16 agosto 2013

Filmografia de Getúlio Vargas

Comentada por Amir Labaki 
Tony Ramos vive Getúlio Vargas no filme "Os Últimos Dias de Getúlio" Bruno Veiga/Divulgação

"É incontornável notar a dívida do cinema brasileiro para com o político gaúcho que por mais longo período ocupou, democrática e sobretudo ditatorialmente, a presidência na história da república brasileira"

Caberá Getúlio em um filme?

O ator Tony Ramos interpreta Getúlio no filme de João Jardim.

Por Amir Labaki.
Artigo publicado no Valor Econômico, 16/08/2013




Segundo volume de biografia de Getúlio Vargas serve de bússola para documentaristas


Em meio à leitura do segundo volume da biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto (Companhia das Letras, 594 págs, R$ 52,50), é incontornável notar a dívida do cinema brasileiro para com o político gaúcho que por mais longo período ocupou, democrática e sobretudo ditatorialmente, a presidência na história da república brasileira. Débito frente à personalidade histórica, bem entendido, não com a autoridade executiva fomentadora da atividade cinematográfica, abordagem que mereceria sozinha outra coluna.

Penso, ainda mais especificamente, no documentário, não na ficção, embora também essa tenha sido no mínimo tímida na aproximação ao personagem. Ok, João Jardim (de "Janela da Alma") está em meio à produção de "Os Últimos Dias de Getúlio", com Tony Ramos no papel do presidente em pleno furacão político que o levou ao suicídio em 1954.

Período similar foi também coberto, em 1993 na TV, pela competente adaptação em minissérie do romance "Agosto", de Rubem Fonseca. Mas, quando lembramos que a imagem ficcional mais marcante de Getúlio nas telas é a breve paródia protagonizada por Oscarito em "Nem Sansão Nem Dalila" (1954), de Carlos Manga, percebe-se que a omissão é séria.

Três documentários em longa-metragem representam as tentativas pioneiras de examinar em filme Getúlio Vargas e seu legado. Ainda na esteira de sua trágica saída de cena, a produtora paulista Maristela, em coprodução com a Columbia Pictures, confiou a Alfredo Palácios (1922 - 1997) a direção de "Getúlio Vargas, Glória e Drama de um Povo" (1956).

Realizado em menos de dois meses, "emendando cinejornais", como reconstituiu Afrânio Mendes Catani, o resultado é "um filme monótono, sem comentários, com um narrador descrevendo as imagens". Uma campanha contra a produção pelo eterno antigetulista "O Estado de S. Paulo" levou o filme a ser arremessado num circuito de salas secundárias. O fracasso comercial foi acompanhado pelo crítico, como anuncia o título da resenha de Marcos Marguliès: "Getúlio, drama inglório de um produtor".

Não menos conturbada foi a trajetória de "O Mundo em que Getúlio Viveu", de Jorge Ileli (1925-2003). Realizado entre 1961 e 1963, o documentário teve seu lançamento, previsto para o aniversário de nascimento de Getúlio, em 19 de abril de 1964, precavidamente adiado devido ao golpe militar. Doze anos se passaram até que o filme chegasse aos cinemas, com os primeiros ventos do processo da abertura "lenta, segura e gradual" do governo Geisel.

Trabalhando a partir de materiais de arquivo brasileiro e também internacional, alguns até então quase desconhecidos, em especial em torno da Revolução de 1932, Ileli buscou dar "uma ideia do mundo em que Getúlio viveu". "Era uma reportagem", reconheceu sem "falsa modéstia".

"O meu trabalho é uma contribuição", disse Ileli em entrevista a Samuel Wainer e Narciso Kalili quando do lançamento em 1976. "Hoje há mais condições de se questionar Getúlio do que no meu tempo. Mais informações. O distanciamento permite que muitas pessoas possam dar seus testemunhos. Por isso não fiz interpretações." Foi o bastante para, em sua crítica, Sérgio Augusto reconhecesse que Ileli, "com a maior honestidade, procurou pintar um retrato sem preconceitos, nem pró, nem contra. Como nos livros neutros do historiador Hélio Silva".

O caminho para o documentário de Ileli havia sido facilitado pela estreia dois anos antes de "Getúlio Vargas", o primeiro longa de Ana Carolina (de "Mar de Rosas"). Narrado por Paulo César Pereio, a cineasta editou o filme no prazo recorde de 40 dias a partir essencialmente de materiais da Cinemateca Brasileira e "algumas coisas da família Vargas".

"Esse documentário me toca tão profundamente até hoje", diz ela no seu depoimento para a série de livros biográficos "Aplauso" (Imprensa Oficial), "porque é um filme sobre as paixões, as esperanças, sobre a entrega apaixonada às questões do Brasil". Já para o historiador Cláudio Aguiar Almeida, num ensaio publicado em 2007, "produzido em 1974, em plena ditadura militar, o filme de Ana Carolina recupera Getúlio Vargas como um exemplo de resistência às "forças reacionárias" que ameaçavam o país, sem questionar o autoritarismo que caracterizou esse personagem e os regimes que ele liderou".

A mais audaciosa e complexa operação de análise audiovisual da figura de Getúlio Vargas está em desenvolvimento há mais de duas décadas por Eduardo Escorel. Lançados em DVD numa caixa pela Log On, "1930 - Tempo de Revolução" (1990), "1932 - A Guerra Civil" (1993) e "1935 - Assalto ao Poder" (2002) analisam, em estilo cada vez mais ensaístico (menos entrevistas, mais análise das imagens de arquivo), o primeiro período de Getúlio no poder, como ditador ainda envergonhado. Escorel finaliza no momento uma série em cinco episódios sobre o Estado Novo (1937-1945).

Caberia Getúlio num único documentário? A resposta talvez não tarde. Num debate durante o É Tudo Verdade em abril passado, insistentemente provocado por um participante da plateia, Sílvio Tendler abaixou a guarda e reconheceu que, depois de JK, Jango e Tancredo, talvez devesse mesmo encarar o desafio de um retrato específico de Getúlio. Tomara. A bússola, Lira Neto já está providenciando.

Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.
 
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