19 março 2026

Para que servem os conceitos?



Sem definir conceitos, simplesmente não sabemos do que estamos falando.
Em pesquisa que faça uso de metodologia científica, eles são cruciais para definir problemas e produzir explicações. Fome, habitação precária, doenças crônicas, pobreza, analfabetismo funcional, violência, o que significam esses termos? 

Parece uma tarefa trivial, mas não é. O mais comum é uma babel de termos que supostamente servem de conceitos, quando, de fato, são palavras muitas vezes polissêmicas, que variam conforme o interlocutor, e não um conceito definidor e operacionalizável em uma pesquisa. Portanto, para uma palavra ser tomada como um conceito, existe um passo importante a ser dado.

Em Dez erros recorrentes em artigos acadêmicos, o professor Adriano Codato relata sua experiência de editor, por mais de três décadas, da Revista de Sociologia e Política. Um dos problemas crônicos é justamente o mal uso de conceitos.

Por exemplo, conceitos que ficam no nível retórico. São, na melhor das hipóteses, "uma palavra descritiva, sem definição analítica". O pulo do gato entre um conceito retórico, meramente descritivo, e um conceito propriamente dito está no fato de que ele deve ser uma ferramenta analítica, ou seja, um recurso para que se saiba do que se está falando. Na prática, é o conceito que permite dizer o que "exatamente o conceito inclui e que fenômenos ele exclui. Um bom conceito traz o que Codato (não só ele) chama de "critérios de fronteira", usados para "distinguir empiricamente casos que pertencem ou não àquilo que o conceito descreve". Essa distinção permite o passo seguinte: operacionalizar a análise, por exemplo, permitindo que a partir do conceito possam ser definidos os "indicadores observáveis e mensuráveis coerentes com a definição analítica".

Exemplos dados por Codato: 
"A noção de 'populismo' é usada para rotular candidatos sem critérios claros. O que foi analisado? Discurso? Estratégia de campanha? Ideologia? O conceito de 'capacidade estatal' aparece como sinônimo de 'eficiência administrativa' e sem indicadores definidos. Ou 'polarização' é 'o' assunto do artigo, mas não há medidas de distância (ideológica, afetiva, discursiva)."

Um exemplo de operacionalização de um conceito está no famoso artigo de Kenneth Bollen, o conceito de democracia: Democracia política: armadilhas conceituais e de mensuração.

No tópico "Conceptual Issues" (Questões Conceituais), Bollen exemplifica: 
"O ponto de partida na avaliação da validade das medidas de democracia política é a definição teórica do conceito. Claramente, fornecer uma definição de democracia política que todos aceitem é impossível. Eu me contentarei com o objetivo menos ambicioso de fornecer uma definição de trabalho de democracia política e contrastá-la com outras definições.
Eu defino democracia política como a medida em que o poder político das elites é minimizado e o das não-elites é maximizado (Bollen 1980:372). Por poder político, refiro-me à capacidade de controlar o sistema de governo nacional. As elites são os membros de uma sociedade que detêm uma quantidade desproporcional do poder político. Estes incluem os membros dos ramos executivo, judiciário e legislativo do governo, bem como líderes de partidos políticos, governos locais, empresas, sindicatos, associações profissionais ou órgãos religiosos."

O artigo vale a pena como inspiração do exercício essencial e necessário de definir e operacionalizar um conceito para se chegar em evidências. A jornada é longa. A definição conceitual é apenas o primeiro e mais importante passo. 















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13 março 2026

Como evitar o risco de que as organizações fiquem birutas?

O primeiro problema de uma organização não é determinar seu tamanho ou garantir seu orçamento e infraestrutura. É definir seu propósito. 


Herbert Simon, Nobel de Economia de 1978 por seus estudos pioneiros sobre processos de decisão em diferentes tipos de organizações e um dos precursores dos estudos sobre inteligência artificial, trabalhou na autarquia responsável pelo Plano Marshall. Em um estudo pouco conhecido, ele relata como essa organização conseguiu manter sua atuação na implementação do programa de reconstrução europeia de forma aderente à estratégia do Plano.

Como evitar o risco de que as organizações sejam meros balcões, seja para atender aos interesses dos que controlam a oferta de produtos e serviços ou, simplesmente, atender reativamente às demandas que chegam de forma caótica e caso a caso?


Leia mais a respeito de como responder a essa pergunta difícil e importante lendo:

LASSANCE, Antonio. Plano Marshall: estratégia, apoio à decisão e planejamento para a próxima grande crise. Rio de Janeiro: Ipea, 2026. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/19995   

O livro é público e gratuito para baixar, ler e distribuir.















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06 março 2026

FLAGREI UMA IA NO FAMOSO "DESCULPE, TAVA DOIDÃO"


Diante de uma resposta inconsistente, questiono o erro e eis que aparece um:

"Você me pegou em um erro clássico de 'excesso de entusiasmo' da IA, e peço desculpas pela contradição."

"Excesso de entusiasmo"? Sei!

Valem sempre alguns alertas básicos:

  • IA é mais ferramenta que assistente;
  • Na melhor das hipóteses, é a sua metodologia que transforma sua IA em algo próximo a um assistente. Não é o prompt;
  • Além da metodologia, a qualidade da sua pesquisa depende da qualidade da sua fonte. Se você não depura o "input", você compromete o "output";
  • Jamais terceirize suas conclusões. Nunca aceite uma resposta sem verificar se ela corresponde ao que está nas fontes ou na base de dados que você utilizou.














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