06 maio 2013

Setores do PSB dizem que candidatura de Eduardo Campos pode fazer partido sair da disputa menor do que entrou

Pode acontecer com Eduardo Campos o mesmo que ocorreu com Ciro Gomes, Heloisa Helena e Cristovam Buarque, cujas carreiras declinaram depois da derrota ao Planalto.
A opinião é do prefeito de Duque de Caxias (RJ), Alexandre Cardoso.


Candidatura do PSB é risco, diz Cardoso
Cristian Klein

Valor Econômico, 06/05/2013


Enquanto os defensores da candidatura à Presidência do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, inspiram-se no bom desempenho de Marina Silva na eleição de 2010, dirigentes mais cautelosos do PSB, como o prefeito de Duque de Caxias (RJ), Alexandre Cardoso, alertam para os riscos de o líder do partido sair da disputa menor do que entrou.

Cardoso afirma que o PSB ainda está construindo sua capilaridade pelo país e Eduardo Campos pode repetir a trajetória de ex-candidatos como Ciro Gomes (PSB e ex-PPS), em 1998 e 2002, e Heloisa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT), em 2006, cujas carreiras declinaram depois da derrota ao Planalto.

Presidente do PSB no Rio e quarto vice-presidente da Executiva nacional, Alexandre Cardoso considera prematuro e arriscado mesmo se o partido e Campos forem vitoriosos. Compara a situação à do ex-presidente Fernando Collor de Melo, que, sem base no Congresso, caiu depois de um processo de impeachment, em 1992.

"Lembra do PRN, do Collor? Bateu uma onda nele, acabou. O que segurou o [ex-presidente] Lula, durante o maremoto político do mensalão, foram os movimentos sociais. Ele tinha base. O nosso partido cresceu eleitoralmente, mas precisa de base popular, que, lógico, ainda não tem. O partido hoje não tem uma estrutura para poder lançar candidato a governador no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas...", argumenta o prefeito.

Cardoso afirma que o PSB no Rio está começando a se estruturar, ao passar de duas prefeituras para oito, do total de 92, e que saltou de uma votação menor de 1% para 10% no Estado, na eleição municipal do ano passado. O dirigente diz que "se um partido, hoje, não tiver densidade na população, não existe". "O PSB tem que entrar no movimento sindical, no movimento popular. Do contrário, não resiste", diz.

Em sua opinião, o PSB cresceu nas últimas eleições em cima de "algumas personalidades, que podem, amanhã, fazer uma política nacional", mas não necessariamente hoje.

"Eu sou prefeito de uma cidade com 1 milhão de habitantes e R$ 2 bilhões de orçamento. Sabe quantas cidades têm esse orçamento no Brasil? Umas 15. O orçamento de Duque de Caxias é maior que o de Estados como Amapá, Piauí, Roraima. Mas não sou eu que sou hoje o candidato a governador, gente. Não pode pensar assim", critica o prefeito, que já foi deputado federal e secretário estadual de Ciência e Tecnologia.

Cardoso ressalta que Eduardo Campos é "a síntese de um político moderno, novo, capaz", mas tem que reafirmar a posição de centro-esquerda e não cair na armadilha de perdê-la, como teria feito o PSDB no caminho para a Presidência, nos anos 1990.

"Esse é o risco. O partido é de esquerda, faz aliança à direita, sai de uma eleição menor que entrou e sai sem discurso. Acho que o Eduardo pode ser um bom candidato, mas temos que cuidar para que não seja pela direita, porque aí perde na eleição e na política", defende Cardoso.

O prefeito, que está filiado há 25 anos no PSB, afirma que o partido deve parar de criticar o governo federal - como têm feito Eduardo Campos e outros correligionários - ou entregar logo os cargos. Diz não ser ética a postura que vem sendo adotada. "Ou você é governo ou é oposição. Como diz que o governo não presta e tem dois ministérios? O PSB do Rio não concorda com a crítica pública a um governo do qual ele faz parte. Vou lutar para que o PSB não tenha essa postura", afirmou ao Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor.

Para o dirigente, a movimentação de Campos para se tornar conhecido nacionalmente e se contrapor à presidente Dilma Rousseff tem desviado muito o partido para a direita. "Não pode fazer aliança com a extrema direita. Não é nossa política", defende, ao citar a aproximação com o DEM e outras siglas da oposição como o PSDB e o MD.

"Topo ser oposição, mas tem que sair do governo e se posicionar à esquerda. Não pode fazer a defesa do aumento dos juros. O que ocorre é que interessa ao grande capital enfraquecer a Dilma. Querem que ela ceda em alguns processos. Mas minha posição é a de fortalecer as políticas que fortaleceram o PSB, como a queda dos juros, o aumento do crédito, e não as que enfraquecem", afirma.

Alexandre Cardoso nega que sairá do PSB ou que seja contrário à candidatura de Campos ao Planalto, mas diz que o partido não pode se desviar de sua trajetória de esquerda. "Se o partido desmontar o discurso, vai desmontar também nos seus quadros", alerta.

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