Sem definir conceitos, simplesmente não sabemos do que estamos falando.
Em pesquisa que faça uso de metodologia científica, eles são cruciais para definir problemas e produzir explicações. Fome, habitação precária, doenças crônicas, pobreza, analfabetismo funcional, violência, o que significam esses termos?
Parece uma tarefa trivial, mas não é. O mais comum é uma babel de termos que supostamente servem de conceitos, quando, de fato, são palavras muitas vezes polissêmicas, que variam conforme o interlocutor, e não um conceito definidor e operacionalizável em uma pesquisa. Portanto, para uma palavra ser tomada como um conceito, existe um passo importante a ser dado.
Em Dez erros recorrentes em artigos acadêmicos, o professor Adriano Codato relata sua experiência de editor, por mais de três décadas, da Revista de Sociologia e Política. Um dos problemas crônicos é justamente o mal uso de conceitos.
Por exemplo, conceitos que ficam no nível retórico. São, na melhor das hipóteses, "uma palavra descritiva, sem definição analítica". O pulo do gato entre um conceito retórico, meramente descritivo, e um conceito propriamente dito está no fato de que ele deve ser uma ferramenta analítica, ou seja, um recurso para que se saiba do que se está falando. Na prática, é o conceito que permite dizer o que "exatamente o conceito inclui e que fenômenos ele exclui. Um bom conceito traz o que Codato (não só ele) chama de "critérios de fronteira", usados para "distinguir empiricamente casos que pertencem ou não àquilo que o conceito descreve". Essa distinção permite o passo seguinte: operacionalizar a análise, por exemplo, permitindo que a partir do conceito possam ser definidos os "indicadores observáveis e mensuráveis coerentes com a definição analítica".
Exemplos dados por Codato:
"A noção de 'populismo' é usada para rotular candidatos sem critérios claros. O que foi analisado? Discurso? Estratégia de campanha? Ideologia? O conceito de 'capacidade estatal' aparece como sinônimo de 'eficiência administrativa' e sem indicadores definidos. Ou 'polarização' é 'o' assunto do artigo, mas não há medidas de distância (ideológica, afetiva, discursiva)."
Um exemplo de operacionalização de um conceito está no famoso artigo de Kenneth Bollen, o conceito de democracia: Democracia política: armadilhas conceituais e de mensuração.
No tópico "Conceptual Issues" (Questões Conceituais), Bollen exemplifica:
"O ponto de partida na avaliação da validade das medidas de democracia política é a definição teórica do conceito. Claramente, fornecer uma definição de democracia política que todos aceitem é impossível. Eu me contentarei com o objetivo menos ambicioso de fornecer uma definição de trabalho de democracia política e contrastá-la com outras definições.
Eu defino democracia política como a medida em que o poder político das elites é minimizado e o das não-elites é maximizado (Bollen 1980:372). Por poder político, refiro-me à capacidade de controlar o sistema de governo nacional. As elites são os membros de uma sociedade que detêm uma quantidade desproporcional do poder político. Estes incluem os membros dos ramos executivo, judiciário e legislativo do governo, bem como líderes de partidos políticos, governos locais, empresas, sindicatos, associações profissionais ou órgãos religiosos."
O artigo vale a pena como inspiração do exercício essencial e necessário de definir e operacionalizar um conceito para se chegar em evidências. A jornada é longa. A definição conceitual é apenas o primeiro e mais importante passo.
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