22 março 2013

Por que Dilma está ainda mais popular?

Uma análise com base nos resultados das últimas pesquisa de opinião sobre a popularidade da presidenta.

Eduardo Campos e Marina Silva estão emparedados. Os tucanos só são citados indiretamente na passagem em que a presidenta se referiu aos "alarmistas".



O freio de mão da corrida presidencialMaria Cristina Fernandes *


A tonelada da mandioca subiu quase 200% com a safra quebrada pela seca, mas, a julgar pela última pesquisa CNI/Ibope, o nordestino não culpa a presidente Dilma Rousseff pela carestia.

É naquela região, segundo maior colégio eleitoral do país (27% do total), que a presidente colhe seus melhores índices de popularidade. Ruma para se aproximar dos míticos indicadores obtidos por Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela região, Lula deixou o governo com 86% de popularidade. Dilma tem 72%.

A presidente alcança esse patamar a despeito do peso que a questão federativa ganhou no debate político. A desoneração, uma das armas das quais este governo tem se valido para enfrentar a economia em crise, reduz os repasses dos impostos compartilhados com Estados e municípios.

Se há um discurso que une políticos da região é que a política industrial de Dilma, mais ampla do que a de seus dois últimos antecessores, é feita à custa dos Estados menos desenvolvidos do país.

Com os devidos matizes de quem pretende disputar audiência nacional, esse discurso incensa o governador de Pernambuco nas rodas de sua vizinhança.

Na sua última incursão brasiliense, deu grande amplitude a outra face do mesmo discurso, a de que políticas federais de grande popularidade são executadas por Estados e municípios que não têm receita para honrar as contrapartidas.

Entra na conta de gastos sociais que lustram a popularidade presidencial às expensas dos cofres locais, por exemplo, o piso nacional de professores.

Com simpatizantes em todos os cantos da Federação, foi esse discurso que deu impulso para a derrubada dos vetos presidenciais à redistribuição dos royalties do petróleo.

É dos representantes dessas regiões que surgem sinalizações de perda de prestígio da presidente entre seus aliados. Esses sinais, propagados em manchetes e colunas de jornal, dão conta de uma base de apoio prestes a se estilhaçar nos cacos de uma sucessão presidencial multipolar.

O cenário se confronta com a pesquisa desta semana que mostra um divórcio ainda por ser compreendido entre os eleitores e seus representantes regionais. Por mais que deputados e governadores se queixem, a popularidade da presidente não apenas resiste como cresce.

As notícias mais lembradas pela população são um caminho para se entender esse divórcio. Foram três as captadas pela pesquisa. A mais lembrada de todas foi o incêndio na boate de Santa Maria que matou 241 pessoas.

A tragédia, ocorrida há quase dois meses, levou uma presidente visivelmente comovida aos leitos das vítimas.

Mas foi nas duas outras notícias mais lembradas, a redução da tarifa de energia e desoneração da cesta básica, que a presidente exercitou a leve mas persistente guinada na sua política de comunicação.

Mais solta no teleprompter, Dilma parecia se dirigir à dona de casa contra interesses de homens "alarmistas", "pessimistas" e "sem fé no Brasil". Seguiu mais ou menos a mesma lógica do Bolsa Família, que escolhe a mãe como titular da conta pela maior probabilidade de que o dinheiro vá parar no supermercado.

O discurso de gênero ficou ainda mais evidente no dia internacional das mulheres, quando anunciou a desoneração da cesta básica.

Aliou o anúncio da medida de impacto direto no dia a dia das famílias com o figurino de paladina da Justiça contra as mulheres vítimas de violência - "Se vocês agem assim por falta de respeito ou por falta de temor, não esqueçam jamais que a maior autoridade deste país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem".

Foi essa a imagem que a ajudou a conquistar como simpatizantes de seu governo um terço dos eleitores que não a tiveram como primeira escolha em 2010. É como se a presidente tivesse incorporado uma Marina Silva a seu palanque, ainda que não se possa dizer que esses novos simpatizantes resistam ao leque de opções de uma campanha presidencial.

Na imagem milimetricamente construída de Dilma versão 2.14 está embutida a ideia de que a presidente possa vir a ser a herdeira da utopia que em 2010 ainda estava colada em Lula e, se raspou a imagem de algum dos candidatos em disputa, foi a da ex-senadora do PV.

Além disso, seu mandato não registra avanços na pauta dos direitos homossexuais nem da descriminalização do aborto, o que pode confortar parte do eleitorado que dela fugiu por desconfiar da ex-guerrilheira duas vezes divorciada.

Tem muito chão até que esses 63% que a aprovam sejam incorporados como eleitores em 2014. Esse eleitor permanecerá a seu lado se as razões pelas quais aproximou-se da candidata que não era a sua permanecerem. Vai rodar em outra freguesia se esses quase 20 meses que faltam para a reeleição contradisserem aquilo que se viu até agora.

A primeira condição é manter as pessoas empregadas. Pela numeralha de fevereiro, que, além do emprego em alta, mostra 95% dos reajustes acima da inflação (Valor, 21/03), não é improvável que consiga.

A segunda é garantir os direitos do empregado que consome. Pela guerra que se trava em torno do loteamento das agências reguladoras responsáveis pela fiscalização de serviços públicos concedidos à iniciativa privada, é muito difícil que consiga mantê-las a salvo das ingerências.

A terceira das condições que terá a cumprir para fazer coincidir popularidade e voto é segurar as parcelas do eleitorado que ganhou com a faxina do início do governo. A mexida que fez e está por fazer no ministério revela as concessões da presidente para acomodar seus aliados de 2014.

Nesse quesito, a presidente pode acabar se beneficiando de uma carona do Judiciário. Assim como o julgamento do mensalão ajudou, aos olhos da classe média, a mantê-la afastada do petismo tradicional, o foco do Judiciário sobre personagens emblemáticos da aliança governista, como o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pode acabar fazendo o serviço que a destemida presidente custa a executar.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras


* Valor, 22/03/2013



 
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