31 maio 2010

BRICs


Para saber mais sobre os BRICs
Brasil, Rússia, Índia e China são analisados em estudo Cepal*/IPEA**, com dados comparativos e foco nas relações comerciais entre estes países.
Algumas das principais conclusões:
  • A economia brasileira apresenta vantagens comparativas menores do que a China e a Índia, em número de produtos - um desafio à política econômica. 
  • O Brasil tem ganhos na relação comercial com os BRICs, mas os ganhos dos BRICs com o Brasil são maiores, em particular, para a China.
  • No caso da concorrência com a Índia, o resultado é mais favorável ao Brasil.
  • Os maiores ganhos comerciais do Brasil continuam sendo os da América Latina, mas o País perdeu espaço para a China.
Para abrir e ler, clique aqui.
Apresentação dos pesquisadores do IPEA Ivan Tiago Oliveira, Rodrigo Leão e Emilio Chernavsky, com dados de comércio exterior e análise das estratégias comerciais, pode ser baixada aqui.

* Comissão Econômica para a América Latina
** Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Postado por Antonio Lassance
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26 maio 2010

A revisão do sistema educacional





ANTONIO LASSANCE
O Globo - 26/05/2010

Um estudo publicado pela renomada historiadora estadunidense, Diane Ravitch, antiga adepta do gerencialismo na Educação que ocupou posição de destaque no governo de George W. Bush, tem ganhado repercussão dentro e fora dos Estados Unidos e abalado crenças sobre as políticas educacionais com estratégias orientadas pelo mercado.

Trata-se de “The death and life of great American school system: how testing and choice are undermining Education” (A morte e a vida do grande sistema escolar americano: como os testes e as escolhas estão minando a educação, Basic Books, 288 páginas).

As políticas educacionais com estratégias orientadas pelo mercado — market-driven strategies — eram um consenso nos EUA (o que significa dizer, entre os dois partidos que a dominam: Democrata e Republicano). O cerne deste gerencialismo educacional: competição e “escolha”. A diretriz estava consubstanciada em iniciativas bipartidárias como o protocolo “No child left behind act” (“Nenhuma criança deixada para trás”), durante a administração Bush; ou o atual “Race to the top” (“Corrida ao topo”), do governo Obama.

O estudo de Ravitch faz uma autocrítica, uma revisão e derruba o consenso estabelecido. Suas ferramentas: a análise de dados e o estudo de caso (principalmente sobre as escolas de Nova York).

Suas conclusões: os resultados de décadas de educação orientada pelos princípios de mercado são pífios ou contraproducentes, para não dizer perversos. Políticas descentralizadas ao extremo, do tipo “façam o que acharem melhor”, ou “se virem”, sem um mínimo de diretrizes gerais e de coordenação, levaram a processos educacionais que terminaram por se materializar em baixo desempenho, e não em sua elevação. E não se está falando sequer em qualidade.

Os mecanismos de premiação de professores baseados no rendimento individual de seus alunos e, em sentido contrário, a punição (perda dos adicionais de salário), quando de sua queda, levaram obviamente (e como especialistas haviam há muito prenunciado) ao alastramento e sofisticação das formas de se burlar o sistema.

Para além dos conteúdos, o mais importante aprendizado dos professores aos alunos terminava por ser o de como se faz para passar em testes.

Exceções, macetes, “peguinhas” — eis a principal grade curricular de muitos sistemas educacionais, como o dos EUA.

Em grande medida, a defesa da educação orientada pelo mercado tinha como base, segundo Ravitch, pressupostos teóricos que pouco se aplicavam à prática e relacionavam-se mais às predileções ideológicas de seus adeptos.

As recomendações da autora do estudo trazem, para a Educação, o que se tem visto ultimamente na Economia, desde a crise que afetou o mundo em 2008 e que tem tido “réplicas” — para usar a terminologia dos terremotos — em crises de menor intensidade até hoje.

Quais sejam: a constatação de que os mercados não se autorregulam eficientemente, a redescoberta de falhas ou brechas capazes de causar grandes fissuras, a elucidação das táticas de ganhos extraordinários pela sistemática trapaça sobre as frágeis regras de muitos sistemas e, também, a desmoralização do mito da superioridade absoluta da gestão empresarial sobre a gestão pública de perfil burocrático.

O receituário de Ravitch: mais centralização, mais super visão, mais estratégias top-down (de cima para baixo, ou seja, com diretrizes centrais claras) e menos relevância dos testes de desempenho individual dos alunos. Não que eles não sejam importantes, mas jamais deveriam ser o único termômetro da atividade educacional.

Estado e burocracia são um problema — um espectro que vai dos liberais aos socialistas concorda com isso. A questão é que, em muitos dos casos, dos males, Estado e burocracia — certamente, a depender de seu perfil — podem estar entre os menores.

Ambos se mostram necessários a evitar estragos de proporções catastróficas.

Os EUA que o digam. E o Brasil que fique atento.

ANTONIO LASSANCE é pesquisador do Ipea e assessor da Presidência da República

O artigo está disponível ná página do Jornal. Clique aqui para abrir.
Diane Ravitch tem escrito vários artigos sobre as conclusões de seu estudo. Um dos mais recentes está publicado no jornal estadunidense The Nation e é intitulado "Por que mudei de ideia". Clique aqui para ler.

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24 maio 2010

Como inimigos se tornam amigos


Resenha de livro

KUPCHAN, Charles A. How Enemies Become Friends. Princeton: Princeton University, march 2010.

Charles Kupchan é professor de relações internacionais na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Também é associado ao Conselho de Relações Exteriores. Foi diretor do Departamento de Assuntos para a Europa, órgão do Conselho Nacional de Segurança, durante o governo Clinton. Portanto, um especialista renomado e influente.

Tem estudado sistematicamente o que os americanos já chamaram de "nova ordem mundial". Kupchan, de forma mais contundente, considera o momento como "O fim da Era Americana" ("The End of the America Era: U.S. Foreign Policy and the Geopolitics of the Twenty-first Century", publicado em 2002) e um período de transição, não para uma nova, mas para uma outra ordem mundial ("Power in Transition: The Peaceful Change of International Order", 2001).

Em seu mais novo livro ("How Enemies Become Friends", Princeton, março de 2010), Kupchan diz que o mundo não está fadado a sofrer ciclos infindáveis de conflito e guerra, desde que nações rivais se tornem parceiras. Tarefa difícil, principalmente quando tais nações satanizam-se mutuamente.

O livro fornece uma ampla análise histórica sobre como nações saíram do círculo vicioso de competição geopolítica e substituíram-na por relações amistosas e mesmo alianças duradouras. Os casos clássicos incluem as relações entre Estados Unidos e Inglaterra, que, um século após terem protagonizado uma guerra, aliaram-se nas duas grandes guerras mundiais, no período de Guerra Fria e na ofensiva do Afeganistão e Iraque – ou seja, trocaram de inimigos. Também podem ser citadas as célebres hostilidades entre Inglaterra e França e entre França e Alemanha. No período mais recente, Estados Unidos e China, adversários naturais, tornaram-se aliados improváveis sob o comando de dois políticos realistas, Nixon e Mao Tse-Tung, e graças à diplomacia de Kissinger e Chu Enlai. Outro processo, cujos desdobramentos ainda estão por vir, são os que podem unir Estados Unidos e Rússia, cuja agenda de contenção a organizações políticas muçulmanas radicais tem alinhavado uma agenda em comum, sob a bandeira do antiterrorismo.

Conforme Kupchan, as relações diplomáticas são essenciais para aproximar adversários. Parece óbvio, mas contrasta com perspectivas que costumam separar rigidamente Ocidente e Oriente (de forma clara, em Huntington, “The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order”, de 1993). Também é útil a desconfiar das abordagens que acreditam cegamente que as tendências da economia são as grandes forças capazes de garantir relações de cooperação entre diferentes países. O autor insiste que a diplomacia, mais do que a economia, é o caminho para estabelecer relações de paz.

O preço a se pagar é o de concessões mútuas e a persistência em uma estratégia de acomodação, no longo prazo, e não de confronto; requisitos necessários a promover a confiança mútua requerida para construir uma “sociedade mundial”.

A crítica a ser feita é a de que muitas das “amizades” entre países, principalmente no caso das grandes potências, se fazem em torno de novas e maiores inimizades. Ou seja, velhos adversários se unem contra novos adversários, o que modifica o quadro internacional, mas não o torna mais pacífico.

A contribuição mais notável de Kupchan é a de afirmar que a natureza dos regimes deveria ser levada menos em conta, ao invés de ser brandida como a bandeira de uma nova cruzada. Trata-se de uma voz influente, mas ainda isolada, a defender a tese de que a política externa americana não deveria orientar-se por abrir um fosso entre nações democráticas, segundo o critério Ocidental. Neste sentido, o autor vai contra a corrente que se tornou dominante na política externa americana e estabeleceu um consenso que une Democratas e Republicanos.

A seu ver, esse fosso isola a diplomacia americana, amplifica os conflitos, dificulta a busca por soluções e acaba por criar uma barreira à expansão da democracia, pois retira ingredientes que poderiam facilitar uma trajetória democrática de muitos países.

Em entrevistas, tem elogiado o papel das potências emergentes. Aposta que elas continuarão a pressionar por mais espaço na diplomacia mundial, de maneira positiva. Destacou o papel de Brasil e Turquia na negociação com o Irã. O presidente Lula, recentemente, ao dizer que entendia a ação diplomática como a busca por fazer um número cada vez maior de amigos, se encaixa no espírito da obra de Kupchan, embora se possa dizer, mais exatamente, que a concepção de Lula transporta, para o campo da política internacional, a ideia do brasileiro como homem cordial, consagrada por Sérgio Buarque de Hollanda (“Raízes do Brasil”, 1936), aliás muito instigante para inspirar um possível “leit motif” do papel do Brasil no cenário internacional. Kupchan ressalta mais o fato de que novos interlocutores fortalecem possibilidades de entendimento, ampliando as chances de sucesso em negociações de paz.

Renomado especialista, Kupchan tem seu livro recomendado por expoentes como Kissinger e Katzenstein. Sua voz ecoa pelo Congresso e pelo Departamento de Estado. O que parece ainda faltar é que lhe dêem mais ouvidos.
Para citar esta resenha (formato ABNT):
LASSANCE, Antonio. Como inimigos se tornam amigos. Brasília: Meridiano 47: Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais, maio de 2010. Resenha de: KUPCHAN, Charles A. How Enemies Become Friends. Princeton: Princeton University, march 2010.


Postado por Antonio Lassance


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