19 fevereiro 2019

O enigma da democracia

Quando Charles Tilly* dizia, na introdução de seu último livro, Democracy, que essa era a obra de sua vida, ele menos se referia a uma tentativa de síntese de suas teses principais e mais ao fato de que a dimensão de seu estudo só era de fato possível por ter ele percorrido, anteriormente, um universo amplo de países, temas e grandes problemas do campo da política, da economia e da sociedade.

Citado igualmente como historiador, sociólogo, cientista político e cientista social, Tilly deve ser lembrado pela importância que conferiu às lutas sociais como promotoras de mudanças políticas, seja para ondas de democratização ou do seu reverso, que ele chama de "desdemocratização"

Ele sempre destacou a importância das revoluções, dos movimentos sociais e de seus contenciosos no processo de alteração das relações entre os cidadãos e os Estados nacionais e no impulsionamento dessas ondas.


Leia a resenha  que escrevi de Democracy na Revista Brasileira de Ciência Política. (Arquivo em pdf)

* Charles Tilly nasceu nos Estados Unidos em 1929. Morreu em Nova Iorque, aos 29 de abril de 2008.














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24 janeiro 2019

Malucos no pedaço


Taxar os bilionários com impostos de 70% a 80% é uma loucura, certo? 

Quem acha que isso faz algum sentido? 

Para começo de conversa, pessoas como Peter Diamond e Paul Krugman, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia.

Em artigo no The New York Times, Krugman lembra que Christina Romer, que foi a principal formuladora de macroeconomia do Conselho de Assessores Econômicos, durante a presidência de Barack Obama, ia ainda mais longe. Ela propunha mais de 80% de taxação sobre os bilionários.

Mas sejamos práticos: quem teria coragem de implementar isso? 

Que tal um país chamado Estados Unidos? Durante um período de 35 anos, desde o fim da II Guerra Mundial, os Estados Unidos tiveram as maiores alíquotas de impostos sobre os ricos de toda a sua história.

E qual foi o resultado disso tudo? Simplesmente, seu período de maior crescimento econômico.

De outro lado, quem finge que não há a mínima diferença entre os podres de ricos e os pobres de marré-de-si tem levado a cabo propostas insanas de política tributária.

É o caso do ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, que quer igualar as alíquotas de imposto de renda de todos os brasileiros em 20%. É demais para quem ganha pouco, e não é nada para quem ganha muito.

Os super-ricos agradecem. E comemoram





Leia o artigo do economista ganhador do Nobel de Economia, Paul Krugman, "The Economics of Soaking the Rich", publicada no The New York Times.

Leia o artigo Peter Diamond no Washington Post.
Leia também o artigo de Peter Diamond e Emmanuel Saez, citado por Krugman

Maioria dos americanos é favorável à proposta. Leia matéria do Intercept



Alerta da Oxfam: recompensem o trabalho, não a riqueza! (Oxfam, 2018)! 

Números da desigualdade no Brasil (Oxfam, 2018).

O economista Marc Morgan Milá (2017) Brasil é o país mais desigual do mundo, com exceção do Oriente Médio e, talvez, da África do Sul  








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21 janeiro 2019

O Coro dos Defuntos

Uma das histórias que perambulam pelo romance do escritor angolano António Tavares, "O Coro dos Defuntos", é a da parteira de uma remota vila portuguesa que sonha que o ditador caiu da cadeira. 

Do sonho da parteira, surge o pesadelo do ditador. A queda fez crescer, dentro de sua cabeça, um hematoma na forma de "um enorme cravo vermelho". 

O breve episódio premonitório, ali romanceado, tem seu fundamento histórico.  




Ditadura hoje é apenas um pesadelo para os portugueses

3 de agosto de 1968, o então ditador lusitano, António Oliveira Salazar, iria, literalmente, cair da cadeira. Os biógrafos contam que Salazar confidenciou que ali havia um sinal de que algo não estava bem.  

E iria piorar. O tombo lhe deixaria um hematoma dentro do crânio. Dois anos depois, ele morreria, encerrando 40 anos da ditadura que ele apelidou de "Estado Novo". O nome seria inspiração para a ditadura de Getúlio Vargas, menos longeva, de 1937 a 1945. 

Os adeptos do regime tentariam dar uma sobrevida a um salazarismo sem Salazar. O problema é que o povo português não aguentava mais.

Em 40 anos, Salazar transformou Portugal no pior país da Europa, em inúmeros aspectos. Um dos países mais pobres, com elevados índices de analfabetismo e mortalidade infantil.

Durante a ditadura, era obrigatório cantar o hino nacional e ter lições de educação moral e cívica, como rezar e reverenciar a fotografia de Salazar. 
O detalhe nisso tudo é que grande parte dos portugueses sequer podia frequentar uma escola. 

Nos anos 1950, metade das mulheres nunca havia conseguido se matricular. Entre os homens, o índice de exclusão escolar chegava a 30%.
Quando Salazar morreu, de cada 4 portugueses e portuguesas, um era analfabeto (25%).


Ditadura é atraso

Em Portugal, a ditadura não deixou saudades. Deixou péssimas lembranças. A única data que se lembra a esse respeito é justamente aquela que sacramentou o seu fim.  

25 de abril de 1974 é data amplamente comemorada pelos portugueses para homenagear a Revolução dos Cravos. Ali, os cravos eram de fato a flor, e não mais um hematoma.

O movimento dos cravos tinha, em sua liderança, capitães que lutavam pela democracia, apoiados por uma ampla mobilização popular. 


Ditadura é passado

Em 40 anos, Salazar transformou Portugal no pior país da Europa, em inúmeros aspectos. Um dos mais pobres, com os maiores índices de analfabetismo e mortalidade infantil. 

A democracia e sucessivos governos com políticas sociais igualitárias transformaram Portugal atualmente em um país admirável.

Portugal chegou a ser um dos mais atingidos pela crise de 2008-2009. O país afundou de vez ao aplicar o receituário de ultraliberal de "austeridade".

No final de 2015, um novo governo, socialista, com o apoio de partidos mais à esquerda, assumiu o comando do país.

- Portugal aumentou significativamente o salário mínimo.  
- Estabeleceu alíquotas de imposto de renda mais altas para os mais ricos e menores para a classe média e sobretudo para os mais pobres 
- Devolveu  salários e pensões do setor público a níveis anteriores à crise.
- De quebra, reintroduziu quatro feriados que haviam sido cancelados.

Por ironia, hoje, o Brasil é quem entoa o coro dos defuntos.



O Coro dos Defuntos


O Coro dos Defuntos
Prémio LeYa 2015
TAVARES, ANTÓNIO

"... na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. 
E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. 

Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar."

"Cada um sabia quem eram os outros e cada qual conhecia todos" (trecho do livro).

Fonte: editora Leya.

António Tavares António Tavares nasceu em Angola, em 1960, formou-se em direito pela Universidade de Coimbra e é pós-graduado em direito da comunicação pela mesma universidade. Escreveu peças de teatro, foi jornalista, fundador e diretor do jornal regionalA Linha do Oestee da revista de estudos Litorais. Como romancista, obteve uma menção honrosa no Prêmio Alves Redol, atribuída, em 2013, pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira ao título Todos os dias morrem deuses, publicado em 2017, pela editora Dom Quixote. Foi finalista do Prêmio Leya 2013 com a obra As palavras que me deverão guiar um dia, livro publicado em 2014 pela Teorema, premiado no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, na França, em 2015, e também finalista do Prêmio Literário Fernando Namora. Com o romance O coro dos defuntos venceu, por unanimidade, o Prêmio LeYa 2015







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