16 abril 2011

Lula critica FHC e diz que povão é razão de ser do Brasil


Em visita a Londres nesta quinta-feira (14 de abril), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a posição de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que afirmou que a oposição deveria esquecer o "povão". 

"Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão.

O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros."
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Em um artigo publicado na revista "Interesse Nacional", FHC disse que enquanto o PSDB e seus aliados tentarem disputar com o PT influência sobre os "movimentos sociais" ou o "povão", eles falarão sozinhos.
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Lula afirmou ainda que a oposição não pode ser "vingativa" ou "negativista". "O que o povo brasileiro quer é gente que pense continuísmo no Brasil. Afinal, nós conquistamos o estágio [atual] de auto-estima e a gente não pode voltar a trás. A oposição quer que tenha uma desgraça para ela ter razão e não vai ter".
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Lula está na Europa a convite da Telefónica, que está arcando com as despesas. Na manhã desta quinta, ele fez uma palestra para executivos da empresa em que ressaltou as perspectivas de investimento no Brasil e o fortalecimento da democracia na América do Sul. "Toda vez que eu puder viajar e tentar convencer as pessoas de que o Brasil é o país da vez e merece investimento, que tem a democracia consolidada, eu faço isso." Foi a terceira palestra internacional desde que deixou o governo.
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"Tenho que aproveitar o nome que o povo brasileiro me deu para levar para o Brasil o desenvolvimento. O Brasil vive um momento de ouro", afirmou.

Lula "falou e disse". E o que escreveu FHC?
Disponível na Revista Interesse Nacional


"Diante deste quadro, o que podem fazer as oposições?

Definir o público a ser alcançado
Em primeiro lugar, não manter ilusões: é pouco o que os partidos podem fazer para que a voz de seus parlamentares alcance a sociedade. É preciso que as oposições se deem conta de que existe um público distinto do que se prende ao jogo político tradicional e ao que é mais atingido pelos mecanismos governamentais de difusão televisiva e midiática em geral. As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas. A definição de qual é o outro público a ser alcançado pelas oposições e como fazer para chegar até ele e ampliar a audiência crítica é fundamental. Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.

Sendo assim, dirão os céticos, as oposições estão perdidas, pois não atingem a maioria. Só que a realidade não é bem essa. Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe C” ou de nova classe média. Digo imprecisamente porque a definição de classe social não se limita às categorias de renda (a elas se somam educação, redes sociais de conexão, prestígio social, etc.), mas não para negar a extensão e a importância do fenômeno. Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas".



Mais sobre a nova classe média brasileira, egressa das camadas mais pobres:
Vídeo do seminário: “A Nova Classe Média e as transformações do capitalismo no Brasileiro”, realizado em dezembro de 2010 na FGV – Rio, com a presença de Roberto Mangabeira Unger, Márcio Pochmann, Jessé Souza, Joaquim Falcão, Marcelo Neri e Rudá Ricci.
Disponível no Blog Brasil e Desenvolvimento




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14 abril 2011

Kissinger e Baker e a doutrina da intervenção militar dos EUA no mundo

Dois expoentes republicanos em política externa, Henry Kissinger e James Baker, opinam contra a ação militar norteamericana na Líbia. 

Não que eles não tenham gostado, mas argumentam que a intervenção não seguiu alguns requisitos necessários para que houvesse garantia de seu sucesso.

Defendem o que chamam de "idealismo pragmático” e dizem quando os EUA podem e devem fazer intervenções militares.

Guardem bem a frase "os Estados Unidos não podem se comportar como se fossem a polícia do mundo". Não é todo dia que ele dizem essas coisas.



Grounds for U.S. military intervention
By Henry A. Kissinger and and James A. Baker III, Friday, April , 7:10 PM
The Washington Post.
The change sweeping the Arab world has brought to the forefront a controversy dating to the early days of our Republic. Should American military might be used for idealistic reasons or as an expression of a vital national interest? Or both? Having served four U.S. presidents during a variety of international crises, we view the choice between “idealism” and “realism” as a false one. Just as ideals must be applied in concrete circumstances, realism requires context for our nation’s values to be meaningful. To separate them risks building policy on sand.
Like most Americans, we believe that the United States should always support democracy and human rights politically, economically and diplomatically, just as we championed freedom for the captive peoples of the Soviet empire during the Cold War. Our values impel us to alleviate human suffering. But as a general principle, our country should do so militarily only when a national interest is also at stake. Such an approach could properly be labeled “pragmatic idealism.”
Libya is arguably an exception to the rule. While the United States did not have a vital interest at stake in Libya, a limited military intervention solely on humanitarian grounds could be justified. Moammar Gaddafi’s forces had already caused heavy casualties among civilians and were on the verge of capturing Benghazi, with possibly dire consequences for its inhabitants. Gaddafi’s armed forces were weak. He was unpopular at home and friendless abroad. Both the U.N. Security Council and the Arab League had called for action.
Nevertheless, our idealistic goals cannot be the sole motivation for the use of force in U.S. foreign policy. We cannot be the world’s policeman. We cannot use military force to meet every humanitarian challenge that might arise. Where would we stop? Syria, Yemen, Algeria or Iran? What about countries that have been strong allies but do not share all of our values, such as Bahrain, Morocco and Saudi Arabia? What about humanitarian violations in other countries, such as Ivory Coast?
As events unfold in North Africa and the Middle East, it is imperative that we look at each country individually. In this spirit, we offer a few guidelines:
First, when using force, we must establish a clear and specific goal. The objective of protecting civilians is consistent with our values. But it is inherently difficult to keep such an effort limited. The need for humanitarian intervention almost invariably arises from the necessity of protecting populations from their own governments or from the collapse of government altogether. This provides incentives for strategic foreign policy considerations, such as regime change or nation building. But if we articulate a goal of regime change in conjunction with military intervention, we will be expected to employ the means required to effect it. A disconnect risks confusion among allies, adversaries and the American public, as well as mission creep. Failure to achieve proclaimed objectives then turns into a strategic setback.
Second, we should examine the circumstances in each country in terms of its specific conditions and seek to relate its culture and history to our strategic and economic interests. This will allow us to analyze the motives behind the various mass demonstrations and develop appropriate individual responses to each.
Third, we must know exactly what and whom we are supporting. In Libya, we have in effect taken sides in a civil war. But it is not enough to oppose a despot. We need some assurance that a succession would not create its own major problems; therefore, it is important to have a concept of order after regime change. The last thing the region needs is a series of failed states.
Fourth, there must be domestic support in the United States, which is usually obtained by congressional backing. Conducting policy without such support is very difficult in the short term and unsustainable in the long term. The experiences of the Korean, Vietnam and second Iraq wars show that prolonged stalemates sap public support.
Fifth, we should consider unintended consequences. We need to think about how to protect pro-Gaddafi civilians from atrocities at the hands of rebel forces. The action in Libya may tempt the Iranian regime to speed its development of a nuclear weapon, especially when Iranians consider that Gaddafi gave up his nuclear program for closer ties to the West. Rogue states have to remain convinced of our determination to resist nuclear proliferation.
Sixth, and most important, the United States must develop a firm and differentiated understanding of its vital national interests. Not every upheaval in the region has the same origin or remedy. The Arab Spring has the potential to become a great opportunity for the people of the region and the world. Over time, fostering democracy may provide an alternative to Islamic extremism; it may also, in the short term, empower some of its supporters. We need to develop a realistic concept of what is achievable and in what time frame.
We have a vital interest in long-term stability in the Arabian/Persian Gulf, the source of much of the world’s energy. We have a similarly critical interest in seeing that countries in the region do not become breeding grounds for Islamic extremists.
The United States should pursue a policy that couples our determination to protect our national interests with promotion of the values that have made our country great — democracy, freedom and human rights. Such a policy of pragmatic idealism is the best way to confront the challenges and opportunities of the momentous transformation taking place in the Islamic world.
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Henry A. Kissinger was secretary of state from 1973 to 1977. James A. Baker III was secretary of state from 1989 to 1992.

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12 abril 2011

O tiro saiu pela culatra: o "efeito fariseu"

Estudo do sociólogo Antônio Flávio Pierucci  mostra que campanha de 2010 pode ter tido "efeito secularizante".

Exploração abusiva da religiosidade popular pode ter surtido efeito contrário.
Fenômeno é conhecido como "efeito fariseu".


A propósito, tem o sugestivo título de "Eleição 2010: desmoralização eleitoral do moralismo religioso".
Vamos torcer para que bispos, padres e pastores de todas as igrejas, e políticos e marqueteiros de todas as campanhas leiam e aprendam, para jamais repetirem a apelação e o baixo nível que se viu nas eleições presidenciais de 2010.




Artigo de Maria Cristina Fernandes comenta e resume o estudo:

O segundo violino nos 100 dias de Dilma
Disponível no Blog do Nassif

Se a comparação são os oito anos de Luiz Inácio Lula da Silva é de trégua que parece viver o poder nos primeiros 100 dias do governo Dilma Rousseff. Mas se a analogia é da presidente com a imagem que dela projetou a acirrada campanha eleitoral não é apenas de mais calmaria que se vive. Parece outro o país que há quatro meses parecia estar a caminho de se transformar numa república de incréus abortistas.
O tema sumiu de cena como entrou. A presença de uma presidente duas vezes divorciada no Planalto em nada altera a rotina de um país em que os abortos clandestinos continuam matando. Com ou sem bíblia a guiá-la, a oposição continua igualmente perdida.
Ainda parece difícil acreditar que uma campanha obscurantista como aquela chega e vai embora sem deixar sobras. Foi nesse rastro que, levado por um aluno, Antônio Flávio Pierucci acompanhou cultos de uma igreja pentecostal durante a campanha. O que assistiu ao vivo, do púlpito à internet, lhe dava conta da mais radical intromissão da religião numa disputa eleitoral.
Chefe do Departamento de Sociologia da USP e estudioso de longa data da religiosidade popular, Pierucci mergulhou no tema sob o temor de encontrar mais indícios do terreno que a fé havia ganho sobre a política.
Pois acabou concluindo o contrário. Em artigo que abre o mais recente número da Novos Estudos/Cebrap, chega a demolidora conclusão: a inflamada campanha teve um efeito secularizante.
Dos cultos a que assistiu na campanha não esqueceu dos sermões alertando os fiéis de que, eleita Dilma, os pastores seriam obrigados a fazer casamentos gays e a bíblia seria censurada. Em outros cultos, pastores conclamavam a audiência a gritar em uníssono em qual candidato eles não deveriam votar. Levantavam o braço direito e repetiam: Dilma, Dilma, Dilma.
Passando em revista os cultos, a internet, a imprensa, as cartas eclesiásticas e os santinhos, Pierucci está convicto de que a religiosidade das massas pregou uma peça naqueles que a tinham convocado a assumir o papel de protagonista da sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva.
Diz que o desfecho do primeiro turno, com a reação desordenada de Dilma à exploração de suas posições abortistas e a votação surpreendente de Marina Silva, contribuiu para reforçar as expectativas dos utilitaristas da religião. A confiança foi tanta que, no segundo turno, os estrategistas perderam o controle da direção.
O tiro saiu pela culatra, mas Pierucci achou por bem buscar nos estudos de comportamento eleitoral um nome para a coisa: efeito fariseu.
Baseou-se no termo cunhado por uma dupla de psicólogos da Universidade do Alabama, Larry Powell e Eduardo Neiva, que analisaram o insucesso do candidato republicano Roy Moore na campanha de 2006. Candidato ao governo do Alabama, Moore apresentava-se como justiceiro da moral e da religião - o "juiz dos Dez Mandamentos". Perdeu.
A derrota foi atribuída à tentativa excessiva de persuadir o eleitor da personalidade religiosa do candidato. Pierucci compara o slogan de Moore aos santinhos em que a foto de José Serra, por ele assinada, se fazia acompanhar da sentença "Jesus é a verdade e a justiça".
Os americanos recorreram a uma parábola do evangelho de São Lucas e apelaram ao efeito fariseu para explicarem a derrota de Moore. Na parábola, o fariseu exalta e se orgulha de sua prática religiosa fazendo-se passar por santo. Lucas diz que Jesus, nesta parábola, quis recriminar quem faz pose turbinada de devoto.
Pierucci não tem dúvidas de que, na campanha de 2010, o eleitor religioso viu excessos no emprego tático de um Serra piedoso explorando as fraquezas de uma pecadora. Isso teria neutralizado até mesmo reações desencontradas de Dilma, como o batismo televisionado do seu neto de 15 dias.
Ao fazer-se passar por santo, o candidato do PSDB desprezou o risco de que o bumerangue em brasa ardente do inferno poderia voltar. Foi o que Pierucci avalia ter acontecido quando, na metade de outubro, Sheila Canevacci Ribeiro relatou no Facebook o depoimento da esposa do candidato sobre sua experiência de aborto.
Filha de uma socióloga que havia sido candidata a vice-prefeita de Osasco (SP), pelo PSDB, Sheila foi aluna de dança de Mônica Serra na Universidade de Campinas.
Não se dizia portadora de uma denúncia porque Mônica, segundo relataria à jornalista Mônica Bergamo, da "Folha de S. Paulo", não havia confessado o aborto, mas usado sua experiência para demonstrar às alunas como traumas afetam os movimentos do corpo.
O relato ganhou a internet e logo chegou às igrejas. Eleitor costuma ter sua inteligência insultada durante as campanhas eleitorais de todas as cores ideológicas. Mas a de 2010 foi além. Dispôs-se a manipular a espiritualidade do eleitor.
Pierucci ficou até o fim do segundo turno na expectativa da reação. A insatisfação das igrejas com a terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos - um documento que se limita a tratar do aborto como questão de saúde pública e a recomendar o reconhecimento legal do casamento gay - era tamanha que ele não acreditava em capitulação. Some-se a isso o avanço da Igreja Universal - que não condena o aborto - no governo Lula e estava dada a medida do engajamento.
Ainda na quaresma, a campanha da fraternidade lançara o lema "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" numa demonstração de que enfrentaria interesses materialistas satisfeitos no governo Lula.
E a reação efetivamente veio com o papa. Num encontro com bispos brasileiros às vésperas do segundo turno Bento XVI condenou a descriminalização do aborto e advogou o direito de os bispos emitirem "juízo moral sobre matérias políticas".
É à desproporção entre este engajamento e a resposta do eleitor que Pierucci atribui o efeito secularizante da campanha. E aposta que serviu de vacina ao uso desmensurado da religião em futuras disputas.
Entre o moralismo religioso mistificado e a liberdade de escolha na indevassável cabine de votação, o eleitor optou por esta última. Por mais desorganizada que pareça a orquestra, conclui, a religião consegue no máximo o papel de segundo violino.

Maria Cristina Fernandes, editora de Política do Jornal Valor Econômico, 8/04/2011.



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