático, em tempo algum, em país algum, pode se gabar de haver zerado esses abusos. O poder econômico e o poder político são como sistemas de vasos comunicantes, contra os quais se podem construir diques mais ou menos eficazes, mas nunca perfeitamente isolantes. Em tese, o maior ou menor sucesso nessa tarefa dependerá de uma combinação mais ou menos feliz da legislação sobre financiamento de campanhas, de um lado, com as características básicas do sistema eleitoral adotado, do outro – e os mapas de que dispomos como guias nessa tarefa são relativamente precários. Acima de tudo, em termos mais abstratos, dependerá da solidez das instituições vigentes, ao ponto de habilitá-las a sobreporem-se à influência “natural” do poder econômico sobre as decisões políticas.

Corrupto, a rigor, todo sistema é. O nosso é mais do que deveria, e seria possível melhorá-lo? Sem dúvida alguma, e temos a obrigação de nos empenharmos nessa tarefa. Qualquer coisa vale a pena nesse esforço? Não, se julgarmos que certas medidas podem piorar, em vez de melhorar, nossa capacidade de combater a corrupção na próxima esquina da história. Nunca é demais lembrar que, mesmo com toda a corrupção agora sob escrutínio, o sistema político brasileiro, em toda sua história, nunca havia funcionado menos mal que nas quase duas décadas que vão de 1994 a 2012. Tanto no que diz respeito à estabilidade política e econômica quanto à continuidade de políticas públicas, a conquistas sociais e, até mesmo, quanto ao combate à corrupção. Pior que está não fica? Creiam: em política é sempre bem mais fácil piorar que melhorar. E já temos piorado, desde 2013.

No que diz respeito ao objeto de seu combate, assim como o Plano Real requereu a substituição do espetáculo popular do congelamento por medida de administração mais complexa como a URV, acoplada a medidas estruturais menos visíveis e mais árduas como a reconcentração de recursos na União (mediante o então FSE, hoje DRU) e a renegociação das dívidas dos estados, também o enfrentamento mais rotineiramente confiável da corrupção vai requerer a substituição das toneladas de prisões provisórias abusivas e vazamentos ilegais para a imprensa, em favor de reenquadramento normativo do financiamento das campanhas e (talvez) do sistema eleitoral, e medidas legislativas na administração dos contratos do poder público. Para isso não precisamos depender do recurso a provas ilícitas, nem da restrição do habeas corpus, ingredientes autoritários que nossos bravos procuradores gostariam de obter. No nosso caso, algo que claramente torna o problema mais grave é o dispositivo, que só existe no Brasil, de um teto sobre doações eleitorais proporcional à renda do doador – o que legaliza doações milionárias e induz a elite política a gravitar em torno dos mais ricos, pois a lei diz que são eles os maiores doadores potenciais. O bom combate à corrupção, portanto, terá de se debruçar sobre isso, ou vai girar em falso.

Assim como a opinião pública hoje quer vingança, quer ver todo mundo na cadeia, no Cruzado os “fiscais do Sarney” fechavam supermercados que violavam as tabelas e Orestes Quércia se elegeu governador prometendo “laçar o boi no pasto” a partir de vistorias de helicóptero sobre as fazendas de gado. Assim como a corrupção hoje, a inflação era um problema real e grave, mas levamos quase dez anos pra sair do outro lado com alguma política apresentável de combate a ela. No meio tempo, foram uns cinco congelamentos, muitos cortes de zeros, e tudo piorou. Muito.
Analogamente, os últimos anos, vividos sob crescente incerteza política, têm afastado de nosso horizonte a perspectiva de qualquer acordo abrangente para uma mudança legislativa eficaz em coibir nossas práticas mais corruptas. Nisso, infelizmente, a Lava-Jato não tem ajudado. Na década passada, porém, as lideranças dos principais partidos na Câmara dos Deputados imploravam por ajuda no front do combate à corrupção eleitoral e, nesse esforço, chegaram em 2003 ao último acordo quanto a alguma reforma entre os líderes dos quatro maiores partidos. Relatado por Ronaldo Caiado, o PL 2679 propunha listas partidárias pré-ordenadas e financiamento público exclusivo, entre outras providências que serviam à viabilização destas. Nós, acadêmicos, demos de ombros e a imprensa denunciou as propostas como fraudes. Agora as condições se deterioraram e temos ficado mais distantes, não mais próximos de alguma melhoria.

Sempre se poderá dizer que o Cruzado foi um aprendizado importante no caminho para o Real. Sim, de fato, mas essa não era uma necessidade lógica. Foi apenas a maneira custosa, ineficiente, como a história se desenrolou. Se se fizesse a coisa certa desde o início, não havia nada de necessário em passar por todos aqueles congelamentos antes de chegarmos ao Real. Se pelo menos soubéssemos o que estávamos fazendo, poderíamos ter encurtado as dores do aprendizado, e assim talvez evitássemos o Plano Collor e a medida extrema do congelamento de ativos. De modo análogo, se soubermos o que fazemos agora, talvez possamos evitar o cenário mais grave, com a degeneração dos procedimentos judiciais de investigação respaldada por uma opinião pública furiosa, ou um outsider candidato a caudilho elevado à presidência pelo salvacionismo demagógico, surfando na onda da moralização.


Assim como foi o Cruzado, a Lava-Jato é um mal. Não é preciso passarmos por ela pra aperfeiçoarmos o combate à corrupção. Talvez, de fato, a Lava-Jato seja ainda mais danosa. Pois a inflação, à época do Cruzado, subia. Mas o nosso combate à corrupção, por sua vez, vinha melhorando. Qualquer pessoa que trabalhe com o setor público sabe que temos aperfeiçoado os controles ao longo das duas últimas décadas, embora ralos importantes continuem abertos. A Lava-Jato, porém, com seu messianismo populista desastrado, uma operação que se permite ela mesma violar a legislação enquanto acredita combater a corrupção, pode muito bem fazer retroagir esse processo por algumas décadas. Note-se: o Real foi um plano mais ortodoxo que o Cruzado.

Assim como foi o Cruzado, a Lava-Jato é um mal. Não é preciso passarmos por ela pra aperfeiçoarmos o combate à corrupção. Talvez, de fato, a Lava-Jato seja ainda mais danosa. Pois a inflação, à época do Cruzado, subia. Mas o nosso combate à corrupção, por sua vez, vinha melhorando. Qualquer pessoa que trabalhe com o setor público sabe que temos aperfeiçoado os controles ao longo das duas últimas décadas, embora ralos importantes continuem abertos. A Lava-Jato, porém, com seu messianismo populista desastrado, uma operação que se permite ela mesma violar a legislação enquanto acredita combater a corrupção, pode muito bem fazer retroagir esse processo por algumas décadas.
Assim como o Cruzado, a Lava-Jato, em seu gosto pelo espetáculo e no uso deliberado da pressão popular no curso da investigação, ocupa-se dos sintomas do problema que quer combater, deixando intocadas suas causas. Ela não tem um diagnóstico da corrupção que investiga. Ela julga estar combatendo pessoas más, que – à medida em que forem presas – serão naturalmente substituídas por pessoas boas, regenerando o sistema. Só que temos um sistema eleitoral institucionalmente capturado pelo poder econômico – seja este representado por empreiteiras, mineradoras e bancos, seja pelo crime organizado, por milicianos, por traficantes ou simplesmente por candidatos ricos. Na melhor das hipóteses, estamos enxugando gelo, enquanto desestabilizamos o sistema político menos malsucedido de nossa história.

O jogo era viciado, e tinha vulnerabilidades que tornavam previsível uma crise parecida com a atual. Não funcionar bem é sempre relativo, porque também o sistema político no Brasil nunca funcionou menos mal que no período FHC e Lula, com todas as suas conhecidas mazelas. A ideia é andar sempre para a frente, apertando parafusos, ajustando condutas. Porém agora, infelizmente, estamos à deriva. Alguns políticos, certamente, fizeram por onde e deveriam mesmo ser processados – e talvez presos. Mais ainda empreiteiros, e talvez alguns outros empresários de setores concentrados, que forram os protagonistas do mercado de financiamento de campanhas nas últimas décadas. A delação premiada, porém, não ajuda, pois faz qualquer sistema político desmoronar feito um castelo de cartas. Pior ainda é fazer acordo de leniência com doador para pegar político: é como fazer acordo de leniência com Don Corleone para pegar o gângster da esquina. Em nosso mercado, com as candidaturas ao legislativo pulverizadas e as fontes das doações concentradas, são os doadores quem detém poder de mercado, e portanto são eles quem dita os termos do negócio.


Agora, no meio do caos, a desesperança frente à óbvia enrascada empurra muitos dos mais entusiásticos reformadores na direção de uma miniconstituinte exclusivamente dedicada a isso. Mas a eventual eleição dessa miniconstituinte não se daria num vácuo político. Partidos lançariam candidatos, campanhas seriam feitas – e financiadas. E tudo teria de dar-se sob as regras vigentes. Por fim, não há qualquer razão para  esperar bom comportamento por um grupo que se materializasse nessa ocasião e depois fosse pra casa por dez anos, cumprir quarentena. Esses sim, estariam mais que nunca à mercê do poder econômico. Se o controle de representantes eleitos é sempre precário em qualquer circunstância, nesse caso qualquer esperança de controle eleitoral desse grupo sumiria de vez. Com toda probabilidade, eles seriam piores que os deputados de verdade. As regras devem ser fixadas por quem vai ter que viver com elas, e responder por elas. Não por pessoas que chegam lá, ditam umas coisas aleatórias das cabeças delas e vão para casa, eventualmente deixando o desastre nas costas de outras. Não adianta. A eventual reforma tem de interessar aos representantes eleitos. É sempre difícil fazer isso? É. É impossível? Não. Na década passada eles estavam puxando um debate construtivo, e ninguém acompanhou. Agora, ajuda a resolver quando começamos a prender toneladas de políticos? Não, infelizmente não ajuda. Era inevitável prender? Não, não era. A jurisprudência internacional na maioria dos casos não prende, e mesmo a vigente no Brasil até há poucos anos não prendia. Por tudo isso a Lava-Jato é o Plano Cruzado do combate à corrupção. Tão bem-intencionada quanto o Plano Cruzado. De impacto popular e midiático tão grande quanto o Plano Cruzado. E tão desastrada e contraproducente quanto o Plano Cruzado.









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12 setembro 2017

A patrulha fundamentalista censura a arte e repete o Partido Nazista

A arte que virou pornografia aos olhos dos neofundamentalistas, artigo de Ivana Bentes na Revista Cult, fala da exposição do Santander Cultural de Porto Alegre que acabou sendo fechada pelo próprio banco.



O banco "cedeu ao obscurantismo", diz Bentes.

A exposição tinha cerca de 270 obras de arte de artistas consagrados,  como Volpi, Portinari, Flávio de Carvalho, Ligia Clark, Alair Gomes e Adriana Varejão, entre outros. O "problema": a exposição trata de questões de gênero, diversidade e da temática LGBT. 

"A pressão veio de movimentos religiosos, seguidores do MBL que postaram em suas páginas matérias, textos e vídeos incitando o ódio, acusando o curador de perversão, ameaçando e agredindo verbalmente os visitantes e artistas em nome da moral e dos bons costumes." 

Para Bentes, "o exército de zumbis só vê “pedofilia”, “pornografia”, “depravação”, “imoralidade”, “blasfêmia”. Falam do absurdo que é misturar sexo e religião, mas se olharem o teto da Capela Sistina verão uma suntuosa representação de Michelangelo com cenas de nudez e sexo, que vão da criação, passam por Adão e Eva e chegam ao juízo final, expressando todos os tipos de paixões humanas. Isso em pleno Vaticano."   

"O direito de “não ver” é muito fácil de ser exercido em uma exposição. Basta não frequentá-la ao ser alertado de seu “conteúdo adulto” ou violento. Mas para os fundamentalistas é preciso censurar, impedir e destruir o direito de ver."

"A patrulha fundamentalista e de “ódioartivismo” repete o Partido Nazista da Alemanha, nos anos 1930, que passou a perseguir o que considerava uma “arte degenerada”, ligada aos movimentos vanguardistas modernos. Picasso, Matisse, Mondrian, glórias da arte mundial, foram considerados “degenerados” e execrados em exposições pelos nazis. Repete-se no Brasil de 2017 o ridículo histórico."   


















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Caiu a ficha

Finalmente, ciência política resgata análises sobre o papel central e perverso que alguns grupos de interesse exercem na política, contra a democracia e a representação. 
Demorou!



Artigo recente de Sarah Anzia e Terry Moe (2017) recupera a importância de uma literatura “clássica” sobre o tema (Lowi, Schattschneider, McConnell) que, por várias décadas, foi sendo deixada de lado por uma visão idílica do sistema político como um jogo bem equilibrado, que poderia ser explicado pela competição isonômica entre partidos no mercado político e pela ideia de um eleitor mediano que seria seu consumidor essencial e principal decisor do resultado eleitoral.

Governos capturados

Ao contrário, parece que Theodore Lowi (1969) tinha razão quando argumentou que alguns governos, como o dos Estados Unidos, não estariam se comportando como uma arena promotora de uma concorrência pluralista, e sim, se tornando uma versão corrompida da representação, dada a maneira como foram colonizados por grupos de interesse. 

A autoridade pública, ao invés de se posicionar no papel de árbitro, promove políticas feitas sob medida para grupos de interesses, às custa da maioria dos cidadãos. 

A ciência política acordou?

O texto mostra que finalmente se consolidou uma tendência, pelo menos na ciência política estadunidense, de novamente trazer os grupos de interesse para o centro do debate político. 

Conforme Anzia e Moe, a revolução downsiana (referência à obra de Anthony Downs, Uma teoria econômica da democracia, de 1957) transformou a ciência política durante os anos 1970 e 1980, enxergando a política como uma equação simples que juntaria políticos, eleitores e eleições. Os grupos de interesse foram empurrados para a periferia da análise.

Os grupos de interesse continuaram a ser estudados, mas com um foco muito estreito, principalmente em lobby e PACs (os supercomitês de arrecadação de dinheiro), perdendo muito da capacidade analítica de entender os rumos da política. 

Hoje, uma "contrarrevolução" está e curso. À frente, Hacker e Pierson (2014), que argumentam que os partidos provisionam políticas para os grupos de interesse, sendo isso a força motriz do processo político. 

Também na vanguarda estão Cohen et al. (2008) e Bawn et al. (2012), que argumentam que os partidos políticos americanos são coalizões de grupos de interesse que atendem a grupos escolhendo políticas no "ponto cego eleitoral" dos eleitores, os quais estão muito mal informados para saber que seus próprios interesses não estão sendo servidos".

Ligações perigosas

Para Anzia e Moe, os grupos de interesse foram postos de lado por tempo demais nas análises políticas. É hora de reconectar essas análises com uma literatura antiga, mas ainda atual e de grande importância, da qual a ciência política se desviou e que destacava temas como da captura, de subsistemas governamentais e da transformação do suposto liberalismo de grupos de interesse (Lowi, 1969; McConnell, 1966; Schattschneider, 1960).


"Os grupos de interesse não influenciam apenas o governo do exterior, através de lobby e contribuições de campanha, mas também penetram em seu interior - por meio da burocracia - como participantes regulares e até oficiais na tomada de decisões, exercendo sua influência protegidos da exposição pública."

A ideia de que grupos de interesse agem de fora, como se fossem estrangeiros em relação aos governos, e que sua influência se restringiria à pressão por meio do lobby e da mídia, passa a ceder lugar a uma agenda que visa detectar de que maneira tais grupos estendem seus tentáculos e se enraízam na máquina governamental. 

Uma nova e imensa agenda de pesquisa


"Os cientistas políticos precisam estudar como os grupos abrem trilhas dentro da maquinaria governamental; como o envolvimento íntimo de seus integrantes varia de acordo com as políticas e dos pontos de contato com a burocracia; e que conseqüências isso tem".

Parece que o alastramento da exposição dos casos de corrupção na política, no mundo inteiro, acordou a ciência política sobre o fato de que há algo de podre nas poliarquias. Antes tarde do que nunca.




Obras citadas:

Anzia, Sarah F. and Moe, Terry. (2017). Interest Groups on the Inside: The Governance of Public Pension Funds. Avaible at https://gspp.berkeley.edu/assets/uploads/research/pdf/Anzia_Moe_PensionBoardsAll_April2017.pdf

Bawn, Kathleen, Martin Cohen, David Karol, Seth Masket, Hans Noel, and John Zaller. 2012. “A Theory of Political Parties: Groups, Policy Demands and Nominations in American Politics.” Perspectives on Politics 10(3): 571-97.

Cohen, Marty, David Karol, Hans Noel, and John Zaller. 2008. The Party Decides: Presidential Nominations Before and After Reform. Chicago: University of Chicago Press.  

Lowi, T. J. (1969). The end of liberalism. New York: Norton.  
McConnell, Grant. 1966. Private Power and American Democracy. New York: Knopf

Schattschneider, E. E. (1960). The semi-sovereign people. New York: Holt, Rinehart & Winston.




Na foto acima, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se encontra com o advogado do grupo JEF em um bar em Brasília.









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26 agosto 2017

Comparado a Portugal, o Brasil é que virou piada




Enquanto o Brasil segue na contramão, Portugal oferece um bom contraponto para sairmos da crise.


Nenhuma alternativa à austeridade? Essa mentira já foi derrubada
Owen Jones
Leia abaixo trechos (em tradução para o Português) do artigo de Owen Jones, colunista do jornal britâncio The Guardian (No alternative to austerity? That lie has now been nailed).


Desde que os bancos mergulharam o mundo ocidental no caos econômico, nos disseram que apenas cortes de gastos oferecem salvação econômica.
[...]

A metáfora economicamente inculta do orçamento familiar foi empregada incansavelmente - se você não deve gastar mais se estiver endividado, então, por que a nação deveria? - para popularizar uma falácia ideologicamente motivada.

Mas agora,

graças a Portugal, sabemos o quanto falhou a experiência de austeridade aplicada em toda a Europa. 

Portugal foi uma das nações europeias mais atingidas pela crise econômica. Depois de um resgate por uma troika, incluindo o Fundo Monetário Internacional, os credores exigiram rigorosas medidas de austeridade que foram adotadas com entusiasmo pelo então governo conservador de Lisboa.

Os serviços públicos foram privatizados, houve aumento do IVA [imposto sobre o consumo], foi criada uma sobretaxa sobre os rendimentos, os gastos do setor público e as pensões foram reduzidas,  benefícios foram cortados e a jornada de trabalho foi ampliada.

Em um período de dois anos, os gastos com educação sofreram um corte devastador de 23%. Os serviços de saúde e a proteção social também sofreram. As consequências humanas foram terríveis. O desemprego atingiu um pico de 17,5% em 2013; Em 2012, houve um salto de 41% nas falências da empresa; E a pobreza aumentou.

A lógica era que isso tudo era necessário para curar a doença do excesso de gastos.

No final de 2015, esse experimento chegou ao fim. Um novo governo, socialista, com o apoio de partidos de esquerda mais radicais, assumiu o cargo.

O primeiro-ministro, Antônio Costa, prometeu "virar a página da austeridade". Ela havia feito o país retroceder três décadas, disse ele. 

Os opositores do governo predisseram um desastre - "economia vudu", apelidaram. Talvez um outro resgate financeiro seria acionado, levando à recessão e a cortes até mais acentuados.

Antes disso, havia um precedente: o [partido] Syriza havia sido eleito na Grécia apenas alguns meses antes, e as autoridades da zona do euro não estavam dispostas a permitir que essa experiência fosse bem-sucedida. Como Portugal poderia evitar sua própria tragédia grega?

A lógica econômica do novo governo português foi clara. Os cortes haviam suprimido a demanda: para uma recuperação genuína, a demanda teria que ser impulsionada.

O governo prometeu aumentar o salário mínimo, reverter os aumentos de impostos regressivos [ou seja, desfazer a lógica perversa atual de que quem ganha menos - os mais pobres e a classe média - paga mais, e os ricos pagam menos], devolver os salários e as pensões do setor público aos níveis anteriores à crise - os salários de muitos despencaram em 30% - e reintroduzir quatro feriados públicos cancelados. 

A proteção social às famílias mais pobres foi reforçada, enquanto uma taxa sobre bens de luxo foi imposta a casas no valor de mais de 600.000 Euros (£ 550.000).

O desastre prometido não se materializou. 

No outono de 2016 - um ano depois de assumir o poder - o governo poderia se orgulhar de um crescimento econômico sustentado e um salto de 13% no investimento das empresas. E este ano, os números mostraram que o déficit diminuiu mais da metade, para 2,1% - menor do que em qualquer momento desde o retorno da democracia, há quatro décadas.

Na verdade, esta é a primeira vez que Portugal alcançou as metas fiscais da zona do Euro. Enquanto isso, a economia cresceu por 13 trimestres consecutivos.

Durante os anos de cortes de gastos, as organizações de caridade alertaram sobre uma "emergência social". Agora, o governo português pode se apresentar como um modelo para o resto do continente.

"A Europa escolheu a linha de austeridade e teve resultados muito pior", declarou o ministro da economia, Manuel Caldeira Cabral. "O que estamos mostrando é que, com uma política que reúne renda às pessoas de forma moderada, as pessoas ganham mais confiança e retornam investimentos".

Portugal aumentou o investimento público, reduziu o déficit, reduziu o desemprego e trouxe crescimento econômico sustentado. Nos disseram que isso era impossível e francamente delirante. 
[...]
O sucesso de Portugal é inspirador e frustrante. Toda essa miséria humana na Europa - e para que? E a Grécia, onde mais da metade dos jovens caiu no desalento do desemprego, onde os serviços de saúde foram dizimados, onde a mortalidade infantil e o suicídio aumentaram? E a Espanha, onde centenas de milhares foram expulsos de suas casas? E a França, onde a insegurança econômica alimentou o surgimento da extrema direita?

Portugal e Grã-Bretanha também oferecem lições para a social-democracia. Após o colapso dos banqueiros, os partidos social-democratas abraçaram a austeridade. O resultado? Colapso político. Na Espanha, o apoio aos socialistas caiu de 44% para os 20 baixos, enquanto o radical esquerdo de Podemos comeu em seu voto. Na Grécia, o Pasok quase desapareceu como força política. Na França, os socialistas alcançaram pouco mais de 6% na primeira rodada das eleições presidenciais deste ano. E na Holanda, este ano, o Partido Trabalhista caiu de um quarto das votações para menos de 6%.


Em contrapartida, os dois partidos social-democratas que romperam com a austeridade - em Portugal e Grã-Bretanha - agora estão melhores do que quase todos os seus homólogos europeus. Na verdade, as pesquisas mostram os socialistas de Portugal agora a 10 pontos de distância à frente do partido de direita do país.

A austeridade da Europa tem sido justificada com o mantra "não há alternativa", destinada a empurrar a população para a submissão: temos que ser adultos e viver no mundo real, afinal.

Portugal oferece uma forte reprimenda. A esquerda da Europa deve usar a experiência portuguesa para remodelar a União Européia e se contrapor à austeridade em toda a zona do euro. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista pode se sentir mais encorajado ao romper com a ordem econômica dos conservadores.

Ao longo da década perdida da Europa, milhões de nós consideramos que haveria uma alternativa. Agora temos a prova.





Leia também:
Portugal está superando crise econômica sem recorrer a fórmulas de austeridade, diz Economist (matéria da BBC).








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No alternative to austerity? That lie has now been nailed



By Owen Jones*, The Guardian.


Ever since the banks plunged the western world into economic chaos, we have been told that only cuts offer economic salvation. When the Conservatives and the Lib Dems formed their austerity coalition in 2010, they told the electorate – in apocalyptic tones – that without George Osborne’s scalpel, Britain would go the way of Greece. The economically illiterate metaphor of a household budget was relentlessly deployed – you shouldn’t spend more if you’re personally in debt, so why should the nation? – to popularise an ideologically driven fallacy.

But now, thanks to Portugal, we know how flawed the austerity experiment enforced across Europe was. Portugal was one of the European nations hardest hit by the economic crisis. After a bailout by a troika including the International Monetary Fund, creditors demanded stringent austerity measures that were enthusiastically implemented by Lisbon’s then conservative government. Utilities were privatised, VAT raised, a surtax imposed on incomes, public sector pay and pensions slashed and benefits cut, and the working day was extended.

In a two-year period, education spending suffered a devastating 23% cut. Health services and social security suffered too. The human consequences were dire. Unemployment peaked at 17.5% in 2013; in 2012, there was a 41% jump in company bankruptcies; and poverty increased. 


All this was necessary to cure the overspending disease, went the logic.
At the end of 2015, this experiment came to an end. A new socialist government – with the support of more radical leftwing parties – assumed office.

The prime minister, António Costa, pledged to “turn the page on austerity”: it had sent the country back three decades, he said. 

The government’s opponents predicted disaster – “voodoo economics”, they called it. Perhaps another bailout would be triggered, leading to recession and even steeper cuts.

[...]

The economic rationale of the new Portuguese government was clear. Cuts suppressed demand: for a genuine recovery, demand had to be boosted.

The government pledged to increase the minimum wage, reverse regressive tax increases, return public sector wages and pensions to their pre-crisis levels – the salaries of many had plummeted by 30% – and reintroduce four cancelled public holidays. Social security for poorer families was increased, while a luxury charge was imposed on homes worth over €600,000 (£550,000).

The promised disaster did not materialise.

By the autumn of 2016 – a year after taking power – the government could boast of sustained economic growth, and a 13% jump in corporate investment. And this year, figures showed the deficit had more than halved, to 2.1% – lower than at any time since the return of democracy four decades ago.

Indeed, this is the first time Portugal has ever met eurozone fiscal rules. Meanwhile, the economy has now grown for 13 successive quarters.
Throughout Europe’s lost decade, millions of us held that there was indeed an alternative. Now we have the proof.




Read the full article at The Guardian.













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