15 outubro 2010

Deixou de ser campanha. Agora é briga.

A guerra aberta na imprensa em torno de posições e circunstâncias de Dilma, com seu componente de manipulação ao lado do de registro de fatos, aparentemente acabou não só por despertar o ânimo militante dos petistas, mas também por mobilizar em seu apoio até gente que em princípio a repelia como candidata.
O artigo é do professor Fábio Wanderley Reis.

Entre os dois turnos
Fábio Wanderley Reis *


Entre um turno e outro, alguns aspectos da eleição presidencial em curso. Um deles é a tentativa de deslegitimar a atuação do presidente da República como propagandista de Dilma Rousseff, como parte das denúncias de risco de autoritarismo, “mexicanização” e quejandos. Tivemos, por certo, os excessos frequentes na retórica de Lula, que às vezes embrulham em desregramento mesmo posições corretas. Mas, se implantamos até a reeleição, em que o presidente pode fazer sua própria campanha sem deixar a cadeira presidencial, é patente a impropriedade de negar que ele possa legitimamente empenhar-se, como presidente, na campanha de uma parceira de partido e de governo e presumível continuadora. Quanto à “mexicanização”, a bobagem envolvida recebeu a pá de cal com a vitória do PSDB nas disputas para o governo de alguns dos mais importantes estados e a projeção no cenário nacional de líderes oposicionistas de claro potencial, sem falar das perspectivas abertas na disputa da Presidência já no segundo turno, em especial diante da onda de temas negativos de que o “autoritarismo” do governo não pode proteger sua desajeitada candidata.

Outro aspecto é de maior interesse na análise do processo que experimentamos. Falou-se com insistência do caráter “despolitizado” da eleição presidencial, supostamente expresso no fato de que os candidatos não apresentam “programas”. Ora, é fácil redigir programas, cujo destino costuma ser a lata de lixo. Em contraste, é impossível não reconhecer que há temas substantivos de grande alcance político subjacentes à eleição, e essa é mesmo a razão da feição de convergência e “não evento” que a campanha vinha exibindo, com Serra impedido de opor-se às políticas de Lula e levado até a prometer mantê-las e expandi-las, ao ponto da demagogia. O grande e óbvio tema é a “questão social”, trazida ao processo eleitoral em particular com o acesso de Lula à Presidência – e com força inédita, que não se reduz aos velhos e fraudulentos acenos populistas dirigidos ao “povão” por figuras alheias a ele, mas se expressa na correlação entre o voto e a posição socioeconômica dos eleitores, com suas projeções regionais, e na demanda de continuidade. A penetração mais extensa do apoio a Lula em camadas de classe média atenuou a nitidez com que a correlação apareceu em 2006, mas é inegável o conteúdo social e distributivo que segue marcando a luta político-eleitoral. Sem embargo do alto risco, que o segundo turno evidenciou, da aposta em Dilma para levar o bastão.

Os votos de Marina, é claro, complicam o quadro. Mas, descontada a parcela de apoiadores sensíveis ao problema ambiental e os atraídos por sua fé evangélica, a candidata do PV pode ser lida na mesma chave do fenômeno Lula: suas origens humildes e história de vida corroboram a relevância eleitoral da questão social, sendo parte das razões a tornarem atraente a alternativa representada por sua candidatura – e, afinal, uma candidata verde à Presidência não pode ser somente verde, tem de dirigir-se aos diversos problemas que interessam ao cidadão como tal. Isso importa para as indagações sobre a posição a esperar de Marina no segundo turno e os desdobramentos quanto à sua consolidação como liderança real no futuro. Dificilmente caberia esperar de uma líder desejosa de consolidar-se como tal que ela simplesmente declare nada ter a ver com a crucial decisão pendente no segundo turno e convide seu eleitor a escolher por si mesmo.

É lamentável ver agora golpes eleitorais rasteiros, beijos no rosário para as câmeras e visitas ecumênicas

Dá-se ainda, porém, que o êxito de Marina ocorre em conjunto com a emergência surpreendentemente intensa de temas religiosos na virada do primeiro turno para o segundo. Nas condições em que tais temas emergiram, envolvendo o difuso ativismo político na internet, não há por que ligar o fenômeno, sem mais, às crenças religiosas da própria Marina. Seja como for, a importância político-eleitoral que eles adquirem, se parece introduzir um eixo ortogonal à questão social, é de fato a manifestação da fatal face atrasada do substrato em que se assenta sua afirmação tardia entre nós. Vimos, dois anos atrás, o retrógrado fundamentalismo religioso dos Estados Unidos levar Obama, como candidato, a ter de responder de público à pergunta de em quantos dias Deus fez o mundo. É lamentável ver agora, aqui, golpes eleitorais rasteiros combinados com beijos no rosário para as câmeras e visitas ecumênicas a basílicas e pastores, em vez do debate lúcido das complicações do problema do aborto – ou do debate real da própria questão social que o cerca.

E quem vence? A guerra aberta na imprensa em torno de posições e circunstâncias de Dilma, com seu componente de manipulação ao lado do de registro de fatos, aparentemente acabou não só por despertar o ânimo militante dos petistas, mas também por mobilizar em seu apoio até gente que em princípio a repelia como candidata. A ver se o que isso agrega basta para compensar os efeitos eleitorais negativos de suas limitações. E se a força de Lula se retempera.

* Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da UFMG. Artigo publicado no jornal Valor Econômico, 15 de outubro de 2010.

Crédito da foto: do filme "Menina de ouro", de Clint Eastwood. Para vê-la em formato maior, clique aqui.

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