15 julho 2019

Nunca mais!

Entenda por que analogias do passado são essenciais para que as pessoas pensem criticamente no que acontece hoje e se antecipem às consequências trágicas tanto de seus atos quanto de sua omissão e conformismo.

O artigo é do historiador Timothy Snyder, historiador da Universidade de Yale e autor de livros como Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin; Black Earth: The Holocaust as History and Warning, e do mais recente On Tyranny: Twenty Lessons From the Twentieth Century.

(Os que preferirem ler os extratos do artigo em inglês, basta rolar o texto até mais abaixo. O artigo completo está na plataforma Slate. Abra neste link).

Pode acontecer aqui
Timothy Snyder





A decisão do Museu Memorial do Holocausto dos EUA de se opor ao uso de analogias do Holocausto é uma ameaça moral.

Um museu financiado pelo governo federal está dizendo aos americanos que não pensem. Em 24 de junho, o Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, instruiu o público a não considerar a relação entre seu tema [o holocausto], outros eventos históricos e o presente, implicitamente repreendendo a deputada Alexandria Ocasio-Cortez por chamar os centros de detenção americanos de “campos de concentração”. Assim, tornou absurdo o slogan "nunca mais" e forneceu cobertura moral para políticas governamentais atuais opressivas. 

O Holocausto é importante para os americanos como fonte de lições morais. A escolha que enfrentamos é se a lição é aquilo de que estamos sempre certos ou se a lição é a de que devemos nos julgar criticamente à luz do passado. 

À primeira vista, a rejeição do museu às “analogias entre o Holocausto e outros eventos” pode parecer uma tentativa louvável de afirmar o caráter sem precedentes do assassinato em massa dos judeus da Europa. De fato, isso faz com que o peso dessa atrocidade seja impossível, e nos libera de qualquer obrigação, como nação, de autocrítica. 

[Mas a] analogização não é uma operação misteriosa: é como pensamos. Toda vez que alguém lhe pede conselhos sobre uma situação além da sua experiência pessoal, ou toda vez que você se depara com uma escolha desconhecida, sua mente faz analogias com o que você sabe. Então, você faz perguntas que permitem esclarecer semelhanças e diferenças. Em algum momento, você entendeu e pode agir. 

[Dizer] "nunca mais" não é outra coisa senão uma invocação desse processo. Partimos do que sabemos sobre o presente e voltamos às décadas de 1930 e 1940. Uma vez que entendamos algo sobre a história do Holocausto, voltamos à frente novamente, vendo padrões que teríamos perdido. Se notarmos um perigo, devemos agir. Sem esse esforço, porém, “nunca mais” se torna seu próprio oposto: “Não há como acontecer aqui.” 

Um dispositivo pedagógico básico é pedir a alguém para se imaginar na situação do outro - por exemplo, como uma criança judia se escondendo em Amsterdã. Essa é uma analogia histórica, invocada milhões de vezes, uma que algum professor ou guia de museu já usou em algum lugar, hoje. 

Proibir analogias torna o Holocausto irrelevante para as gerações futuras. 

Se uma criança americana pode se identificar com Anne Frank, uma criança americana pode perguntar como é para as crianças imigrantes serem separadas de seus pais. Proibir analogias é proibir a aprendizagem e proibir a empatia. Isto, infelizmente, é o ponto.

O Museu do Holocausto tornou sem sentido o slogan “nunca mais” e forneceu cobertura moral para políticas americanas em curso e opressivas. 

[...] 
Precisamos de analogias para apreender fatos e experimentar empatia. Mas também precisamos deles para o pensamento conceitual, inclusive sobre o próprio Holocausto. 

Os conceitos que usamos hoje cresceram a partir de analogias históricas. O termo limpeza étnica foi criado por perpetradores sérvios para descrever suas próprias práticas no início dos anos 90; agora usamos para descrever ações semelhantes, antes e depois. 

O termo genocídio foi criado após o Holocausto pelo sobrevivente judeu Raphael Lemkin, em um trabalho de pesquisa repleto de analogias e comparações históricas para descrever tentativas de destruir uma cultura pela violência ou por outros meios. 

A palavra hebraica Shoah, que entrou em amplo uso após o documentário de 1985, de Claude Lanzmann, funciona por analogia: “é o desastre que vem de longe”, com o qual Deus ameaça os judeus, conforme Isaías 10: 3. 

O mesmo vale para a palavra holocausto. Como muitos termos que usamos corriqueiramente no presente, ele surgiu de uma série de encontros com o passado. O antigo termo grego do qual o holocausto surgiu significava [...] a morte dos humanos pelo fogo. 

No século XIX, passou a significar um cataclismo de grandes proporções. Uma das razões pelas quais a palavra tem uma força tão particular no inglês dos Estados Unidos é que, durante a Guerra Fria, antes que o Holocausto se tornasse um elemento central da memória americana, usamos o Holocausto no sentido de “holocausto nuclear”. Mudamos de um para o outro quase perfeitamente, preservando o sentido de “a pior coisa imaginável”. 

Talvez o aspecto mais orwelliano da posição desse Museu seja que ele tenta banir uma operação mental saudável que a mente humana realiza reflexivamente: aprender. Nenhuma analogia com os anos 1930 ou 1940 será a combinação perfeita - se fosse, não seria uma analogia! 

[...] 
"Nunca mais" significa aceitar que a história pode nos deixar desconfortáveis. Como as analogias são indispensáveis, uma tentativa de bani-las realmente significa algo bem diferente: uma defesa da complacência, quando a crítica é necessária. 

Quando a comparação histórica é suprimida, não temos mais pensamento político: temos um tabu político. Não temos mais a sociedade civil: temos conformidade autoritária. 

[...]
Mas as palavras importam, e as palavras sobre o holocausto vindas de um guardião da sua história são especialmente importantes. Palavras podem nos proteger de um senso de responsabilidade quando crimes são cometidos em nosso nome. 

O museu está usando palavras para transformar o crime de ontem na desculpa de hoje, preparando o caminho para o horror de amanhã. Que a próxima atrocidade será diferente da última não é uma razão para deixar acontecer. Será da nossa conta, e fomos avisados.

Tradução livre feita por 
Antonio Lassance.
Leia o original,
em inglês, abaixo.




It Can Happen Here 

The U.S. Holocaust Memorial Museum’s decision to speak out against Holocaust analogies is a moral threat. 
(Read the complete article at Slate).

By TIMOTHY SNYDER*
JULY 12, 2019 
Timothy Snyder is the Levin professor of history and the faculty adviser for the Fortunoff Video Archive for Holocaust Testimonies at Yale University, and the author of Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, Black Earth: The Holocaust as History and Warning, and On Tyranny: Twenty Lessons From the Twentieth Century.


A federally funded museum is telling Americans not to think. On June 24, the United States Holocaust Memorial Museum instructed the public not to consider the relationship between its subject, other historical events, and the present, implicitly reprimanding Rep. Alexandria Ocasio-Cortez for calling American detention centers “concentration camps.” In doing so, it has made nonsense of the slogan “never again” and provided moral cover for ongoing and oppressive American policies. 

The Holocaust matters to Americans as the source of moral lessons. The choice we face is whether the lesson is that we are always right or whether the lesson is that we should judge ourselves critically in light of the past. At first glance, the museum’s rejection of “analogies between the Holocaust and other events” might seem like a laudable attempt to affirm the unprecedented character of the mass murder of the Jews of Europe. In fact, it makes conveying the weight of that atrocity impossible, and it releases us from any obligation, as a nation, to self-criticism. 

Analogizing is not some mysterious operation: It is how we think. Every time someone asks you for advice about a situation beyond your personal experience, or every time you are faced with an unfamiliar choice, your mind makes analogies with what you do know. Then you ask questions that allow you to clarify similarities and differences. At some point, you have understood and can act. “Never again” is nothing other than an invocation of that process. We start from what we know about the present and make our way back to the 1930s and 1940s. Once we understand something about the history of the Holocaust, we make our way forward again, seeing patterns we would have missed. If we notice a dangerous one, we should act. Without this effort, though, “never again” becomes its own opposite: “It can’t happen here.” 

A basic pedagogical device is to ask someone to imagine him or herself in another position—say, as a Jewish child in hiding in Amsterdam. That is a historical analogy, invoked millions of times, one that some teacher or museum guide has used somewhere today. To forbid analogies makes the Holocaust irrelevant to future generations. If an American child can identify with Anne Frank, an American child might ask what it is like for immigrant children to be separated from their parents. To forbid analogies is to forbid learning, and to forbid empathizing. That, sadly, is the point. 

The Holocaust Museum has made nonsense of the slogan “never again” and provided moral cover for ongoing and oppressive American policies.

[...] 
We need analogies to apprehend facts and experience empathy. But we also need them for conceptual thinking, including about the Holocaust itself. The concepts we use today grew from historical analogies. The term ethnic cleansing was created by Serbian perpetrators to describe their own practices in the early 1990s; we now use it to describe similar actions before and after. The term genocide was created after the Holocaust by the Jewish survivor Raphael Lemkin, in a body of work that is full of historical analogies and comparisons, to describe attempts to destroy a culture by violence or other means. The Hebrew word Shoah, which came into widespread use after the 1985 documentary by Claude Lanzmann, works by analogy: It is “the disaster that comes from afar” with which God threatens the Jews in Isaiah 10:3. 

he same holds for the word Holocaust. Like many terms we take for granted in the present, it arose from a series of encounters with the past. The ancient Greek term from which Holocaust arose meant a burnt offering; then, in early modern Europe, a holocaust was the death of humans by fire; then, by the 19th century, it came to mean a cataclysm generally; then, by the late 20th, the mass murder of the European Jews. One of the reasons the word has such particular force in American English is that during the Cold War, before the Jewish Holocaust became a central element of American memory, we used Holocaust in the sense of “nuclear holocaust.” We shifted from one to the other almost seamlessly, preserving the sense of “the worst thing imaginable.”

[...] 
Perhaps the most Orwellian aspect of the museum’s position is that it attempts to ban a healthy mental operation that the human mind reflexively performs: learning. No analogy with the 1930s or 1940s will be the perfect fit—if it were, it would not be an analogy!

[...] 
“Never again” means accepting that history might make us uncomfortable. Because analogies are indispensable, an attempt to ban them really means something quite different, a defense of complacency when criticism is needed. When historical comparison is suppressed, we no longer have political thought: We have political taboo. We no longer have civil society: We have authoritarian conformity. 

[...] 
But words matter, and words about the Holocaust from a guardian of its history matter especially. Words can shield us from a sense of responsibility when crimes are committed in our name. The museum is using words to transform yesterday’s crime into today’s excuse, thereby preparing the way for tomorrow’s horror. That the next atrocity will be different than the last one is not a reason to let it happen. It will be ours, and we have been warned.

Timothy Snyder is the Levin professor of history and the faculty adviser for the Fortunoff Video Archive for Holocaust Testimonies at Yale University, and the author of Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, Black Earth: The Holocaust as History and Warning, and On Tyranny: Twenty Lessons From the Twentieth Century.













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09 julho 2019

O dia da matraca: o pior e mais pilantra dos feriados do Brasil

Feriado de 9 de julho doravante deve ser chamado de "o dia da matraca".

A "Revolução Constitucionalista de 1932" não foi revolução e muito menos a motivação maior de seus próceres era qualquer arroubo constitucionalista.

Sua maior contribuição ao país foi a invenção da matraca (foto ao lado), um aparelho que simulava o barulho de metralhadoras. Foi a maneira que o piracicabano Francisco Morato (1868-1948) inventou para disfarçar a falta de metralhadoras e munição de verdade e tentar conter o avanço das tropas getulistas.

Morato, que hoje dá nome a município e a ruas, na época, foi um dos fundadores e um dos políticos mais importantes do Partido Democrático (PD, criado em 1926) e aliado de Getúlio Vargas nas eleições de 1930.

Insatisfeitos por não terem assumido o governo do Estado de São Paulo depois da Revolução de 1930, Morato e o PD romperiam com Vargas e se aliariam a seus antigos desafetos do Partido Republicano Paulista (PRP), o partido mais importante do período que se tornou conhecido, com a ajuda do PD, como República Velha.

O livro de Francisco Quartim de Moraes, 1932: a história invertida (Editora Anita Garibaldi, 2019, 152 páginas) mostra as falsificações criadas em torno desse acontecimento infame transformado em feriado. É uma contribuição importante para a desmistificação da barulhenta tentativa de deposição de Vargas pelos paulistas quatrocentões.

Como se sabe, Vargas não era santo. Os paulistas que a ele fizeram oposição, muito menos. Em 1932, mostraram não apenas seus dentes, mas também seus tridentes e seu caldeirão de enxofre. 

A resenha Transformando a derrota em vitória, de Carlos Alberto Dória
(publicada em 9 de julho de 2019) no portal de livros Quatro Cinco Um, oferece um sumário das conclusões a esse respeito:

Transformando a derrota em vitória

Livro mostra as mentiras históricas sobre as quais a Revolução de 1932 foi construída e o caráter ideológico da identidade paulista 

A Revolução de 1930 tinha como principal aríete o Governo Provisório, cujas vicissitudes, até o Estado Novo, decorriam das tentativas de domesticar as elites regionais. Particularmente a paulista – que vinha vitoriosa contra a “política das salvações” de Hermes da Fonseca – resistiu o quanto pôde, inclusive desencadeando uma reação militar autodenominada “Revolução Constitucionalista de 1932”, cujo objetivo era derrubar Getúlio Vargas e convocar uma Constituinte, isto é, voltar a uma ordem que preservasse a autonomia dos cafeicultores nos mesmos termos da República Velha.

O pequeno livro de Francisco Quartim de Moraes questiona o “constitucionalismo” dessa elite, visto que a Constituinte já havia sido marcada por Vargas antes do levante militar. Por que então a historiografia promove a inversão de datas, como ainda hoje se lê nas referências ao levante de 1932?

Pela antiga constituição republicana, a autonomia dos estados ia a tal ponto que eles podiam contrair empréstimos diretamente com bancos estrangeiros e mesmo contratar uma missão militar, como fez São Paulo para modernizar e treinar sua Força Pública com feições de exército próprio.

Acontece que a crise mundial de 1929 havia arruinado a cafeicultura e, portanto, mais do que nunca, precisava do socorro federal para recuperar a preeminência perdida sob o Governo Provisório de Vargas. Por outro lado, o interventor federal, o tenente pernambucano João Alberto, possuía um programa que avançava num sentido diametralmente oposto às expectativas dos cafeicultores. O estabelecimento de uma legislação trabalhista; a tolerância com o Partido Comunista, fundado em 1922; o propósito de dividir as fazendas recebidas pelo Banco do Brasil em pagamento das dívidas contraídas quando do colapso dos fazendeiros; a reforma do Direito Processual – tudo isso foi assimilado como uma violação da “honra paulista”, o que provocou inicialmente a reivindicação de um interventor “civil e paulista”.

A demissão de João Alberto se deu em 1931, seguida por período de instabilidade, com mais três interventores ao longo de poucos meses até a nomeação de Pedro de Toledo, em março de 1932. Aliás, Getúlio Vargas acolheu, conciliador, várias outras exigências dos paulistas. 

Como ele mesmo escreveu três dias antes do levante: 
“Queriam a lei eleitoral – promulguei-a, exigiam interventor civil e paulista – nomeei-o. Mas, ainda não bastava. Tornava-se necessário a marcação da data das eleições – marquei-a. Continuaram, no entanto, as censuras e os ataques”.

Pensamento de direita
Em 9 de julho surge o primeiro manifesto da “revolução”, redigido por Julio de Mesquita Filho e publicado em O Estado de São Paulo. São Paulo contava com a adesão de Minas e Rio Grande do Sul para cair sobre a capital federal. O apoio, porém, não veio. À exceção de Mato Grosso, não houve adesão à causa paulista. A derrota militar seria, portanto, favas contadas.

“Então”, escreve Quartim de Moraes, “tratava-se de transformar a derrota em vitória. São Paulo tinha sido vitorioso em 1932, e sua vitória seria a realização da Constituinte de 1933-1934, a reconstitucionalização do país. A consagração desta explicação é o único fato plausível para a massiva recorrência de inversões cronológicas que servem para justificar o constitucionalismo paulista. Reconhecer que a data da Constituinte estava marcada [por Getúlio] antes do levante de 9 de julho significa reconhecer que a Constituinte não foi uma vitória do levante armado de São Paulo”, explica o autor no livro cujo fio condutor é a construção política da mentira histórica. Contudo, um dos aspectos mais notáveis e duradouros do movimento de 1932 foi dar expressão e organicidade ao pensamento de direita.

O publicista mais influente à época foi Julio de Mesquita na formulação do ideário do movimento e a sua veiculação pelo jornal O Estado de São Paulo, assim como seu genro, Armando Salles de Oliveira. Este apoiou a Revolução de 1930, mas em 1932 apoiou o levante militar e, um ano depois, foi indicado por Vargas como interventor em São Paulo. E seu ódio ao “pior dos ditadores” – coerente com a oligarquia que esqueceu sua defesa da democracia para apoiar a Lei de Segurança Nacional em 1935 –l converteu-se em apoio na repressão ao comunismo. Assim, “em um período de cinco anos, o jornal e seus ideólogos, conforme seus interesses, mudaram o discurso sobre Getúlio Vargas diametralmente e repetidas vezes”, diz Quartim de Moraes.

Segregação
Sob a conveniência política veio à luz do dia a expressão ampla dos preconceitos da elite do estado. Em primeiro lugar, explicou-se a derrota como fruto de “traições” no front externo e interno. Criou-se o mito do “bom paulista” e do “mau paulista”, sendo esses últimos de várias castas, e foi notável o racismo expresso na própria organização das operações militares. Havia um batalhão só de negros, por exemplo. Segregação retratada na obra que Alfredo Ellis Jr. escreveria – Primeiros troncos paulistas e o cruzamento euro-americano (1936) – mostrando que a população negra não teria contribuído para a formação da “nação paulista”.

Também os nordestinos passavam a ser estigmatizados em São Paulo, inclusive para isolar João Alberto, nordestino pernambucano, ao se exigir um interventor paulista – campanha na qual atuou a Liga pela Constituição e pela Ordem, de Paulistas de Nascimento.

A partir de 1932 se intensificara a migração nordestina para São Paulo. Especialmente graças à seca daquele mesmo ano, seguida pela chamada “seca de João Miguel”, quando o comandante militar baiano arquitetou o plano de esvaziar a caatinga para isolar e vencer os cangaceiros. Só no município de Simão Dias, 12 mil pessoas foram expulsas de suas casas a coronhadas do comando militar da operação. São Paulo fez-se o destino daqueles que buscavam recomeçar a vida, mas esbarrando na ideologia do “paulista” como superior aos demais brasileiros.

Já mais tarde, Cassiano Ricardo, em Marcha para oeste (1940) foi quem mais longe levou o culto ao mito paulista dos bandeirantes (“raça de gigantes”, dizia parodiando Auguste de Saint-Hilaire de um século antes) como fundadores da nação. E 1932 foi sempre visto como a expressão da consciência moral unificada dos “descendentes dos bandeirantes”. Em outras palavras, 1932 serviu também para transformar facinorosos bandeirantes em “heróis nacionais”.

Mito dos “heróis nacionais”
Do mesmo modo, Paulo Duarte condena o “Palmares pelo avesso” que seria submeter São Paulo dos descendentes dos antigos bandeirantes, brancos e revoltosos. “Será puro lirismo sentimental se chamarem irmãos [...] um dólico-moreno de Minas, ou um platycephalomongoilado do Sergipe, ou do Ceará ou um negro da Bahia”, genericamente tidos como “cabeça chata”.

O ideal separatista parecia a solução para todas as contradições da nação – das políticas e momentâneas às estruturais. Como escreveu Monteiro Lobato em 1932,  “Hegemonia ou separação. Ou São Paulo assume a hegemonia política que lhe dá a hegemonia de fato que conquistou pelo seu trabalho no campo econômico e cultural, ou separa-se [...] Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em seu proveito, ou separa-se”.

Este “espírito de liga Lombarda” deitou cidadania na expressão de “paulistanidade” como superioridade racial, moral, econômica e política de São Paulo diante dos demais estados. A ideia de “locomotiva do Brasil” e o dístico “Non ducor. Duco” de Guilherme de Almeida são expressões que encarnam essa convicção conservadora, assim como a historiografia bandeirante do período, e mesmo certa sociologia antipopulista posterior, por horror a um “queremismo” que já começava a se manifestar.

Quando da comemoração do 4º Centenário de São Paulo (1954) esse espírito foi reavivado nas letras e arquitetonicamente em torno do Parque do Ibirapuera. O seu Obelisco foi construído em 1947 em homenagem aos “heróis de 1932”, segundo projeto do arquiteto fascista Galileo Ugo Emendabili, e inaugurado em 1955, próximo ao Monumento das Bandeiras, de Victor Brecheret, reforçando a mitologia da “paulistanidade”. De modo irônico, o parque fora construído sobre antigo pântano onde se comemora, ano a ano, a principal data cívica dos “bons paulistas”.


É ao explicitar o caráter ideológico do pântano sobre o qual repousa a “paulistanidade” que o trabalho de Quartim de Moraes se torna leitura obrigatória para todos que, “bons” ou “maus”, são paulistas cercados de brasileiros por todos os lados.












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03 julho 2019

O presidente e seu Estado Maior

A discussão sobre governança tem tomado conta da administração pública e também da ciência política, cada vez mais.

Na esteira dessas discussões, uma preocupação é com o chamado centro de governo - isso para governos que de fato tenham alguma preocupação em serem "centrados".


Os centros de governo são chamados ali de Núcleos de Governo (NdGs)

Um dos artigos (Capítulo 4) aponta que a literatura sobre governança de políticas públicas tem infelizmente adquirido um perfil meramente prescritivo, pouco antenado em como as coisas acontecem na vida real e as diferentes feições que adquirem. Isso torna tais estudos frágeis, pouco aprofundados "a respeito das bases concretas sobre as quais os NdGs se fundam, se desenvolvem, se fortalecem ou se esfacelam." (Pompeu e Lassance, 2018, pág. 118).

"O esforço de pesquisa aqui realizado é justamente o de buscar entender a lógica de formação e funcionamento de NdGs a partir de seu big bang, sua composição inicial, e extrair daí algum aprendizado útil à solidificação de teorias mais realistas a esse respeito." (Pompeu e Lassance, 2018, pág. 17).

Há casos nada incomuns em que o núcleo ou centro de governo, ao invés de ser parte da solução, é parte do problema:

"O NdG deveria fazer o presidente sempre se voltar para a prioridade; na prática, porém, muitas vezes é o NdG que traz as urgências para o presidente." (Pompeu e Lassance, 2018, pág. 119).

Leia:

CAVALCANTE, Pedro Luiz Costa e GOMIDE, Alexandre de Ávila (organizadores). O Presidente e seu núcleo de governo: a coordenação do Poder Executivo. Brasília: Ipea, 2018. 415 p. Disponível em <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/190308_o_presidente_e_seu_nucleo_de_governo.pdf>. Acesso em 2 de julho 2019.














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