01 outubro 2011

Para entender a crise internacional

Os bancos assumem riscos, embolsam os lucros e, depois, transferem os prejuízos para acionistas, contribuintes e aposentados. 

O artigo é de Nassim Nicholas Taleb e Mark Spitznagel. 



O grande assalto dos bancos

Nassim Nicholas Taleb e Mark Spitznagel.
Publicado no www.project-syndicate.org
Traduzido pelo Valor Econômico, 06/09/2011.

Para a economia americana - e para muitas outras economias desenvolvidas - o elefante na sala é a quantidade de dinheiro paga aos banqueiros nos últimos cinco anos. Nos EUA, a soma chega a impressionantes US$ 2,2 trilhões aos bancos homologados junto à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) dos EUA.

Extrapolando para a próxima década, o número se aproximaria de US$ 5 trilhões, montante vastamente superior ao que tanto o governo do presidente Barack Obama como seus adversários republicanos parecem dispostos a cortar, adicionalmente, dos déficits orçamentários. Esses US$ 5 trilhões não são dinheiro investido na construção de estradas, escolas e outros projetos de longo prazo, mas diretamente transferido da economia americana para as contas pessoais de executivos e funcionários de bancos.

A sensação é de grande injustiça: tendo os banqueiros contribuído para causar os atuais problemas financeiros e econômicos, constituem a única classe que não está sofrendo em consequência deles - e, em muitos casos, na realidade, estão se beneficiando. Os mais importantes megabancos são, em muitos aspectos, estranhos.

Não há mais nenhum segredo em torno do fato de que eles operaram grandes e sofisticados esquemas de remuneração, mascarando as probabilidades de eventos do tipo "cisne negro" - eventos de baixo risco e impacto elevado - beneficiando-se do apoio gratuito implícito de garantias governamentais. Excessiva alavancagem, em vez de competências, pode ser vista como a fonte de seus lucros - que então fluem em montantes desproporcionalmente maiores para seus funcionários -, e de seus, por vezes, enormes prejuízos - que recaem sobre acionistas e contribuintes.

Em outras palavras, os bancos assumem riscos, embolsam os lucros, e depois transferem os prejuízos para acionistas, contribuintes e até mesmo aposentados. 

Para socorrer o sistema bancário, o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), por exemplo, fixou as taxas de juros em níveis artificialmente baixos; conforme divulgado recentemente, o Fed também concedeu empréstimos secretos de US$ 1,2 trilhão a bancos. O principal efeito, até agora, foi ajudar os banqueiros a gerar gratificações (em vez de atrair tomadores de empréstimos) ao ocultar suas exposições.

Os contribuintes acabam pagando por essas exposições, assim como os aposentados e outros que dependem do rendimento de suas poupanças. Além disso, as políticas de juros baixos transferem os riscos de inflação para todos os poupadores - e para as gerações futuras. Sim, talvez o maior insulto aos contribuintes esteja no fato de que a remuneração aos banqueiros havia, no ano passado, retornado a seu nível pré-crise.

Assim, os fatos são claros. Mas, como contribuintes individuais, estamos desamparados, porque não controlamos as consequências - devido aos esforços concentrados dos lobistas, ou, pior, das autoridades econômicas. O fato de subsidiarmos os gestores e executivos dos bancos é inteiramente involuntário. Mas a charada representa um elefante ainda maior. Por que é que um gerente de investimento qualquer compra ações de bancos que pagam porções muito grandes de seus lucros a seus funcionários?

A promessa de replicar retornos passados não pode ser a razão, dada a inadequação desses retornos. Na verdade, a exclusão de ações segundo seus lucros e dividendos resultaria num estreitamento bastante superior a 50% no rebaixamento do valor dos investimentos no setor financeiro (em relação a seu pico histórico) nos últimos 20 anos, sem perda dos retornos.

Por que é que os gestores de carteiras e de fundos de pensões esperam, de seus investidores, o benefício da impunidade? Não é óbvio, para os investidores, que eles estão voluntariamente transferindo recursos de seus clientes para os bolsos dos banqueiros? Não estão os gestores de fundos desrespeitando tanto suas responsabilidades fiduciárias como regras morais? Estarão eles perdendo a oportunidade que temos para disciplinar os bancos e obrigá-los a competir em tomada responsável de riscos? É o caso de nos perguntarmos: Se os gerentes de investimento e seus clientes não recebem retornos elevados sobre as ações de bancos, como aconteceria se estivessem lucrando com a externalização, pelos banqueiros, dos riscos sobre os contribuintes, por que, então mantêm-se expostos a tais ações?

A resposta é o chamado "beta" (NT-relação entre o retorno de uma ação e o do mercado como um todo): os bancos representam grande parte do S&P 500, e os gestores precisam estar investidos neles.

Nós não acreditamos que a regulamentação seja uma panaceia para esse estado de coisas. Os bancos de maior porte e mais sofisticados tornaram-se especialistas em posicionar-se um passo adiante das entidades fiscalizadoras - criando, incessantemente, complexos produtos financeiros e derivativos que driblam as regras.

Nessas circunstâncias, uma regulamentação mais complicada simplesmente significa mais horas remuneradas para os advogados, mais renda para funcionários de agências reguladoras que trocam de lado e mais lucros para os que operam com negócios envolvendo derivativos. Os gestores de investimentos têm a responsabilidade moral e profissional de desempenhar seu papel de maneira a impor alguma disciplina ao sistema bancário. Seu primeiro passo deveria ser separar os bancos segundo seus critérios de remuneração.

No passado, investidores apoiaram-se em razões éticas - boicotando, por exemplo, empresas fabricantes de cigarros ou companhias cúmplices com o apartheid na África do Sul - e foram bem sucedidos em pressionar as ações dessas firmas. Investir em bancos constitui uma dupla falta: ética e profissional. Investidores - e também o restante da sociedade, seriam, todos, muito mais beneficiados se esses fundos afluíssem para empresas mais produtivas, redirecionando para instituições sem fins lucrativos bem administradas o montante equivalente ao que seria transferido para as gratificações aos banqueiros.

Nassim Nicholas Taleb é professor de Engenharia de Riscos da New York University e autor de "The Black Swan" (O cisne negro). Mark Spitznagel é um gestor de fundos de hedge. Os autores detêm posições que produzem lucro quando ações de bancos perdem valor.  

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