10 janeiro 2012

O lulismo chegou ao México?

O candidato de esquerda às eleições presidenciais continua o mesmo. É Andrés Manuel López Obrador. Mas seu discurso tem muita diferença do de 2006, quando enfrentou e perdeu as eleições com apenas 1% de diferença para o candidato vitorioso.
Na foto acima, comício de Obrador na cidade do México, em 2006.
 

Esquerdista modera tom e quer ser Lula mexicano
Matéria de Nacha Cattan, da Bloomberg, na Cidade do México.
Publicada no jornal Valor Econômico em 10/01/2012


Andrés Manuel López Obrador enfrentou a oposição da comunidade empresarial mexicana em 2006, quando perdeu a eleição presidencial por menos de 1 ponto porcentual. Neste ano, ele tenta voltar à disputa atraindo seus antigos críticos.

Saíram os lemas de campanha do tipo "Pelo bem do México, primeiro os pobres" e entraram as promessas de equilibrar o orçamento e proteger a independência do banco central.

O candidato esquerdista, que seis anos atrás bloqueou a maior avenida comercial da Cidade do México por semanas para protestar contra sua derrota, agora diz querer imitar o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, favorável aos investidores.

A estratégia vem mostrando certo sucesso, especialmente com líderes empresariais no cinturão industrial no norte do país, atingido mais duramente por uma onda de violência ligada às drogas que provocou 47 mil mortes desde a declaração de guerra do presidente do México, Felipe Calderón, às gangues de traficantes.

"Ele percebeu que não se pode consertar o mundo com socialismo", afirmou Alejandro Gurza, dono de uma concessionária no Estado fronteiriço de Coahuila e ex-vice-presidente da associação de concessionárias do país. "Os empresários temiam que ele expropriasse as suas propriedades. Vimos que ele mudou."

A campanha se desenrola enquanto a maior economia da América Latina depois do Brasil mostra resistência em meio à desaceleração mundial. O Produto Interno Bruto (PIB) do México expandiu-se cerca de 4% em 2011, e o governo prevê crescimento de 3,3% neste ano.

López Obrador fez acusações de fraude em 2006, quando perdeu para Calderón após liderar a maioria das pesquisas meses antes. Agora, a menos de seis meses da eleição, em 1º de julho, ele está atrás de Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), por uma diferença de 29 pontos percentuais, de acordo com a mais recente pesquisa da Consulta Mitofsky.

O ex-prefeito da Cidade do México, no comando de uma coalizão que inclui o seu Partido da Revolução Democrática (PRD), teve apoio dos 16% dos consultados, entre 21 e 27 de novembro, pela empresa de pesquisas com sede na Cidade do México. Peña Nieto teve a preferência de 45% e Josefina Vázquez Mota, do Partido Ação Nacional (PAN), de 20%.

"Haverá segurança para todos os que investem", disse López Obrador, de 58 anos, em entrevista durante comício na Cidade do México, em 22 de dezembro.

Embora Peña Nieto seja o candidato a ser batido, sua liderança não é insuperável, disse Enrique Krauze, historiador mexicano e diretor de revistas, em entrevista na Cidade do México.

Peña Nieto, 45, ex-governador do Estado do México, precisa convencer os eleitores de que representa uma ruptura com o populismo e corrupção que mancharam a imagem de seu partido, que ficou 70 anos no poder de forma ininterrupta, até o ano 2000, afirmou Gabriel Casillas, economista-chefe do J.P. Morgan na Cidade do México.

No início da campanha, Peña Nieto deu munição aos críticos, como o escritor Carlos Fuentes, para quem a "ignorância" do candidato o torna inadequado para comandar o país.

Em 3 de dezembro, questionado em uma feira literária, ele teve dificuldade de indicar três livros que o influenciaram para, ao final, citar a Bíblia e atribuir a Krauze um livro escrito por Fuentes.

Uma semana depois, em entrevista ao jornal espanhol "El País", ele não soube dizer o preço das "tortillas" e justificou-se afirmando que ele não era "a mulher da casa". Posteriormente, disse que se referia ao seu contexto familiar e que as declarações não deveriam ser interpretadas como um ataque às mulheres.

Desde outubro, López Obrador, conhecido popularmente pelas inicias AMLO, encontrou-se com centenas de empresários, prometendo não "tirar dos ricos" e transformar o México em uma "república amorosa".

Em 16 de novembro, López Obrador disse à rádio local Noticias MVS que gostaria de ser o Lula mexicano, embora ressaltando que cada líder tem suas próprias características.

"O discurso mais moderado de López Obrador definitivamente o torna um candidato forte", disse Casillas, em entrevista por telefone. Ainda assim, o resultado da eleição dependerá em grande parte de quem Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN), indicar para as primárias, em 5 de fevereiro.

Críticos, como Krauze, dizem que a remodelação de López Obrador é um estratagema e que ele ainda é um perigo. Apontam para o site de sua campanha, www.gobiernolegitimo.org.mx, que faz referências ao governo paralelo criado por ele, após recusar-se a reconhecer a Presidência de Calderón.

Os críticos também dizem que suas políticas estão fora de compasso com as necessidades econômicas do México. López Obrador foi um dos principais oponentes da proposta de Calderón de abrir a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) a mais investimentos privados, medida que economistas dizem ser necessária para reanimar a indústria petrolífera do país.

Caso eleito, López Obrador diz que reduzirá as compras de eletricidade estrangeira pelo governo porque os preços são muito altos, de acordo com vídeo da campanha. Também defendeu, em vídeo no YouTube colocado em 17 de outubro de 2010, o "resgate" da riqueza mineral mexicana, que ele diz ter sido cedida ilegalmente às mineradoras entre 1988 e 2006.

"Haverá muitas pessoas que acreditarão em López Obrador", disse o historiador Krauze, que cunhou o termo Messias Tropical para descrever o candidato, num ensaio em 2006. "Ele não está mais no ataque, ele está se encontrando com empresários, mas eu acho que suas ideias concretas não mudaram."


 
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