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27 setembro 2018

Em desespero, candidatura Alckmin apela para "vaquinha" de intenções de voto



Nos últimos dias, três mosqueteiros foram vistos lambendo picolé de chuchu apimentado e vertendo lágrimas pelo canto dos olhos. São eles: Roberto Giannetti da Fonseca, José Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo. Os três escreveram artigos para o jornal Folha de S. Paulo tendo por mote a pergunta: "A democracia corre risco?"



Artigo de Antonio Lassance (*). 

Chuchu com pimenta

A campanha do insosso Geraldo Alckmin tem feito de tudo para melhorar sua receita. Primeiro, colocou uma pitada de extrema direita em sua chapa, chamando a senadora Ana Amélia para ser vice. Ana Amélia é aquela que não sabe a diferença entre a rede de televisão Al-Jazeera, um oásis de liberdade de imprensa no mundo árabe, e o Estado Islâmico. Ora, bolas! Todos comentem confusões. Talvez por isso Amélia, que era a vice de verdade, não se incomodou quando Alckmin trocou seu nome pelo da senadora Kátia Abreu, em uma entrevista.

Depois, Alckmin pisou em solo nordestino e vestiu chapéu de couro para gravar  vídeo de campanha. Foi a primeira vez que um astronauta de Pindamonhangaba pisou em solo lunar, em busca de um picolé de mandacaru. A missão terminou abortada pelo berro de cabras indignadas que suspeitaram: "não é o Lula!".

Agora, em plena reta final do primeiro turno, resolveram colocar pimenta no picolé de chuchu. Será que vai dar certo?

Os três mosqueteiros

Nos últimos dias, três mosqueteiros foram vistos lambendo picolé de chuchu apimentado e vertendo lágrimas pelo canto dos olhos. São eles: Roberto Giannetti da Fonseca, José Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo. Os três escreveram artigos para o jornal Folha de S. Paulo tendo por mote a pergunta: "A democracia corre risco?"

Roberto Giannetti da Fonseca é aquele que, recentemente, pediu afastamento das assessorias que fazia às campanhas de Alckmin e Doria por ter se tornado alvo da 10ª fase da Operação Zelotes, que investiga escândalos de sonegação na casa dos bilhões. Parece que já voltou à ativa - me refiro à campanha ativa, e não, ainda, à dívida ativa.

José Álvaro Moisés, professor de uma ciência política aposentada, pediu ajuda ao consultor marqueteiro de Temer, Rubens Figueiredo, integrante de um tal "grupo de comunicação estratégica" do governo do atual presidente. "Grupo" que, aliás, se notabilizou por também reunir, entre outros, Marco Antonio Villa, que hoje trabalha como radialista revoltado em uma rádio de São Paulo, e José Yunes, amigo pessoal de Temer e advogado em cujo escritório, segundo investigações da PF, recebia dinheiro vivo para campanhas do partido do presidente. Realmente, algo bem estratégico. 

Os três marqueteiros, ou melhor, mosqueteiros, em uníssono, usaram as páginas do jornal Folha de S. Paulo para rogar aos candidatos de centro que se unam para colocar um alguém confiável no segundo turno, evitando a polarização entre o Coiso e o PT. 

Moisés e Figueiredo citam como sendo o centro: Alckmin, Marina, Álvaro Dias, Meirelles e Amoêdo. Pois é, excluíram o Ciro. Talvez Ana Amélia o tenha identificado como membro da Al Qaeda.

Giannetti foi explícito, em um dos apelos mais patéticos já vistos nas páginas de opinião daquele jornal:

"Não deveríamos avaliar como um ato patriótico, neste momento de flagrante risco institucional, alinharmos um apoio condicional ao candidato Geraldo Alckmin, que, apesar de estagnado na faixa de 10% do eleitorado segundo as recentes pesquisas, parece ser o único que reúne condições de virar o jogo para a vitória dos moderados de centro no segundo turno?" 

Esse tipo de pregação está longe de ser análise. É peça de campanha. A candidatura de Alckmin deveria ter pagado a Folha por uso de espaço publicitário.

O espirro dos espada… atchins

O espirro dos esbirros repercutiu mal. O que os espada… atchins de Alckmin fazem é uma desesperada e vergonhosa  tentativa de organizar uma "vaquinha" de intenções de voto, passando o chapéu em candidaturas que, à exceção da de Marina Silva, se esforçam por superar os 3 centavos de margem de erro.

A campanha vai tão mal que o candidato do centrão já se contentaria em se tornar o candidato do centrinho.

A leitura desses artigos citados mostra que, em eleições acirradas, a primeira vítima é o bom senso.

Esse Giannetti que hoje chama o PT de "extremista" é o mesmo que, não faz muito tempo, defendeu Lula e Dilma como autores de uma política de Estado "não ideológica". Disse ele em seminário sobre financiamentos públicos às exportações de serviços de engenharia: 


“Que história é essa de se chegar no Senado e falar mal destes financiamentos por eles terem sido criados pelos presidentes Lula e Dilma? Isso tem que se tornar um projeto de Estado”. 
(O seminário foi promovido pelo jornal Valor Econômico, das organizações Globo, em 15 de junho de 2015). 

Por sua vez, em artigo amorosamente intitulado "O fenômeno Temer", Rubens Figueiredo mostrou habilidades de um trapezista de circo para fazer rápidas piruetas de raciocínio que precisam de um Dramin para não provocar enjoos. Disse ele:

"É simplesmente admirável que Temer, com toda sua limitação para ser um pop star da política e frente a tantas dificuldades, tenha conseguido, até agora, um desempenho espetacular. Nem mesmo Lula, à época tido internacionalmente como "o cara", chegou a ter a base parlamentar que Temer granjeou. A discrição venceu a idolatria, o mérito superou a fanfarronice."

Como se vê, a fanfarronice não é um privilégio dos políticos. Tem contaminado muito cientista político marqueteiro membro de grupo de comunicação estratégica por aí. 

José Álvaro Moisés, igualmente entusiasmado com Michel Temer, foi profético. Em maio de 2016, ainda em plena ressaca da farra do golpe, escreveu um artigo em que respondia à pergunta sobre se "o governo Temer será capaz de unir o país e superar a crise?". 

De forma taxativa e em letras garrafais, disse: "SIM". A profecia de fato foi cumprida. Uma pena que de forma diametralmente contrária à esperada pelo articulista. Atualmente, "Todo mundo odeia o Temer" é uma série de muito mais sucesso do que "Todo mundo odeia o Chris".

Escalar Giannetti da Fonseca, Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo para a tarefa de dourar a pílula indigesta do candidato tucano, a essa altura do campeonato, é um sinal não apenas de mau agouro para Alckmin. É um atestado de que sua candidatura realmente está sem gasolina e sem prestígio. 

Mais uma vez, fomos salvos pelo bom senso de uma Maria

Por sorte, apareceu Maria Hermínia Tavares de Almeida, com a elegância, inteligência e espírito democrático que lhe são peculiares, para colocar um pouco de bom senso no debate.

Ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política (2004-2008) e professora da USP que, antes, passou pela Unicamp e CEBRAP, Maria Hermínia escreveu artigo em que afirma, desde o título: 


a ameaça nas eleições vem da extrema direita, e isso é consequência de o PSDB ter perdido capacidade de reunir a centro-direita em torno de seu candidato.

Mesmo com várias críticas ao PT, a cientista política lembra que Lula, quando foi derrotado em 1989, 1994 e 1998, aceitou os resultados sem contestá-los. Diferentemente do PSDB, em 2014.

Lula também poderia, se quisesse, ter dado asas às pretensões de mudar a Constituição em busca de um terceiro mandato, como vimos acontecer em outros países da América do Sul. Não o fez. 


"Ao ascender ao Planalto, a agremiação consolidou uma liderança moderada de centro-esquerda e governou rigorosamente dentro das regras democráticas. Não procurou calar a imprensa que lhe fazia oposição, nem controlar o Judiciário que exerceu com liberdade sua vocação antimajoritária”.

Nas entrelinhas, Maria Hermínia puxa a orelha de quem brinca com o extremismo para, por razões eleitoreiras, atacar uma candidatura de centro-esquerda que é claramente democrática e moderada.

Pena que Alckmin, Ana Amélia e os três mosqueteiros não estejam preocupados com isso. Estão preocupados com o fato de que sua vaquinha está indo para o brejo.

(*) Antonio Lassance é doutor em ciência política pela Universidade de Brasília.
Artigo publicado na Carta Maior.


Fontes dos artigos citados:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares-de-almeida/2018/09/ameaca-nas-eleicoes-vem-da-extrema-direita.shtml
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/09/a-democracia-corre-risco.shtml?loggedpaywall
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/05/1771270-governo-temer-sera-capaz-de-unir-o-pais-e-superar-a-crise-sim.shtml
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2016/11/19/interna_politica,825146/temer-realiza-reuniao-com-conselho-de-comunicacao-em-sp.shtml
https://www.viomundo.com.br/politica/seminario-discutido-por-lula-em-grampo-com-executivo-foi-promovido-pelo-valor-economico.html
http://www.vermelho.org.br/noticia/315382-1










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09 abril 2018

A multidão, generosa, aflita e inconformada, estende os braços como quem teima em nadar contra a correnteza de uma caudalosa despedida.




O gesto era parte do sonho de resgatá-lo do turbilhão e trazê-lo em segurança para a margem esquerda do rio.

A pintura realista de Lula carregado nos ombros do povo, nadando em um mar de companheiras e companheiros, viralizou no Brasil e ganhou o mundo. Foi tirada no último andar do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Onde tudo começou.

A imagem que fez jus à dimensão popular e histórica de Lula foi captada pelas lentes da câmera de Francisco Proner Ramosfotógrafo de apenas 18 anos.

Um pouco mais da história do jovem fotógrafo está contada no Diário do Centro do Mundo (DCM), 8 de abril de 2018.

Ele também tem sua própria página, que vale a pena ser visitada: https://www.franciscopronerramos.com






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27 janeiro 2018

Comunicado da "justiça" aos eleitores




Artigo de Antonio Lassance*
Publicado no Jornal GGN, Viomundo, Sul 21, RSurgente,



Prezado eleitor, prezada eleitora,

A "justiça a jato" apresenta, orgulhosamente, os candidatos às eleições deste ano. 
O judiciário brasileiro cumpre assim o seu papel de dizer quais são as opções sérias em que você poderá votar. 
Os postulantes foram todos juramentados pelo "grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo". 
Uma das opções à sua disposição é Michel Temer, caso ele próprio resolva se candidatar à reeleição, independentemente das malas de dinheiro amealhadas por Rocha Loures, Geddel e Cia Ltda. 
Outra opção válida é Fernando Collor de Mello.  Passados céleres 25 anos, isso mesmo, um quarto de século, desde que foi afastado da presidência da República, Collor foi absolvido das acusações de peculato, corrupção passiva e falsidade ideológica. O ex-presidente exibe essa certidão como prova de sua boa índole, embora as denúncias, em sua maioria, tenham simplesmente prescrito - ou seja, ficaram tanto tempo sem ser julgadas que os crimes nem podem mais motivar condenação.
Sabemos que eleição é um prato cheio para novidades. A mais recente delas é a descoberta de que o presidenciável Jair Bolsonaro e sua família apresentaram uma evolução patrimonial extraordinária e incompatível com seus salários. Desde que entraram para a política, os bens e dinheiro guardados pelos Bolsonaros somam mais de R$ 15 milhões. Nada mal para quem está começando, não é mesmo?
Embora todas essas sejam opções válidas, nenhuma se compara às dos tucanos, que têm em suas hostes nomes imbatíveis em matéria de inimputabilidade. Geraldo Alckmin e José Serra são duas delas. Denunciados, entre outros, no escândalo do "trensalão tucano" - o roubo de dinheiro da construção do metrô de São Paulo -, com depósitos de propina devidamente rastreados pela Suíça, Alckmin e Serra continuam à sua disposição eleitoral. Há processos contra eles, mas não se preocupe. Tais processos simplesmente não andam ou serão oportunamente engavetados. Afinal, a "justiça" é Para Todos.
Até mesmo Aécio pode ser seu candidato à presidência. Aécio sempre foi e continua sendo ficha limpa, assim como Temer, Collor, Alckmin, Serra, Sarney, Jucá, Rodrigo Maia, Bolsonaro, Álvaro Dias e "tutti quanti". Isso mesmo depois daquela mala de dinheiro que ele apenas supostamente pediu e recebeu.  Imagine o sucesso de um candidato com o slogan: "tem que ser um que a gente mata antes de fazer a delação". 
A "justiça" apenas lamenta informar que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva estará inabilitado, dentro da maior brevidade possível, de ser uma opção válida à sua escolha. 
O senhor Lula cometeu alguns crimes terríveis. Por exemplo, esse senhor visitou um apartamento triplex acompanhado de um empreiteiro, e isso é crime punível com prisão. Mesmo que esse imóvel esteja registrado em cartório em nome da OAS e tenha sido penhorado pela justiça, em uma ação contra a empreiteira, convenhamos, não é possível mais confiar em documentos de cartório e em decisões da própria justiça.
Como se não bastasse, para esse apartamento foram comprados geladeira, microondas e um tampo de pia, ou seja, eletrodomésticos e utensílios que sabidamente apenas o ex-presidente usa. Lula também é usuário contumaz de elevadores privativos e piscinas, equipamentos presentes nesse triplex. 
Diante de fatos que demonstram sobejamente a que ponto pode chegar a perversidade de uma organização criminosa, a conduta do ex-presidente configura um conjunto de crimes inafiançáveis que o tornam indigno de participar do processo eleitoral e ombrear com esses estadistas supracitados. 
Com tais providências, a "justiça a jato" espera ter deixado claro a todas as brasileiras e brasileiros o quanto contribuiu para melhorar a qualidade da política em nosso país. 
Fizemos a nossa parte. O resto agora é com você, eleitor e eleitora. Façam bom proveito desse momento.






Antonio Lassance é cientista político.













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24 outubro 2017

As mentiras que os Bolsonaros contam e muitos acreditam

Falsos, questionáveis ou imprecisos é o mínimo que se pode dizer a respeito do que Jair e Eduardo Bolsonaro dizem.


Leia a matéria de Thays Lavor e Tai Nalon no blog Aos Fatos (20 de outubro de 2017), que checa informações e verifica até que ponto elas são confiáveis.



O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) visitou o Ceará no último dia 2 de outubro, onde participou de duas audiências públicas para debater o projeto Escola Sem Partido. Tanto na Assembleia Legislativa do Ceará quanto na Câmara dos Vereadores do município de Baturité, a 90 km de Fortaleza, o deputado defendeu o projeto e a candidatura à Presidência da República do pai, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), assim como citou dados equivocados a respeito da violência na Venezuela e de mortes motivadas pelos regimes nazista e stalinista. Bolsonaro-filho Ainda citou afirmações nunca ditas por Lênin e Marx.

Aos Fatos checou as declarações do deputado. Acompanhe abaixo.


IMPRECISO

"Meu pai [Jair Bolsonaro] tem sete mandatos na vida pública e sem nenhuma denúncia de corrupção."

O nome de Jair Bolsonaro aparece em uma lista de propinas pagas pela JBS a 28 partidos durante as eleições de 2014. O documento foi apresentado pelo executivo Ricardo Saud ao firmar um acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. Segundo o delator, o valor pago ao deputado corresponde a R$ 200 mil. Na época, Bolsonaro-pai era filiado ao PP. A doação também consta do site do Tribunal Superior Eleitoral, declarada oficialmente. Até o momento, Jair Bolsonaro não é alvo de inquérito específico.

Aos Fatos procurou ao longo desta semana a assessoria de imprensa do deputado federal por telefone e por e-mail, a fim de obter esclarecimentos. Até a última atualização desta reportagem, no entanto, não havia recebido qualquer retorno.

Em abril deste ano, Bolsonaro-pai foi condenado a pagar R$ 50 mil por danos morais por declarações consideradas preconceituosas sobre os quilombolas. A ação, movida pelo Ministério Público Federal, foi julgada na 26ª Vara Federal do Rio de Janeiro pela juíza Frana Elizabeth Mendes. Bolsonaro afirmou que vai recorrer da decisão.


IMPRECISO

"Porque que eles acham e você vê deputados apoiando o regime na Venezuela? Por quê? Lá está tendo uma mortalidade muito maior do que aqui. Aqui nós temos quase 30 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. O tolerável pela ONU são dez. Aqui nós estamos três vezes mais. Lá na Venezuela, Caracas, este número está em 120 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes."

O deputado compara números nacionais, do Brasil, com números da capital venezuelana. Isso não é recomendável, já que uma cidade pode apresentar números muito superiores do que a média de um país inteiro — o que de fato ocorre não só na Venezuela, mas também em território brasileiro. Mesmo assim, Aos Fatos foi às bases da Organização Mundial da Saúde e da ONG Seguridad, Justicia e Paz, que apresentam números em nível nacional e por município, respectivamente.

O último relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que trata de taxas de violência no mundo no ano de 2015, incluindo caso de homicídios, aponta o Brasil com uma taxa de 30,5 homicídios para cada 100 mil habitantes. Ou seja, a afirmação do deputado, nesse quesito, é correta. A taxa é realmente superior ao que é considerado tolerável pela instituição, que são de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Entretanto, o documento não trabalha com os índices por municípios — somente países. No continente americano, o Brasil só é menos violento que Colômbia (48,8), Venezuela (51,7), El Salvador (63,2) e Honduras (85,7).

No entanto, diferentemente do que o deputado costuma defender, a ONU (Organização das Nações Unidas) diz que um dos principais impulsionadores das taxas de assassinato no mundo é o acesso a armas, com aproximadamente metade de todos os homicídios cometidos com armas de fogo.

Já a ONG Seguridad, Justicia y Paz divulga anualmente a lista das 50 cidades mais violentas do mundo. Em 2016, Caracas aparece como a capital mais violenta do mundo, com uma taxa de 130,35 homicídios por 100 mil habitantes — acima dos números divulgados por Bolsonaro. A Venezuela tem outras sete cidades nesse ranking: Maturín (84,21), Ciudad Guayana (82,84) e Valencia (72,02) estão, junto com Caracas, entre as dez mais violentas do mundo.

O que o deputado não diz é que o Brasil aparece nesse mesmo ranking com 21 cidades. Natal (RN) aparece é décimo lugar e é a cidade brasileira mais violenta da lista: são 69,56 homicídios para cada 100 mil habitantes.

O problema da metodologia dessa lista é que os números de homicídios são coletados ora de fontes oficiais, ora de fontes alternativas, sem um critério claro. Em alguns casos, os dados são o resultado de uma contagem própria da ONG a partir da análise de notas jornalísticas, de modo que esses dados não devem nortear políticas públicas.


*INSUSTENTÁVEL*

"A máxima do Lênin, pai do comunismo: acuse-os do que você faz e xingue-os do que você é."

Não há qualquer frase ou pensamento desta natureza atribuída a Lênin na historiografia de referência. Na verdade, o livro They never said it: a Book of Fake Quotes, Misquotes, and Misleading Attributions (na tradução livre “Eles nunca disseram isso: um livro de citações falsas, incorretas e enganosas”), dos pesquisadores norte-americanos Paul F. Boller Jr. e John George Jr. se dedica a mostrar que essa referência é equivocada.

Na página 70, eles lembram da seguinte frase, em tradução livre, falsamente atribuída a Lênin num livro do evangelizador norte-americano Billy James Hargis da década de 1960: "Destruir os opositores pela calúnia, difamação e chantagem é uma das técnicas do comunismo". Segundo os pesquisadores, o próprio assistente de Hargis, Julian Williams, afirma que a citação parece ter sido inventada para se adequar ao propósito de criticar o comunismo. "Lênin não dizia essas coisas de maneira tão direta", afirmou ao livro.

Aos Fatos também consultou o pós-doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo Fábio Gentile. Especialista em regimes totalitários, ele é categórico ao afirmar que esta frase não faz parte de livros básicos de doutrinação marxista ou leninista. “Não podemos atribuir ao pensamento comunista , pois não tem nada a ver com a sua elaboração doutrinária. Essa frase só faz sentido dentro de um contexto de pensamento político ocidental”.

*FALSO*

"A tática da esquerda é a de Karl Marx, dividir para conquistar."

O ditado é bastante anterior a Karl Marx: originário do latim divide et impera, era parte da filosofia militar romana difundida pelo imperador Júlio César na sua obra De Bello Gallico, sobre as guerras na região da Gália. O auge do império romano data de 27 a.C. até meados dos anos 300 d.C.. A ideia era dividir o povo dominado para governar melhor.

Segundo o especialista em regimes totalitários Fábio Gentile, trata-se de uma estratégia antiga, que é retomada pelo pensamento político moderno. Um dos teóricos fundamentais para entender essa filosofia é Maquiavel, que em seu A Arte da Guerra usa a expressão como estratégia política e militar. Em outra de suas obras, O Príncipe, por exemplo, ele sugere que a melhor maneira de obter força é semeando a intriga entre os que governam, com o objetivo de dividi-los.

A obra O Federalista, de Alexander Hamilton, John Jay e James Madison, é considerada uma das pedras fundamentais da Constituição americana. Na página 31, os autores também abordam essa máxima: "Divide et impera deve ser a máxima de toda nação, que tanto nos odeia quanto nos teme", em tradução livre. A frase é de Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos, a partir de 1789, além de fundador do primeiro banco dos EUA e considerado um dos precursores da filosofia capitalista norte-americana.

Ou seja, a tática de dividir para conquistar não é algo fundamentalmente de esquerda. Encontra respaldo em estratégias políticas de vários matizes ideológicos, baseada em premissas como encorajar cisões em movimentos hostis e alianças entre grupos afins e encorajar desgaste e desconfiança.

“Não é algo que pertença à bagagem teórica do comunismo marxista, não é uma teoria marxista, não há nenhuma raiz na teoria do comunismo”, explica o também pesquisador da Universidade Federal do Ceará.

É possível encontrar na historiografia, entretanto, usos dessa filosofia também pelo regime soviético. Exemplo disso é que as alianças entre bolcheviques, anarquistas, movimentos internacionalistas e socialistas moderados isolaram uma série de movimentos contrarrevolucionários durante a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Russa, que antecedeu a fundação da União Soviética em 1922.


*FALSO*

"Hitler é um mero ladrão de docinhos frente a Stalin. É por isso que eu propus um projeto de lei para acabar com o comunismo, que matou dez vezes mais do que o nazismo. Se Hitler matou 6 milhões, Stalin matou mais de 100 milhões de pessoas. É mais do que todos os desastres naturais juntos e pestes que passaram pelo planeta Terra. Você junta tudo isso e não dá um século de comunismo."

É difícil chegar a uma conclusão precisa a respeito da quantidade de mortos decorrentes de ambos os regimes devido à dificuldade de delimitar um período de tempo específico, além de ter informação precisa a respeito de mortes por motivações indiretas.

Em relação ao regime nazista, se levarmos em conta os militares e os civis alemães e estrangeiros mortos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os números podem chegar a aproximadamente 45 milhões. Essa é a estimativa usada pelo Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos.

No entanto, historiadores de várias nacionalidades e idades apontam para divergências que vão de 40 milhões a 70 milhões de mortes, incluindo militares, civis e atrocidades decorrentes da guerra, como fome e devastação. É consenso que se trata do maior conflito armado da história em termos de quantidade de mortos e que Adolf Hitler desencadeou o evento.

Porém, se forem consideradas somente as mortes de judeus dentro dos campos de concentração, durante o Holocausto, esse número corresponde a 6 milhões, segundo o historiador judeu-francês Leon Poliakov. Esse número também é aceito e usado pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos e pelo museu Yad Vashem, em Israel.

Com relação ao stalinismo, período em que Josef Stalin governou a União Soviética (1941-1953), as mortes ficam entre 20 e 30 milhões, tomando por base as obras do escritor polonês Moshe Lewin — um dos maiores historiadores do regime soviético, morto em 2010. Porém, esse não é o único número que existe: estimativas são tão imprecisas, que vão de 13 milhões a 60 milhões.

O historiador da Universidade Yale, Timothy Snyder, escreveu em 2010 para a New York Review of Books um ensaio entitulado, em tradução livre, "Hitler versus Stalin: quem matou mais?" em que afirma: "Grandes números importam porque eles são um acúmulo de pequenos números, isto é, preciosas vidas individuais".

Segundo ele, alemães mataram mais gente que os soviéticos: a Alemanha nazista vitimou 11 milhões de não-combatentes, dentre eles judeus, ciganos, homossexuais, eslavos e demais minorias; e mais de 12 milhões se forem levadas em conta mortes decorrentes de deportação, fome e execuções. Do lado soviético, o período de Stalin no poder matou algo entre 6 milhões e 9 milhões de pessoas, dentre elas algo como 5 milhões vítimas de fome, massacres em campos de trabalhos forçados e demais matanças associadas a perseguição étnica.

Os tais 100 milhões de mortos, entretanto, não encontram respaldo nem na historiografia mais crítica ao regime stalinista. É possível que sua referência se trate da soma e mortes de vários regimes comunistas ao longo do século 20, mas os números são igualmente controversos.

Aos Fatos entrou em contato e enviou e-mail para a assessoria do deputado federal Eduardo Bolsonaro para que ele pudesse dar mais detalhes sobre fontes das frases acima checadas, mas até a última atualização deste material nenhum retorno foi dado.








23 outubro 2017

Da polícia à política: estudo de candidatos e eleitos à Câmara dos Deputados do Brasil provenientes das forças repressivas do Estado


Artigo do cientista político Adriano Codato e da socióloga Fabia Berlatto investiga quem são, de onde vêm e para que partidos vão os candidatos a deputado federal das forças de segurança do Estado brasileiro. 

Segundo os autores, "a filiação a pequenos partidos e a partidos fisiológicos representa a intenção de se diferenciar dos políticos profissionais e do estilo de política que esses últimos praticam".


No entanto, os candidatos acabam engrossando as fileiras de partidos fisiológicos que são apenas menos evidentes entre os que mais se notabilizaram por escândalos, não por serem partidos imunes a práticas corruptivas, mas por serem menos acionados e envolvidos justamente por sua baixa relevância.


Os dados do estudo "indicam uma forte oscilação entre os grandes partidos de direita, os pequenos partidos de direita e os partidos fisiológicos entre uma eleição e outra." 

"Entre 1998 e 2014, por exemplo, a porcentagem de candidatos das forças nos partidos fisiológicos passou de 10% para mais de 30%. 

Essa oscilação permitiu perceber ao menos duas características do grupo: a primeira é que há uma forte “infidelidade partidária” entre os candidatos oriundos das forças de segurança. 

Para os autores, essa “infidelidade partidária” está ligada a quatro fatores: 
1) O primeiro é o fator legal, ou seja, ao impedimento constitucional de militares se filiarem a partidos políticos, exceto depois que são consagrados candidatos. 

2) O segundo fator diz respeito à estratégia política dos pequenos partidos fisiológicos em lançar muitos candidatos, inflacionando suas nominatas. 

3) O terceiro fator, que pode explicar a presença de candidatos com esse perfil também em partidos de esquerda ou mesmo de centro, tem a ver com demandas por reformas nas estruturas das polícias. 

4) O quarto fator diz respeito à posição que assumem contra a política, os políticos e os partidos." 


Leia o artigo.
















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02 agosto 2017

Podres poderes: pesquisas mostram como o Estado brasileiro tem se mantido como um negócio de pai para filho


  • Seis em cada 10 parlamentares têm parentes na política;
  • 17 ministros do presidente Michel Temer são provenientes de clãs políticos;
  • 16 dos 26 prefeitos de capitais eleitos em 2016 são de conhecidas famílias de políticos;
  • No Supremo Tribunal Federal, 8 dos 11 ministros têm parentes influentes na área do Direito;
  • Metade dos 14 integrantes da força-tarefa da Lava Jato também tem familiares que são ou foram procuradores, juízes ou desembargadores.


Esses e outros dados coligidos são oriundos de pesquisas coordenadas pelo professor doutor em ciência política, Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Oliveira é um dos maiores especialistas em evidenciar o peso dos laços de família, para não dizer dos tentáculos familiares, nos mais diversos ramos do Estado brasileiro. É autor de Estado, classe dominante e parentesco no Paraná (Blumenau: Nova Letra, 2015. 386 páginas). (Leia a resenha de Luciana Walter a respeito). 

No livro, mostra como as relações de poder tomam a forma de teia, misturando e confundindo o público e o privado e enredando as organizações do Estado e suas instituições em um jogo de cartas marcadas. 

Assim como Renato Perissinotto e Adriano Codato, Oliveira é parte do projeto que transformou a Federal do Paraná no maior centro de estudos sobre genealogia das elites do país. São também do Observatório das Elites Políticas e Sociais do Brasil.

Antes disso, em O Silêncio dos Vencedores (2001), Oliveira mostrava como o Paraná havia se tornado um dos estados mais caracteristicamente dominados por um grupo pequeno de famílias que se reproduzem no poder. 

Em A Teia do Nepotismo (2011), traçou como a rede de relações familiares se associa à criação de privilégios, formas de patronagem e clientelismo político. Dessa forma, não apenas o governo ou a política, mas o Estado inteiro acaba viciando o sistema - que deveria existir e ser efetivo - de controles públicos entre os poderes. 

A conclusão sobre o risco institucional de conluio entre os Poderes é muito coincidente com as da tese de doutorado de Luciana Zaffalon (Fundação Getúlio Vargas, 2017), Uma espiral elitista de afirmação corporativa: blindagens e criminalizações a partir do imbricamento das disputas do sistema de Justiça paulista com as disputas da política convencional

Zaffalon analisa o caso de São Paulo e demonstra como se anulou o contrapeso que deveria existir contra abusos de parte a parte. Na medida em que grupos de amigos e familiares se encastelam em pontos distintos do aparelho do Estado, longe de se vigiarem mutuamente, preferem - como disse Sérgio Machado a Jucá - o "grande acordo".

Essas relações tão próximas, mais estritamente familiares, no caso do Paraná, facilmente descambam para serem hipocritamente defendidas como se fossem os interesses maiores da República. Não passam da mais rasteira promiscuidade de valores ideológicos e fisiológicos conservadores. O alto comando do Estado, longe de afirmar, na política, a soberania popular, e na burocracia, o mérito profissionalna verdade tem alimentado uma classe com pretensões a casta.

Oliveira recentemente organizou, no 18º Congresso Brasileiro de Sociologia (julho de 2017, Brasília), um grupo de trabalho (GT 33) intitulado Família, Instituições e Poder. Em sua 2ª Sessão, foi apresentado o trabalho Prosopografia Familiar da Operação "Lava Jato" e do Ministério Temer. O nome prosopografia se refere ao método de construção de biografias coletivas. Serve à análise da trajetória pessoal e das relações com o exercício do poder e com a acumulação de riqueza por parte de coletividades como, por exemplo, famílias.  (Sobre o tema: Almeida, 2011).

Uma das histórias contadas pelo grupo de estudiosos foi relatada por Fernando Horta no artigo As Dinastias do Poder e a Luta de Classes (GGN, 2017). É bastante elucidativa e diz respeito a dois dos maiores superstars da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o procurador - que é também comentarista de Facebook - Carlos Fernando dos Santos Lima.

Diz Horta: 

Um ponto interessante, levantado pelos pesquisadores, é o fato de que não apenas Moro e Yousseff estiveram presentes no processo do Banestado (2003-2004), em que as lideranças do PSDB, PP e do PFL (atual DEM) estavam envolvidas em crimes de corrupção e financeiros. Os procuradores Carlos Fernando dos Santos Lima, Januário Paludo e Orlando Martello Junior, que fazem parte da Lava a Jato também estavam naquele processo. E, pasmem, os policiais federais Marcio Anselmo e Érika Mialik também. [...]

O caso do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima é ainda mais constrangedor. Carlos é filho do deputado estadual da ARENA, Osvaldo Santos. Deputado, promotor e presidente da assembleia em 73, apoiador da ditadura militar. Segundo os pesquisadores, Carlos foi casado com Vera Márcia que é “ex-funcionária” do Banco Banestado. E que atuava no banco, nas mesmas agências investigadas pela ação do Banestado, nas mesmas funções investigadas durante todo o período que seu esposo fazia as investigações. Depois, Vera Márcia, ainda casada com o procurador foi transferida para a Agência da Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, apenas a agência com maior suspeita de fraudes e ilicitudes.

Sobre Moro, os pesquisadores levantam a já conhecida e estranha formação acadêmica “a Jato”, mas se detêm em sua esposa. Rosângela Wolff de Quadros “fez parte do escritório de advocacia Zucolotto Associados, em Maringá (...) que defende várias empresas petrolíferas estrangeiras”. Afora todas as relações da genealogia de Rosângela com a elite estatal paranaense, os pesquisadores levantam que Rosângela Moro é prima do prefeito Rafael Greca de Macedo e – agora vem a pérola de ironia histórica – “ambos descendem do Capitão Manoel Ribeiro de Macedo, preso pelo primeiro Presidente da Província do Paraná por acusações de corrupção e desvio de bens públicos em instalações estatais”. Para os que não lembram, Greca é o prefeito que tem nojo do cheiro de pobre.

Tanto Moro quanto Rosângela Wolff têm parentes desembargadores no Paraná, afora as relações com Flávio Arns e Marlus Arns, que atuaram como advogados de réus da Lava a Jato. Os pesquisadores falam da “lucrativa indústria advocatícia da Lava a Jato” em que Moro prende e conhecidos dele e de sua esposa são contratados para tentar soltar os réus. A preços módicos, claro.


Se Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e tribunais de contas se veem capturados por patriarcas, matriarcas e seus filhotes, os pesos e contrapesos são substituídos, como diz o bordão consagrado no STF, pelo escárnio e pelo cinismo. E ainda existe muita gente boa que achava que estávamos sendo salvos por heróis, e não patrocinando um festim de vilões.








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17 julho 2017

Nada será como antes

Em entrevista, a cientista política e brazilianista, Wendy Hunter, analisa as dificuldades do PT.



"Nunca haverá um "novo PT". Não há nenhum partido agora que consiga ocupar este lugar, com a mesma capilaridade de rede que o PT conseguiu construir no país. Pode haver partidos surgindo com líderes populares, mas o PT precisou de três décadas para criar a organização que criou. Nenhum outro partido tem este nível de organização e nenhum outro pode construi-la em pouco tempo. Os elementos que formaram o PT - a organização durante a Ditadura, a relação única com suas raízes, o líder carismático, a oposição ao neoliberalismo durante os anos 1990 - dificilmente se reunirão em um só partido novamente." (Wendy Hunter).




Leia a íntegra da entrevista na BBC Brasil.
















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13 julho 2017

Governo Dilma não foi capaz de proteger a classe política da investida da Justiça. Isso produziu o impeachment




A análise é do professor Marcos Nobre, filósofo da Unicamp e pesquisador do Cebrap:

"O sistema político precisa de garantias. A massa peemedebista que apoia o governo, seja qual for o governo, precisa, primeiro, de acesso ao fundo público e, segundo, de defesa contra investidas da Justiça. O governo Dilma Rousseff não estava conseguindo garantir nenhuma das duas coisas. Quer dizer, tinha um acesso muito precário ao fundo público, os recursos eram cada vez mais escassos porque, diga-se o que se disser, o ajuste fiscal do primeiro ano do governo Dilma foi duríssimo. Não era um governo que demonstrava ser capaz de proteger a classe política da investida da Justiça.Isso produziu o impeachment."


A entrevista completa está publicada na Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo.

Leia.
















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01 junho 2017

O líder dos sem teto fala que um novo campo político, com base de massas, pode gerar um novo partido de esquerda


BBC Brasil - Ainda que Lula venha a ser inocentado na Justiça, ele não traiu bandeiras da esquerda ao se aproximar tão intensamente de grandes grupos empresariais? Ainda há condições para que o PT, que teve tantos políticos presos e condenados, represente a esquerda?

Boulos - O Lula e o PT pagam o preço da opção que tomaram. Quando chegaram ao governo, poderiam ter enfrentado o sistema político. Esse sistema está baseado na corrupção: a corrupção não é um acidente, é a norma de funcionamento para obter maioria parlamentar, para conseguir dinheiro para o financiamento de campanha, favorecendo as empresas depois. Isso não foi o PT que inventou, é a natureza do sistema.
Poderiam ter dito "não dá assim, vamos chamar uma Constituinte, vamos mudar isso". Há quem diga "ah, mas aí não teriam maioria congressual". É óbvio que não teriam. Se alguma esquerda acha que vai fazer governo de esquerda no Brasil com maioria congressual, não está entendendo o que se passa.
Setores democráticos e progressistas nunca tiveram maioria no Parlamento brasileiro com esse modo de se eleger. A única forma de haver um governo de esquerda é apelando à mobilização popular para pressionar o próprio Congresso. Governabilidade não é só uma lógica tacanha, ela tem que ser construída nas ruas.
Lula e o PT optaram por outro caminho. Eles mantiveram o tipo de aliança com parte do empresariado que banca as campanhas eleitorais. Foi um erro brutal, e o fato de não terem inventado esse método não os isenta. Tudo que ocorreu depois é consequência dessa opção política profundamente equivocada.

BBC Brasil - O PSOL ou algum outro partido pode preencher o espaço outrora ocupado pelo PT na esquerda brasileira?

Boulos - O PT foi o partido hegemônico na esquerda nos últimos 35 anos. Hoje ele perde as condições de sê-lo. O PSOL é um partido importante, com parlamentares que têm tido atuação correta, mas ainda não ocupa esse papel.
E ainda assim, dentro do PT e na base do PT, há muita gente que quer ser parte de um projeto de esquerda renovado no Brasil.
Isso passa pela construção de um novo campo político que não nega o que foi, que tenha capacidade de reconhecer acertos, dialogar e compor com um conjunto do que foi a esquerda brasileira nos últimos 30 anos. Mas que aponte taxativamente para o novo, que reconheça os erros cometidos e os limites da trajetória da esquerda até aqui.

BBC Brasil - A Rede, da Marina Silva, entraria nesse campo?

Boulos - A Rede da Marina, não. Mas há setores na Rede, minoritários, como o (deputado federal Alessandro) Molon, (o senador) Randolfe Rodrigues, que são parte da construção de uma nova esquerda no Brasil.
Mas isso não pode ser um arranjo partidário. Se for, não funciona. Tem que vir com um caldo de mobilização social, de baixo, com participação ampla, com ativismo popular, com movimentos sociais que estão em luta. A construção de uma nova esquerda no Brasil é à quente, no calor da mobilizações.
Como a gente concretiza um projeto novo de esquerda no Brasil que, ao mesmo tempo, não perca a capacidade de sonhar, resgate a esperança que foi afogada por um pragmatismo tacanho, e que também seja viável, tenha pé no chão, no barro, na base social? Que seja capaz de mobilizar e influenciar setores da sociedade brasileira? Esse é o grande desafio.

BBC Brasil - Você considera se lançar na política?

Boulos - O desafio neste momento é produzir um processo de resistência popular e de luta social no Brasil.
A maior parte da esquerda cometeu um erro muito grande nos últimos 20 anos: paulatinamente, foi tratando as ruas como palco secundário, preocupando-se apenas com disputa institucional. Deixou de fazer trabalho de base e perdeu a sintonia com parte da sociedade. Temos de reconectar as pautas desse campo de esquerda à maioria do povo.
Isso pode passar também por processos eleitorais, não descarto isso. Mas tem muita gente já pensando em 2018, enquanto nosso desafio agora é ganhar 2017. O que está posto para o movimento social brasileiro é não deixar passar o conjunto de retrocessos que nos fariam voltar décadas.















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28 maio 2017

"Nenhum país deixa seu representante político tão vulnerável a seu financiador"


No Brasil, "são as grandes empresas, as doadoras, quem dá as cartas..."

A análise é do cientista político Bruno Pinheiro Wanderley Reis, professor na UFMG e pesquisador do estudo Dinheiro e política: a influência do poder econômico no Congresso Nacional, no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para ele, a ideia de que 'prender todo mundo' acaba com a corrupção é, no mínimo, ingênua.

Leia a entrevisa na BBC Brasil

















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12 maio 2017

Afastar a influência do dinheiro na política e diminuir a fragmentação partidária


Essas são questões centrais debatidas pelo cientista político Jairo Nicolau sobre a reforma política que precisamos.







Jairo Nicolau é um cientista político brasileiro especialista em sistemas eleitorais. Foi pesquisador do IUPERJ, posteriormente transformado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).









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04 abril 2017

A metamorfose ambulante da Constituição Brasileira


Mesmo que nossa Constituição seja uma metamorfose ambulante, sua transformação deve estar protegida por algum casulo. Afinal, uma constituição é, antes de tudo, um pacto, e não um acordo de maioria no Congresso. Querem mudar a Constituição? Convençam-nos.





Artigo de Antonio Lassance *


Mexe-se muito na Constituição brasileira. E mexe-se, cada vez mais, para piorá-la. Prestes a completar 30 anos, ela já coleciona quase 100 emendas. É a constituição mais emendada de todas as que já tivemos, salvo a de 1967, que foi totalmente reescrita em 1969 com uma canetada da Junta Militar que governava o país durante o regime de exceção. 
A Carta de 1988, quando recém nascida, já previa uma revisão e se manteve preservada em seus primeiros anos. Dali para nunca mais. Considerando-se desde que passou a ser emendada, a média já é de quase quatro modificações ao ano. 
Desde a Constituição de 1946 até hoje, 96% das propostas de emenda (PECs) e cerca de dois terços das emendas promulgadas (ECs) são provenientes do período pós-1988. 
Meter o bedelho para retirar direitos e garantias ou constitucionalizar algum jabuti em cima de uma árvore já virou um esporte de presidentes, deputados, senadores, tribunais superiores e dos lobbies das carreiras mais bem remuneradas do serviço público. 
Há até incentivos do tipo "ajude a emendar a Constituição". Na Câmara dos Deputados, qualquer PEC tem preferência na votação em relação a proposições em tramitação ordinária (Artigo 191 do Regimento Interno da Câmara). 
Reformas encaminhadas pelos presidentes são todas defendidas como urgentes, embora essa urgência apareça mais depois da posse. Argumentos de que algum problema está pela hora da morte atraem mais holofotes, pois são feitos para se criar algum pandemônio e pressionar por rapidez. A estratégia é a do estouro de boiada, para se carrear votos de roldão e para que o efeito manada atinja a opinião pública. E aí se vai mais um naco da Constituição e uma penca de direitos e garantias.
Noutros casos, sorrateiramente, como alertava Chico Buarque, a nossa pátria mãe, tão distraída, sem perceber que é subtraída, vê penduricalhos sendo propostos ao texto constitucional de forma a transformar uma carta de direitos em uma lista de privilégios e casuísmos.
Do Fundo Social de Emergência - que, de provisório, tornou-se a eterna Desvinculação de Receitas da União - à criação do "imposto da gasolina" (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - Cide); da reforma da previdência à proposta de tornar a rinhas de galo um direito (não dos galináceos, claro); do congelamento de gastos por 20 anos à "PEC da bengala", a história do emendamento é a prova de que há algo mais entre o processo legislativo e a fábrica de salsichas do que sonha nossa vã filosofia.
Em artigo recente que publiquei em boletim do Ipea (A República Provisória do Brasil, Boletim de Análise Político-Institucional nº. 10, Jul.-Dez 2016: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/boletim_analise_politico/170324_bapi_10_opiniao.pdf), proponho duas soluções para o problema. 
A primeira seria impedir que propostas que podem figurar como projetos de lei virem emendas à Constituição. Com isso, preservaríamos uma Carta mais principiológica e menos casuística, evitando a banalização do processo de emendamento. 
A segunda proposta, ainda mais importante, seria exigir que propostas de emenda sejam submetidas a algum tipo de consulta popular. Além da iniciativa popular, plebiscito e referendo, as eleições presidenciais também podem cumprir esse papel de submeter um programa de reformas ao escrutínio público. 
Embora o Código Eleitoral exija a apresentação de programas de governo como um dos requisitos para o registro de candidatos a prefeito, governador e presidente da República, na prática eles não servem para nada. São mera formalidade, cartas de intenções vazias de significado. Houve eleição em que um dos candidatos apresentou, como programa, a transcrição de um discurso proferido em certa ocasião.
É muito fácil a um Congresso eleito sob o patrocínio de alguns grandes grupos empresariais aprovar emendas e outras leis a toque de caixa, como se viu durante a presidência de Eduardo Cunha. Difícil é o candidato que se arvora a tornar-se representante gastar sola de sapato, saliva e teclado (mais conhecido como internet) defendendo ideias sobre o que pretende fazer caso seja eleito.
Os que falam que lista fechada é um perigo e que isso pode redundar em "partidocracia" parecem ter nascido ontem, pois desde quando não vivemos sob partidocracia? Não precisa lista fechada para criar o que já existe. Se não há um mínimo de democracia direta e participação popular consultiva, organizada de forma massiva, o que existe é governo de partidos, partidocracia.
Muitos parlamentares e partidos têm ojeriza, urticária, pavor de povo. Não admitem submeter "suas" decisões a plebiscito ou referendo. Consideram que participação popular é "bolivarianismo", um palavrão de ocasião que só serve para mascarar o déficit de democracia direta do regime político brasileiro.
Políticos que hoje resumem seu trabalho de convencimento a persuadir eleitores a votar em um número de candidato deveriam se dedicar mais a fazer a campanha de ideias e a transformar suas propostas em projetos de iniciativa popular ou pauta de plebiscitos e referendos. Propostas de consulta, ao contrário de usurparem o papel do Legislativo, valorizam-no, pois tais consultas preveem a participação ativa dos partidos no processo de convencimento prévio. 
A cada dois anos, temos algum tipo de eleição. Esses momentos deveriam ser mais valorizados como instrumentos de consulta pró-reformas. E partidos, marqueteiros e apresentadores de programas de auditório que acham muito difícil convencer as pessoas a aceitarem propostas impopulares deveriam ou melhorar suas propostas e argumentos ou mudar de profissão.
Mesmo que nossa Constituição seja uma metamorfose ambulante, sua transformação deve estar protegida por algum casulo. Afinal, uma constituição é, antes de tudo, um pacto nacional, e não um acordo de maioria no Congresso. Querem mudar a Constituição? Convençam-nos.


* Antonio Lassance é cientista político.




Este texto é de livre divulgação, desde que citada a fonte:
Antonio Lassance. A metamorfose ambulante da Constituição Brasileira. Brasília, 04 de abril de 2017. Disponível em http://antoniolassance.blogspot.com/2017/04/a-metamorfose-ambulante-da-constituicao.html


Artigo também publicado em:
- Jornal GGN (Luís Nassif)
- Carta Maior
- Sul 21
- Rede Brasil Atual
- Portal Vermelho

... entre outros.










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