27 dezembro 2017

Cúpula das forças armadas considera que Bolsonaro não serve aos militares

E um espectro ronda o país: 
O espectro do golpe militar


Bolsonaro é tiro no pé 

Uma reportagem do Congresso em Foco aferiu opiniões de militares influentes na cúpula das forças armadas, na ativa e da reserva

Para eles, Bolsonaro é "imprevisível" e "incapaz de dialogar". As alfinetadas no subalterno não param por aí:


"Peca por excesso de vaidade e de pretensão. Acha que sabe tudo e dessa forma fica difícil conversar”.

O mais importante, porém, não está nas linhas, mas nas entrelinhas da matéria.


Risco de golpe

A reportagem diz que a sanha por mais um golpe "não encontra eco entre os militares da ativa". 

Mas, para quem conhece minimamente a história do Brasil e o papel que os militares cumpriram desde a Proclamação da República, a matéria traz mais motivos de preocupação do que de tranquilidade. Afinal, os militares sempre deram golpes dizendo que não dariam golpes. 

Foi assim desde quando o marechal Deodoro da Fonseca, monarquista convicto e amigo do Imperador, deu um golpe, primeiro, achando que estava apenas derrubando o gabinete parlamentarista do visconde de Ouro Preto, sendo depois informado e plenamente convencido de que o melhor era mandar o imperador embora, proclamar a República e fazer dele, Deodoro, presidente. 

O imperador Pedro II, incrédulo, disse a um comandante chileno que a ele ofereceu refúgio em seu navio:


"Fogo de palha, comandante, como o senhor verá. Conheço de sobra a minha gente... Fogo de palha!".  

O mesmo ocorreu quando, em 1964, o comando das forças armadas de João Goulart "garantiu" que estava tudo "sob controle". Os militares de hoje também garantiram ao entrevistador da revista do Congresso em Foco que têm "total controle da situação"

Castello Branco, que se tornaria o primeiro presidente da ditadura, era tido como um legalista, admirador da democracia americana e francesa. Dizia que, sempre que houvesse golpe, estaria do lado contrário. É dele um vaticínio que os militares deveriam repetir, todo dia, ao se olharem no espelho:


"Tutelando policialmente o país, mais sofreremos vexames, perante a Nação, dos qualificativos rudes de 'gorilas', 'reacionários', 'golpistas' e 'patetas'".
(Castello Branco, em carta reproduzida em Diniz Esteves (compilação). Documentos Históricos do Estado-Maior do Exército. Brasília, editora do Estado Maior, , 1996. Citado por Gaspari, A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 54. O mesmo perfil de legalista empedernido, que se dobrou aos acontecimentos, é traçado em maior profundidade na biografia de Lira Neto sobre o presidente, Castello: a Marcha para a Ditadura, Editora: Contexto, 2004).

A arte de enganar os adversários

No Chile, outro péssimo exemplo, Pinochet estava no posto de comandante-em-chefe das forças armadas nomeado pelo próprio presidente Salvador Allende, pois este acreditava que o general era leal, não conspirava e estava comprometido em manter os militares fora da política. 

11 de Setembro de 1973, apenas 18 dias após ser empossado por Allende como comandante supremo das forças armadas, Pinochet comandou um rápido e violento ataque ao Palácio de La Moneda, sede do governo, e exigiu a rendição de Allende. Em troca, ofereceu um avião que levaria Allende ao exílio, junto com seus auxiliares diretos. 

O plano de Pinochet era: "no caminho, os jogaremos de lá", conforme ordem transmitida via rádio para os oficiais encarregados de aprisionar Allende. A informação foi interceptada por um radioamador e está revelada no livro "Interferência Secreta", da jornalista Patricia Verdugo, de 1997.

Como dizia o célebre comandante militar grego, Xenofonte, estratégia é a arte de surpreender (ou enganar, a depender da tradução) o adversário. 

Portanto, saibam todos que, se um golpe militar (o civil já veio) vier a ocorrer no país, os militares serão os últimos a admiti-lo.


De novo, o velho Clube Militar

Outro motivo de preocupação é a revelação de que o destino mais provável do general de Exército Antonio Hamilton Martins Mourão não é concorrer à presidência como vice de Bolsonaro, e sim ao tradicional Clube Militar, que é uma espécie de sindicato dos militares, caixa de ressonância de suas insatisfações e reivindicações.

O general Mourão foi afastado três meses após ter criticado o governo Temer e falado que "pode haver uma intervenção militar caso a situação não seja resolvida pelas próprias instituições".

O Clube, como reforça a matéria, é poderoso e é o lugar ideal para influenciar os militares a "atravessar o Rubicão", se preciso for, conforme a conveniência dos mesmos.

Plano A: barganha

Na melhor das hipóteses, os militares estão só brandindo o fantasma do golpe, primeiro, como ameaça velada. O título da matéria do Congresso em Foco é: 


"Apesar da perplexidade com a crise, comando do Exército barra planos de intervenção militar".

A matéria é uma vitrine para que os comandantes digam o quanto estão resistindo a pressões crescentes e contornando-as. Nas entrelinhas, o que se quer dizer é que eles são imprescindíveis a qualquer presidente, de Lula a Bolsonaro, passando por Temer, e não se submetem a qualquer um deles, a não ser que sejam atendidas algumas reivindicações.

No quadro atual, pode-se perfeitamente supor que essa exposição do quanto a situação está delicada serve ao propósito de aumentar o cacife dos militares na dura batalha para se livrarem da proposta de reforma da previdência, terem alguma perspectiva de aumentos salariais e algum alívio orçamentário. 

Para quem não sabe, os militares sabem fazer política e barganhar melhor do que ninguém. Certamente melhor do que o ministro da Defesa, Raul Jungman, que está mais que entronizado no papel de banana de pijama das forças armadas desde a crise gerada pelo pronunciamento de Mourão.

Plano B: senha para o golpe

Na pior das hipóteses, o Clube, com Mourão à frente, pode estar sendo preparado, pela enésima vez, para servir de dispositivo para golpear a democracia, direta ou indiretamente.

Indiretamente, o Clube a ser presidido por Mourão pode servir de espantalho para que muita gente que queira votar em Lula pense que essa talvez não seja uma boa ideia, pois, quem sabe, os militares não vão deixar ele tomar posse. O efeito seria o mesmo de  quando, em 1989, muita gente não votou em Lula por medo, ao ouvir o presidente da Fiesp, Mário Amato, dizer que os grandes empresários iriam embora. A ameaça era: 
"Se Lula for eleito, 800 mil empresários deixarão o País."
Diretamente, na eventualidade de uma vitória de Lula, o Clube Militar pode ser usado como termômetro oficioso para declarar que uma crise institucional está instalada e anunciar que é hora de uma outra ditadura tomar conta do país. 

Pense em uma vitória de Lula seguida seguida de manifestações em massa contrárias à sua posse, assoberbada por ondas de ódio insuflado de forma desenfreada. Pense também em drásticas oscilações especulativas do "mercado", essa entidade cujo medidor de pressão e o eletrocardiograma são o dólar e a bolsa. Complemente a cena com exortações sorrateiras ao golpe, tanto de editoriais da imprensa tradicional - cujo apreço por golpes é visceral -, somadas à exposição celebrizada de juízes, procuradores e tantos outros que hoje são tidos como sinônimo de "instituições" - mesmo que revelem pouquíssimo apreço por elas. Tem-se então um conjunto de circunstâncias parecidas com as de 2015 e que levaram a presidenta Dilma a um profundo desgaste e deposição.

Isso permitiria uma ditadura com a mesma promessa de afastar a esquerda da presidência e "limpar" a política dos corruptos, como prometia aquela ditadura que durou 21 anos e nos legou, no topo da cadeia alimentar da política nacional, baluartes como Paulo Maluf, José Sarney, Antonio Carlos Magalhães (ACM) e toda uma legião de políticos tradicionais que foram nutridos a pão de ló por generais presidentes (tema do livro de  Frances Hagopian, Traditional politics and regime change in Brazil, Cambridge University Press, 1996). 

Até mesmo Romero Jucá, já em outro contexto (presidência Sarney), não seria o que é se não tivesse caído nas graças e sido patrocinado pelo general Bayma Denis (ministro-chefe do Gabinete Militar 1985-1990), que considerava Jucá um tecnocrata competentíssimo e habilidoso - bem sabemos como é (a esse respeito, leia a excelente matéria de Lucas Ferraz, da Agência Pública,  Jucá, o tricoteiro de quatro agulhas). Com as credenciais que tem junto ao meio militar, não seria surpresa se Jucá se tornasse o líder desse governo golpista com a maestria que lhe é peculiar.

Essas são suposições ou, como é mais correto dizer, cenários, não necessariamente prováveis, mas possíveis - como qualquer bom cenário a ser cogitado. 

Ainda bem que não acreditamos em bruxas... pero que las hay, las hay.

De volta ao passado

Em 1962, Wanderley Guilherme dos Santos publicou seu profético "Quem dará o golpe no Brasil". Identificava os golpistas, as forças sociais e econômicas que estavam por trás da movimentação conspiratória e levantava receios como os que se prenunciam neste momento.

O grande cientista político também batia na tecla de que "não há golpe sem traição". Qualquer abraço pode ser sincero ou apenas uma tentativa de aproximação para se cravar o punhal.

Mais importante, Wanderley Guilheme dos Santos tocava em dois aspectos centrais sabidamente negligenciados pela esquerda: a disputa pela classe média e o papel dos meios de comunicação. 

Ao chamar a atenção para a grande disputa sobre a classe média, destacava que ela seria o fiel da balança das pretensões golpistas e pedra de toque da ação militar, pois o problema com as Forças Armadas era representativo 


"... do que está ocorrendo, neste momento, com toda a classe média, à qual pertencem os militares brasileiros." (p. 28). 


Para a minoria reacionária e elitista, era essencial conquistar o centro do espectro político habitado pela classe média, com dois vetores:


"desde a corrupção até a paralisação desses setores pelo medo." (p. 45).

O texto é atualíssimo sobre o papel de movimentos extremistas de viés anticomunista, muito parecido, em sua ideologia espalhafatosa e de disseminação de absurdos,  com a pregação hoje desenvolvida por movimentos como MBL, Vem Pra Rua, Movimento Endireita Brasil e outros.

Mesmo o peso das "fake news" não é novo, conforme revela o comentário (pág. 7):

"… escamotear os fatos, inventá-los, interpretá-los segundo lhe convém; em uma palavra, a minoria privilegiada dominante tem condições reais para distrair a atenção e os esforços das forças populares, e seguramente não deixará de usar essas condições."

O golpismo também se valia do fato de que a minoria privilegiada e de tendências golpistas é também detentora dos meios de informação e divulgação não apenas de notícias. Como todo golpe depende de uma narrativa, a batalha da comunicação, na construção de narrativas, é uma peça essencial do teatro de operações contra a democracia no Brasil, desde sempre.

Saídas para a crise

A clarividência de Wanderley Guilherme, renovada nos dias atuais, nos ensina que, hoje, 


"(...) os assalariados, de modo geral, com a ameaça de desemprego, estão muito pouco dispostos a participar de manifestações com pautas universais, generalizantes" [como o combate ao impeachment por ser uma afronta à Constituição e à democracia]. "Só farão isso por questões específicas. Essa postura obedece a razões materiais compreensíveis".
(Entrevista ao GGN, 29/08/2017
Em suma, o recado é simples, embora aponte tarefas gigantescas: é preciso um programa capaz de mobilizar as pessoas  - inclusive os militares - a favor de um governo de mudança, com democracia. No curto prazo, é preciso um programa para sair da crise profunda em que o país está mergulhado, com retomada do emprego, recuperação dos recursos perdidos pelas políticas sociais e uma pauta de reformas igualitárias que, mesmo que difícil, precisa ser proposta.

É preciso comunicação capaz de entregar mensagens fortes, coerentes e efetivas, no endereço certo, em formatos modernos. 

E é preciso diálogo, pois, no confronto armado, a única coisa que a esquerda pode fazer é contar suas vítimas. 

Essas são as armas da democracia, em uma luta injusta, desigual, mas possível e necessária de ser travada.



* Antonio Lassance é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.








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