10 janeiro 2012

No Chile, presidente quis apagar utilização do termo "ditadura" dos livros de História

Nas escolas, se passaria a usar a expressão "regime militar".
Curiosidade: e no Brasil? O que andam usando? 

Sobre a tentativa desastrada do presidente chileno, leia o artigo de Nashla Dahas, na página da Revista de História da Biblioteca Nacional, em 6/1/2012.

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Circulou nesta semana, nos principais jornais brasileiros, a notícia de que o Ministério da Educação chileno proibiu o uso do termo ‘ditadura’ nos livros didáticos, substituindo-o por ‘regime militar. A iniciativa, que atingiria alunos do primeiro ao sexto ano, acabou sendo abortada após a repercussão negativa na mídia (inclusive internacional), mas é mais uma demonstração de que mudanças na ordem política são, frequentemente, acompanhadas por revisões na história nacional. Em busca de uma narrativa que dê mais legitimidade ao seu governo, o conservador Sebatian Piñera autoriza o esquecimento da herança Pinochetista. Naturaliza-se assim uma identidade nacional cristã, democrática e a-histórica. Resta saber se os 48,1% da população, que não lhe concederam voto no segundo turno das eleições de 2010, não terão outros passados para recordar.

Vale lembrar que tanto na campanha pelo plebiscito de 1988, que retirou Pinochet do poder, quanto no processo de transição democrática, ou durante a repercussão gerada pela detenção do ex-ditador em Londres, realizaram-se releituras dos eventos passados com discursos de legitimação, que reivindicam direitos humanos, ou de reconciliação nacional. O sucesso de tais reconstruções depende, no entanto, da sua capacidade para articular a história elaborada às memórias que emergem das vidas cotidianas.

'Sociedade de inimigos'

O que parece singular no Chile é o fato de que em todos esses momentos as eleições foram extremamente acirradas, com diferenças muito pequenas entre os votos recebidos pelos candidatos. Nessas condições, a vitória nunca assegura uma posição confortável, ou se torna garantia de estabilidade, cria-se uma sociedade de inimigos. A população não consegue se reconhecer em uma única história. Talvez por isso haja tanta pressa em esquecer o passado, em reconciliar o inconciliável. São partes com identidades distintas, próprias, que não aceitam ser enquadradas em um discurso comum. 

Assim, a cada eleição estabelecem-se vencidos e vencedores, e qualquer política oficial de memória terá um custo social e um preço histórico. Trata-se, por um lado, de nomear a tortura e o assassinato de uma geração, de encontrar formas consensuais para explicar disputas ideológicas, radicalização política, e experiências limite individuais e coletivas. Por outro lado, há a necessidade de se estabelecer a ordem, de criar um pacto de estabilidade política e convivência social, tal como os sucessivos governos concertacionistas, de centro esquerda, tentaram fazer ao longo dos últimos 20 anos.

Certamente, uma memória conservadora, fundada na negação do passado, não será uma narrativa convincente, e tampouco fundadora de uma identidade nacional. A reelaboração do passado que pretenda reconciliar memórias antagônicas terá, necessariamente, que considerar o caráter profundamente conflitivo e dinâmico de qualquer história social.

 
 
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