08 novembro 2011

Prévias, caciques e o que a imprensa ainda não viu

Artigo de Antonio Lassance, publicado no Observatório da Imprensa, em 08/11/2011 na edição 667.


O jornalista Fernando Rodrigues (em “Prévias, adeus”, Folha de S.Paulo, 5/11/2011) faz uma análise de que a não realização de prévias em São Paulo significa mais do que simplesmente abreviar a definição da candidatura de Fernando Haddad às eleições para prefeito de São Paulo em 2012. Todavia, nenhum de seus argumentos expõe o que de profundo possa estar acontecendo.

Segundo Rodrigues, a desistência de Marta Suplicy é “fato emblemático no processo de similarização orwelliana dos principais partidos”. Ou seja, os partidos estariam todos ficando muito parecidos, o que seria ruim para a democracia. Logo no PT, que, ainda segundo o jornalista, “sempre foi a agremiação que mais tateou algum tipo de democracia interna”. A frase é dúbia – tatear é tentar e não conseguir achar. Sendo assim, o que o partido teria mesmo perdido?

As diferenças do PT em relação aos outros partidos, nos anos 1980, não tinham nada a ver com prévias, mas com seus núcleos de base, tendências, encontros e resoluções partidárias. As prévias começaram a aparecer com força ao longo dos anos 1990 – mais exatamente em sua segunda metade – e na década de 2000. Quando começaram a ser comuns para valer, foram exatamente as prévias que fizeram os encontros se assemelharem às grandes convenções partidárias tradicionais, nas quais os filiados vão para votar, e não para debater e discutir.

Não explica, distorce

Segundo o jornalista, o PT “emula antigos adversários e assume con gusto o caciquismo que tanto combateu”. Pode até ser, mas desde quando prévias rompem com o que chama de “caciquismo”? Pelo contrário, é lá onde as lideranças partidárias mostram toda a sua força de arregimentação. Para qualquer partido democrático, o mais positivo na festa das prévias é esperar por elas. São os debates, a exposição de linhas de programa, as propostas e o exercício da diferença que proporcionam um aprendizado coletivo. Um bom indicador de qualidade política e de não “caciquismo” seria dado se calculássemos o número de pessoas que participam dos debates em relação ao número de eleitores dessas prévias.

Por falar em “caciquismo”, o termo tornou-se um carimbo tradicionalmente empregado para falar de partidos como o PMDB e o ex-PFL, atual DEM. Curioso como alguns partidos são preservados dessa desqualificação e seus expoentes políticos são normalmente tratados como “lideranças”. Não se sabe ao certo qual o critério utilizado para se falar em caciques, para uns, e lideranças, para outros.

Usar “caciquismo” como conceito merece um reparo óbvio, pelo menos de quem conhece minimamente a maneira como a maioria dos indígenas o escolhem. Tornar-se um cacique requer experiência, heroísmo, uma trajetória que firmou uma reputação do chefe de uma tribo. É por essas e outras razões que se deveria abolir tal uso do termo “caciquismo”. Ele não serve para explicar, apenas para distorcer.

Renovação de quadros

Para quem não se sente satisfeito com o termo “liderança”, melhor seria usar a expressão clássica de Max Weber sobre os chefes (bosses) partidários, quando analisava a transformação dos partidos em máquinas eleitorais, feitas para ganhar eleições e delas obter seu “lucro”. As agremiações passaram a ser comandadas por gente especializada em recrutar, organizar, conduzir e pôr para votar – inclusive em prévias.

Diante da crítica, talvez seja útil uma crítica da crítica. Está claro que a crítica ao PT está mudando de AM para FM. Antes, a acusação era a de que o partido tinha tendências demais, assembleísmo demais, correntes de opinião demais. Muitos dos que hoje acusam o PT de ter abandonado seus princípios no passado travaram verdadeiras batalhas contra esses princípios e os problemas que poderiam provocar em um governo petista do Brasil.

Mas, afinal, qual seria o significado profundo de uma suspensão das prévias em São Paulo? Trata-se de um aprofundamento do processo de renovação dos quadros de liderança partidária do PT que teve início não agora, mas com a escolha da candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República. Fernando Haddad, em São Paulo, e outros pelos quais Lula já expressou simpatia, denotam claramente uma estratégia do PT, conduzida por Lula e aceita por diversas lideranças partidárias, em alguns casos, con gusto, em outros, sin gusto.

Burocracia governamental

Internamente, Lula faz com que o PT esteja ainda mais assemelhado, em nível estadual e municipal, à experiência dos seus oito anos de governo. Seus programas, suas políticas e seus candidatos preferenciais são o desfile de seu legado. É a demonstração cabal de que a gestão de 2003 a 2010 mudou a imagem, a cara e a lógica do PT. Profundamente.

A Presidência da República de Lula consolidou a transformação do PT em instrumento orientado a disputar eleições. O partido, surgido em associação íntima com os movimentos sociais, principalmente o sindical, ganhou vida própria. A criatura se tornou mais forte que seus criadores. Se antes a lógica do PT era movida por uma estratégia de poder dos movimentos sociais, hoje se deve entender que a lógica de poder dos que estiveram à frente do Estado se volta para reestruturar o PT e por influir nos rumos dos movimentos sociais que, de bom grado, em sua maioria, aceitaram a inflexão.

Ao invés da armadilha maniqueista e idílica de que antes era melhor, agora ficou pior; antes o céu, agora o inferno, é melhor partirmos da ideia de que a arena que se chama PT tornou-se muito diferente. Tem mais jogadores, e suas regras são muito mais complexas do que no passado. Ao trazer novos nomes, Lula ampliou o horizonte da disputa partidária. A disputa da prefeitura de São Paulo em 2012 não cabe mais apenas no horizonte do PT de São Paulo. O ex-presidente também incorporou de uma vez por todas o aprendizado de suas campanhas, nas quais percebeu que a rejeição pode ser um inimigo muito pior que o desconhecimento. Finalmente, e pouco percebido pelas análises que vemos por aí, Lula sinaliza que tem preferido promover sua burocracia governamental, justamente em detrimento do que o articulista da Folha chama de caciques.

A aposta do PT

Algumas boas perguntas que poderiam ser feitas: o que ocorrerá com a velha geração que encabeçava as tendências do PT nos anos 1980, ou que compôs as prefeituras até 2002? Na melhor das hipóteses, eles serão “chutados para cima”. Terão que disputar cargos de governador, senador ou presidente. A fila vai andar no degrau de prefeito, cargo majoritário essencial em um país como o Brasil. Se andou para presidente da República, por que não?

Fernando Rodrigues pergunta “por que alguém pretenderá se filiar ao PT [...] se quem manda e desmanda são só os caciques, Lula à frente?” A resposta, tirando a parte que de fato não é pergunta, e sim, opinião, parece que está na própria indagação: possivelmente, por causa do Lula e do que ele representa. É a aposta do PT, que por enquanto tem funcionado no que se refere a ganhar eleições.

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Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

Leia este e outros artigos no Observatório da Imprensa.
 
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