19 abril 2013

Descoberto erro de cálculo em estudo que orientava políticas de arrocho fiscal


“Quase não acreditei no que os meus olhos estavam a ver quando vi aquele erro tão básico na folha de Excel. Tem de haver uma explicação”

Thomas Herndon, doutorando em Economia.

Como um estudante pôs em causa o trabalho de economistas prestigiados


18 Abril 2013, 14:22
Inês Balreira

Thomas Herndon, doutorando em Economia, não acreditou quando descobriu o erro de Rogoff e Reinhart e chamou a namorada que o confirmou. No início, também os professores não acreditaram em Herndon.

Foi na elaboração de um artigo científico para a disciplina de Econometria que Thomas Herndon descobriu o erro de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, dois dos mais prestigiados economistas da actualidade.


Herndon tem 28 anos e é doutorando em Economia na Universidade de Massachusetts. O trabalho do estudante de Economia consistia em replicar os resultados de Rogoff e Reinhart e, em seguida, contra-argumentar a tese de que uma elevada dívida pública conduzia a um crescimento económico mais lento. 



Contudo, Herndon nunca chegou tão longe. As várias tentativas falhadas em replicar os dados dos dois economistas de Harvard despertaram o interesse do estudante. Herndon fez então os cálculos, utilizando os dados de Rogoff e Reinhart, que tinha requisitado no início de abril, e descobriu que em vez de uma queda de 0,1% no PIB, que os dois economistas tinham previsto para países com uma dívida acima dos 90% do PIB, os cálculos apontavam para um cerscimento de 2,2%.



“Quase não acreditei no que os meus olhos estavam a ver quando vi aquele erro tão básico na folha de Excel. Tem de haver uma explicação”, afirma Herndon, citado pela Reuters. “Então chamei a minha namorada para saber se só eu é que estava a ver o erro”, conta. “Creio que não Thomas”, respondeu Kyla Walters, namorada do estudante.



Perante a descoberta, Herndon comunicou o erro de Rogoff e Reinhart aos seus professores, Robert Pollin e Michael Asch, que mais tarde co-elaboraram o artigo em que questionam a teoria dos economistas de Harvard.



“No início não acreditei nele. Pensei: ok ele é um estudante, tem de estar errado. Eles são economistas proeminentes e ele é um estudante de doutoramento”, revela Pollin. O professor afirma que durante um mês, a par com Michael Asch, pressionou o estudante para rever os cálculos. “Depois de um mês disse: ‘Raios, ele está certo’”, afirma o economista.



O artigo dos três investigadores tem estado a abalar o meio académico e Herndon pensa mesmo alargar o seu trabalho e torná-lo na sua tese de doutoramento.



O erro de Rogoff e Reinhart



Em 2010, Rogoff e Reinhart publicaram um artigo, intitulado “Crescimento em tempo de dívida”, que sustentava que países com uma dívida pública acima dos 90% do PIB tem um crescimento muito inferior comparativamente com os países onde o valor da dívida não é tão elevado.



O estudo dos dois economistas é uma das teorias centrais na fundamentação teórica das políticas de austeridade para a estabilização do endividamento público.



Para chegarem a tal conclusão, os dois economistas utilizaram estatísticas de vários países, relativas ao período entre 1946 e 2009.



Primeiro sozinho e mais tarde em conjunto com Pollin e Ash, Herdon descobriu várias fragilidades no estudo “Crescimento em tempo de dívida”, que se podem dividir em três grupos: selecção de dados, ponderação do peso e códigos de Excel.



De acordo com os três investigadores, foram excluídos da análise anos em que dívidas acima de 90% conviveram com crescimentos sólidos: Austrália (1946-1950), Nova Zelândia (1946-1949) e Canadá (1946-1950). Outro dos equívocos prende-se com a ponderação do peso, ou seja, observações diferentes têm o mesmo peso. Por exemplo, o Reino Unido teve um crescimento médio de 2,4% durante 19 anos com uma dívida superior a 90%. Rogoff e Reinhart deixaram ainda de fora no estudo cinco países com uma dívida superior a 90%, o que se deve a um erro na fórmula de Excel.



Os dois economistas reconheceram já o erro na fórmula de cálculo, reiterando, no entanto, que continua a haver uma relação entre a dívida pública elevada e o baixo crescimento económico.



“É preocupante que tal erro tenha sido incluído num dos nossos artigos, apesar dos nossos esforços constantes e do nosso cuidado”, afirmam Rogoff e Reinhart num comunicado de resposta à descoberta do erro. “Não acreditamos, no entanto, que este lamentável deslize afecte de forma significativa a teoria central do artigo ou do nosso trabalho posterior”, asseveram os economistas.



“Crescimento em tempo de dívida” foi utilizado como base para trabalhos posteriores, nomeadamente o artigo “Sobreendividamento: passado e presente”, escrito ainda com Vincent Reinhart, no qual os economistas aprofundam o trabalho anterior.



“Concluímos que elevados níveis de endividamento, da ordem de 90% do PIB, constituem um travão a longo prazo para o crescimento, uma situação que pode durar 20 anos ou mesmo mais. Os custos acumulados são impressionantes. Desde 1800, as fases de sobreendividamento duram em média 23 anos e estão associadas a uma taxa de crescimento inferior em mais de um ponto percentual à taxa de crescimento das fases de menor endividamento. Dito de outra forma, após 25 anos de sobreendividamento, as receitas de um país são 25% inferiores ao que obteriam se a taxa de crescimento não tivesse sido perturbada”, sintetizava Rogoff num texto para o Project Syndicate.



Rogoff e Reinhart leccionam actualmente em Harvard e já trabalham para o Fundo Monetário Internacional, onde ocuparam altos cargos. Antes, Rogoff foi economista-chefe no banco de investimento Bear Stearns. Já Reinhart trabalhou para a Fed, passando antes por Yale e pelo MIT.

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A matéria acima é baseada em informações divulgadas na Reuters (abaixo)


REFILE-How a student took on eminent economists on debt issue - and won


Thu Apr 18, 2013 1:52pm

By Edward Krudy

(Reuters) - When Thomas Herndon, a student at the University of Massachusetts Amherst's doctoral program in economics, spotted possible errors made by two eminent Harvard economists in an influential research paper, he called his girlfriend over for a second look.

As they pored over the spreadsheets Herndon had requested from Harvard's Carmen Reinhart and Kenneth Rogoff, which formed the basis for a widely quoted 2010 study, they spotted what they believed were glaring errors.

"I almost didn't believe my eyes when I saw just the basic spreadsheet error," said Herndon, 28. "I was like, am I just looking at this wrong? There has to be some other explanation. So I asked my girlfriend, 'Am I seeing this wrong?'"

His girlfriend, Kyla Walters, replied: "I don't think so, Thomas."

In the world of economic luminaries, it doesn't get much bigger than Reinhart and Rogoff, whose work has had enormous influence in one of the biggest economic policy debates of the age.

Both have served at the International Monetary Fund. Reinhart was a chief economist at investment bank Bear Stearns in the 1980s, while Rogoff worked at the Federal Reserve, passing through Yale and MIT before landing at Harvard.

Their study, which found economic growth slows dramatically when a government's debt exceeds 90 percent of a country's annual economic output, has been cited by policymakers around the world as justification for slashing spending.

Former U.S. vice presidential candidate Paul Ryan, a Republican congressman from Wisconsin, is one influential politician who has cited the report to justify a budget slashing agenda.

Using the two professors' data, Herndon found that instead of a dramatic fall in growth, the decline was much milder, slowing to about 2.2 percent, instead of the slump to minus 0.1 percent that Reinhart and Rogoff predicted.

Things tend to move at a glacial pace in the world of academic research papers, but within 24 hours Herndon and his two teachers, who co-authored the report, Michael Ash and Robert Pollin, found themselves swept up in a global debate.

Herndon's paper began life as a replication exercise for a term paper in a graduate econometrics class. He expected to replicate Reinhart and Rogoff's results, then challenge the idea that high public debt caused growth to slow.

But he never got that far. Repeated failures to replicate the results roused his interest. Pollin and Ash encouraged him to pursue it after he convinced them he was onto something.

"At first, I didn't believe him. I thought, 'OK he's a student, he's got to be wrong. These are eminent economists and he's a graduate student,'" Pollin said. "So we pushed him and pushed him and pushed him, and after about a month of pushing him I said, 'Goddamn it, he's right.'"

Herndon approached Reinhart and Rogoff earlier this year for the spreadsheets they used in their paper. The two professors provided them at the start of April, unlocking the mysteries of the data that had stumped Herndon.

Herndon said only 15 of the 20 countries in the report had been used in the average. He also said Reinhart and Rogoff used only one year of data for New Zealand, 1951, when growth was minus 7.6 percent, significantly skewing the results.

Reinhart and Rogoff have admitted to a "coding error" in the spreadsheet that meant some countries were omitted from their calculations. But the economists denied they selectively omitted data or that they used a questionable methodology.

For Ash, the findings mean the claim that high public debt causes growth to stall no longer holds water.

"Their central thesis has been substantially weakened," he said.

Reinhart and Rogoff, however, say their conclusion that there is a correlation between high debt and slow growth still holds.

"It is sobering that such an error slipped into one of our papers despite our best efforts to be consistently careful," they said in a joint statement. "We do not, however, believe this regrettable slip affects in any significant way the central message of the paper or that in our subsequent work."

Now that Herndon has ably crossed swords with some of the most eminent figures in his field, he is thinking about expanding his work into a Ph.D. thesis.



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