10 outubro 2012

Esqueceram de um pedaço da história do rádio no Brasil

Ruy Castro: Por uma história da Mayrink

Em surdina, o rádio no Brasil fez 90 anos. A 7 de setembro de 1922, alto-falantes instalados na Exposição do Centenário, na esplanada do Castelo, no Rio, transmitiram o hino nacional, o discurso do presidente Epitácio Pessoa e a ópera "O Guarani", de Carlos Gomes. Tudo emanado do Theatro Municipal. O som era execrável, mas o povo vibrou. A façanha coube a Edgard Roquette-Pinto, hífen e tudo, e que, um ano depois, poria no ar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
Quase todos os textos que contam essa história dão um salto de 30 anos e vão direto para a Rádio Nacional nos anos 50, com o "Repórter Esso", a novela "O Direito de Nascer", o humorístico "Balança, Mas Não Cai", o musical "Um Milhão de Melodias" e as batalhas entre as fãs de Marlene e Emilinha. Como se só a Nacional tivesse existido.
Mas a história é outra. De 1932 a 1942, foi na Rádio Mayrink Veiga, também do Rio, que surgiram os programas humorísticos, o radioteatro -precursor das novelas-, os debates e as transmissões feitas da rua, inclusive esportivas. Foi também a primeira emissora a ficar 24 horas no ar, a transmitir de outro país (a Argentina) e, através de antenas especiais, a se fazer ouvir no Nordeste, pelo menos à noite.
Um dos responsáveis por tudo isso foi seu diretor artístico, o paulista Cesar Ladeira, que chamou Carmen Miranda de "A pequena notável" e Francisco Alves, de "O rei da voz", entre os grandes cartazes que contratou para a Mayrink. Somente nos anos 40, com o dinheiro do governo federal, é que a Nacional conseguiu desbancá-la, contratando inclusive Cesar Ladeira. Dez anos depois, a Mayrink também foi comprada pelo governo e, a 1º de abril de 1964, destruída fisicamente por adeptos dos militares, que jogaram seu equipamento na rua.
Faz falta uma história da Rádio Mayrink Veiga.


Artigo publicado na Folha de S. Paulo, 08/10/2012