18 junho 2021

O que o maior plano de recuperação econômica mundial tem de atual e útil?


O Plano Marshall foi uma experiência de grande envergadura que ainda traz à luz problemas típicos cruciais com os quais pessoas encarregadas de desenvolver políticas públicas e programas governamentais (policy makers) se defrontam rotineiramente, entre eles:

• Como definir e persistir em uma estratégia de longo prazo diante de questões urgentes de curto prazo, em contextos de crise e pressão política? 
• Como é possível aprovar planos ambiciosos em situações de minoria congressual? 
• Como pensar objetivos estratégicos comuns para realidades socioeconômicas e político-institucionais tão assimétricas (como é comum entre países ou até dentro de um mesmo país, entre regiões bastante diversas)? 
• Como atender à fiscalização congressual e de órgãos de controle e ao mesmo tempo garantir agilidade na implementação? 
• De que forma uma política pública e os programas a ela associados se complementam e não se fragmentam nem se contradizem? 
• Como combinar governança hierarquizada com autonomia gerencial?



Leia o texto (arquivo pdf).

LASSANCE, Antonio. O Plano Marshall: uma abordagem atual à formulação, ao desenho e à coordenação de políticas públicas e programas governamentais. Brasília: Ipea, 2021. (Texto para Discussão, n. 2661). Disponível em https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2661.pdf


LASSANCE, Antonio. The Marshall Plan: a current approach to the formulation, design and coordination of public policies and government programs.
This working paper investigates the Marshall Plan from an unprecedented angle: that of strategy formulation, policy design, and the coordination of policy implementation. Through an in-depth case study, the Marshall Plan proves to be a far-reaching experience that still brings to light chronic and crucial problems for those interested in ex ante policy analysis. The conclusion is that the plan can be reinterpreted as an approach to complex and multi-causal problems (wicked problems) in search of building integrated solutions and government action as coordinated as possible. The approach consists of striving for strategic definitions centered on the correct choice of priority problems and the identification of their causal chain. Around these definitions, the policy design seeks to balance short-term responses with attention to long-term causes. Such assumptions precede issues such as, for example, the efficient budget allocation and the optimization of administrative and regulatory resources – concerns which are more focused on consequences than on root causes. With these preliminaries guaranteed, the policy design establishes a policy governance with due command and central control over the strategy, but with managerial autonomy over the programs. It leaves an open part of the process of formulating alternatives so that they adjust to a decentralized and capillarized implementation, with a technical cooperation network that remains close to the street-level bureaucracy.

https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2661.pdf





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10 junho 2021

O sucesso individual consegue contornar uma injustiça coletiva?



Hattie McDaniel nasceu em 10 de junho 1893, em Wichita, Kansas (Estados Unidos). 

Ela começou a carreira como cantora e, segundo se tem registro, foi a primeira afro-americana a cantar em uma estação de rádio e ter sua voz transmitida por aquela novidade tecnológica de então. 

Passou a atuar no cinema nas décadas de 1930 e 40 e tornou-se a primeira atriz preta a ganhar um Oscar.  

Sua performance premiada foi no  papel da empregada doméstica escravizada, Mammy, no clássico "E o Vento Levou", filme de 1939

Na chamada "Meca do Cinema" (Hollywood), o código de autocensura, feito pelas grandes produtoras de cinema - chamado de Código Hays, em homenagem a seu criador, Will H. Hays – proibia cenas de romances interraciais e era recomendado que negros não fossem escalados para papéis violentos  – pelo menos, não aqueles em que batessem, ao invés de apanhar. 

Salvo raras exceções, os papéis "para negros" eram bastante específicos.

Mesmo com a fama, Hattie McDaniel foi impedida de estar com os demais atores durante a cerimônia de estreia de "E o Vento levou", em 15 de dezembro de 1939, no Loew's Grand Theatre, na cidade de Atlanta, Geórgia (cidade que é a retratada no filme). A lei de segregação racista impedia negros e brancos de frequentarem os mesmos espaços. O Grande Teatro de Atlanta era espaço exclusivo para brancos . 

Conta-se que o astro do filme, Clark Gable, ao saber da proibição, anunciou que não compareceria à estreia, mas acabou convencido do contrário pela pela própria Hattie McDaniell. 

O troco viria no ano seguinte, quando McDaniell ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme que ela estrelou.


Discurso proferido por Hattie McDaniel na cerimônia de entrega do Oscar:
“Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, membros da indústria cinematográfica e convidados de honra: este é um dos momentos mais felizes de minha vida, e quero agradecer cada um de vocês que me selecionaram a um dos seus prêmios por sua gentileza. Isso me fez sentir muito, muito humilde; e sempre o erguerei como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha raça e para a indústria cinematográfica. Meu coração está pleno demais para lhes dizer como me sinto, e posso dizer obrigada e que Deus os abençoe.”

Apesar do papel estereotipado, Mammy dava ordens, ralhava e exercia alguma autoridade sobre seus patrões. Esta não seria uma maneira bastante sutil e, de certa forma, até perversa de se dizer uma grande mentira? 

Por exemplo, a mentira de que, não importa o que aconteça lá fora, no mundo que nos rodeia, entre quatro paredes você pode ser o que bem quiser e pode obter respeito até estando escravizado. A dúvida é: em regimes de exploração e injustiça institucionalizada, o respeito e a autoridade conquistados por alguns poucos não seriam uma exceção que confirma a regra?

O sucesso de Hattie no papel de Mammy levou a que a personagem de "E o Vento Levou" se tornasse a inspiração de outra figura popular: Mammy "Two Shoes" ("Dois Sapatos"). 

Mammy Two Shoes era a empregada doméstica que, vez ou outra, aparecia em episódios do desenho animado "Tom e Jerry".

A referência aos "Dois Sapatos" vinha do fato de que a personagem sempre aparecia da cintura para baixo, com destaque apenas para seus sapatos ou pantufas e meias. 

O recurso, aparentemente para dar destaque ao plano inferior onde perambulavam os personagens principais (o gato e o rato), é o mesmo utilizado em "cartoons" posteriores, como "A Vaca e o Frango", em que os pais da vaca e do frango sempre aparecem "sem cabeça".

No vídeo abaixo, Whoopi Goldberg apresenta o relançamento da coleção "Tom e Jerry - The MGM Hanna-Barbera Classics" e explica o contexto de fanatismo racista da época e o quanto isso se refletia em muitos estereótipos dos desenhos. A atriz faz uma justa homenagem à dubladora Lillian Randolph



Hattie McDaniel pode ser vista em todo o seu glamour e cantando com sua voz potente no filme "Thank Your Lucky Stars", de 1943, com Willie Best. A canção é "Ice Cold Katie".



Ao final de seus dias, diagnosticada com câncer, a atriz deu instruções para ser enterrada no cemitério "Hollywood Forever". Seu desejo não foi atendido. O cemitério também seguia a proibição racista de não aceitar negros, o que demonstra o quanto o racismo é uma instituição eternizada nas mais inimagináveis 
maneiras

Hattie McDaniel morreu em 1952 e seu corpo acabou sendo enterrado no campo de Angelus-Rosedalena cidade de Los Angeles, Califórnia, EUA. 

As agruras da atriz e o último episódio que experimentou, mesmo morta, recolocam a pergunta: o sucesso individual consegue realmente contornar uma injustiça coletiva?  


Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/Hattie_McDaniel
https://www.youtube.com/watch?v=k_oEOdIBOpU
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/12/13/cultura/1576235728_595044.html
https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-71723/biografia/
https://en.wikipedia.org/wiki/Lillian_Randolph










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24 maio 2021

Como uma viagem de ácido pela Califórnia tornou Michel Foucault um neoliberal



O tratamento dado ao neoliberalismo por Foucault (além de sua reportagem estranhamente entusiástica sobre a Revolução Iraniana) "revela a pobreza em alguns temas-chave" de seu legado.
Ele falhou em prever como uma filosofia da "autonomia" pôde criar uma cultura do privilégio disfarçada de meritocracia. 

O livro que conta essa história é "The Last Man Takes LSD: Foucault and the End of Revolution
("O Último Homem Toma LSD: Foucault e o Fim da Revolução"), de Mitchell Dean e Daniel Zamora
Editora Verso, 256 páginas, US$ 27

Jonathan Russell Clark para o Los Angeles Times.
24 de maio de 2021.

Em 1978 e 1979, o filósofo francês Michel Foucault deu uma série de palestras sobre o neoliberalismo, o conjunto de doutrinas econômicas voltadas para o livre mercado, pró-empresarial, redução do tamanho do Estado e autonomia individual. Foucault não estava interessado nos detalhes do governo real. "Não estudei e não quero estudar", anunciou na primeira palestra, "o desenvolvimento de uma prática governamental real". Em vez disso, ele estava interessado na "arte do governo".

Um livro baseado nessas palestras, "The Birth of Biopolitics", não seria publicado em inglês até 2008, bem no meio de uma crise financeira histórica claramente causada pelo neoliberalismo. Foi, para seu legado, um momento infeliz. O flerte de Foucault com a ideologia dominante desafiou sua reputação acadêmica incólume, e vários artigos tentaram defendê-lo contra sua própria transformação tardia. Mas as consequências foram claras, independentemente do pequeno papel que desempenhou: não muito depois de suas palestras, Thatcher e Reagan deram a largada no neoliberalismo pelo mundo, e estamos revirando escombros até hoje.

Tudo remonta, estranhamente, a uma visita que o pensador francês fez à esquerdista Califórnia - e a uma viagem que fez assim que chegou lá. 

O novo livro de Mitchell Dean e Daniel Zamora, "The Last Man Takes LSD", enfoca a década final de Foucault, de 1975, quando ele tomou o alucinógeno na Califórnia pela primeira vez, até sua morte, em 1984, por complicações da AIDS. 

Durante este período, Foucault mudou de lado na política, da esquerda, desde os anos 60, para uma posição mais centrista, uma tendência dificilmente rara para sua geração durante a Guerra Fria. Como Dean e Zamora colocaram, "Foucault e muitos outros intelectuais pós-68 participaram do processo de pensar sobre uma esquerda que não era socialista; uma esquerda que eliminaria o legado do socialismo pós-guerra."

Nessa visão, um governo com muito poder sobre seus cidadãos invariavelmente levaria ao totalitarismo. O socialismo era visto como "cripto-totalitário". Para Foucault, tais regimes não apenas controlavam sua população, eles os definiam. 

Assim como ele defendeu, perante Roland Barthes, que a interpretação dos textos é a "morte do autor", Foucault queria destituir o Estado de seu poder de determinar o significado de seus cidadãos. Era necessária uma nova concepção radical da individualidade, que substituísse as ideias anteriores de resistência política. Inventar a si próprio foi, para Foucault, a nova forma de revolução.

Ironicamente, foi a experiência de Foucault com LSD em Zabriskie Point no Vale da Morte, um local bem conhecido por suas associações com a  contracultura (principalmente, pelo filme de Michelangelo Antonioni de 1970, "Zabriskie Point") que o encaminhou para a direita. 

A Califórnia nos anos 1960 e 1970 foi um viveiro de ativismo esquerdista - dos protestos de Berkeley aos Merry Pranksters e os Panteras Negras. Foucault, por outro lado, descobriu um tipo diferente de radicalismo. Sua viagem de LSD reforçou sua oposição à "hermenêutica de si", ou seja, interpretar a si como se houvesse alguma verdade fundamental e fixa de sua identidade.

Em vez disso, Foucault acreditou na noção de “prova” - provação -, uma técnica que criaria a verdade interior, em vez de desnudá-la. A identidade de uma pessoa, segundo Foucault, deve ser construída por meio de julgamentos pessoais não contaminados por interferências externas, incluindo - e  principalmente - a de um Estado. 

Foucault mergulhou fundo no coração do individualismo americano e do anti-establishment, mas suas realizações subsequentes mostraram o quão tênue é a linha entre a autossuficiência e o egoísmo.

O neoliberalismo rapidamente se transformou de um conjunto de práticas econômicas que promoveriam a liberdade individual no que o escritor George Monbiot descreveu como “um tipo de extorção self-service”, enriquecendo os ricos e institucionalizando a desigualdade sistêmica. 

Já na década de 70, escrevem Dean e Zamora, o neoliberalismo "foi revelado não apenas como totalmente compatível com regimes autoritários e ditatoriais, em vários países, mas, em muitos casos, como um de seus requisitos". 

O que começou como uma reação ao socialismo “cripto-totalitário” se transformou exatamente no tipo de ideologia restritiva que afirmava combater. Friedrich Hayek, o autor do discurso proto-neoliberal "The Road to Serfdom" ("O Caminho da Servidão"), afirmou certa vez em uma entrevista que preferia um "ditador liberal" a uma "democracia sem liberalismo".

Para os autores, o tratamento dado ao neoliberalismo por Foucault (além de sua reportagem estranhamente entusiástica sobre a Revolução Iraniana) “revela a pobreza em alguns temas-chave” de seu legado. 

Em primeiro lugar, "a abordagem de Foucault parece ter comprometido sua capacidade de abordar a questão da desigualdade." Em segundo lugar, ele falhou em prever como uma filosofia da “autonomia” pôde criar uma cultura do privilégio disfarçada de meritocracia. 

A competição econômica sugere que vencedores e perdedores merecem estar nos lugares onde estão. Na retórica de Newt Gingrich e Bill Clinton nos anos 90, os cidadãos de baixa renda precisavam apenas assumir "responsabilidade pessoal", enquanto o governo se afastava de suas obrigações cívicas.

“The Last Man Takes LSD” não é tão narrativo quanto seu título e premissa podem sugerir - isso não é “Medo e aversão na pós-modernidade”*. Mas Dean, um professor de política, e Zamora, co-autor de “Foucault e o Neoliberalismo”, fazem um excelente trabalho contextualizando as pesquisas e ideias de Foucault em seus anos finais. 

Eles traçam metodicamente as nuances do clima político espinhoso da Era, criando um retrato da promoção simpático de Foucault em uma virada filosófica prejudicial a um pensador que explorou com sucesso o poder e a exploração - uma virada filosófica autodestrutiva. 

Os autores não são tímidos, entretanto, em condenar suas deficiências intelectuais durante esse período. As práticas que ele exaltou em suas palestras, concluem Dean e Zamora, “contribuíram para aumentar a desigualdade, as políticas ditas de austeridade e de controle da dívida pública, mas que aceleraram a corrosão dos serviços públicos, a destruição de empregos públicos e minaram a confiança no Estado, a tal ponto que reduziu a capacidade das democracias reais existentes de resolver problemas da economia, da saúde, segurança e meio ambiente que os confrontam. ”

Mesmo que a viagem de LSD de Foucault não tenha sido a única causa de suas tendências neoliberalistas, ela serve como um simbolismo útil. Os psicodélicos podem promover revelações que expandem a mente, mas implementar novas políticas governamentais requer muito mais do que considerações abstratas. 

Foucault era conhecido por seu envolvimento com o ativismo político (descrito por Colin Gordon como um “homem de ação em um mundo de pensamento”), mas sua miopia tardia reside em sua falta de vontade de explorar suas consequências práticas. Uma ideia que nutre a mente ainda pode destruir o corpo ou corromper a alma. O problema com a ideia de neoliberalismo é que ela soava muito bem em teoria.



* A expressão "fear and loathing" ("medo e aversão") se refere a um estilo editorial de livros muito vendidos que começam justamente com essas palavras e a elas se acrescenta o tema que será tratado no livro.

A foto que estampa esta postagem retrata Michel Foucault e o pianista Michael Stoneman justamente no Vale da Morte, Califórnia, em junho de 1975. Tirada pelo fotógrafo David Wade.

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