22 maio 2013

Ruy Mesquita e o liberalismo do Estadão


A coluna “Notícias do Rio” foi criada em setembro de 1939


Há razões profundas do ódio visceral do Estadão a tudo o que signifique alguma presença estatal mais forte na economia e particularmente na atividade de comunicação. 
Tal ódio tem muito que ver com Vargas e o varguismo. Isso explica em muito o apoio dado pelo Estadão ao golpe civil e militar de 1964.

Estudo analisa intervenção de Vargas em jornal
Rúvila Magalhães, Agência USP

Entre 1940 e 1945, o jornal O Estado de S.Paulo sofreu intervenção do governo Vargas. Uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostra os prós e os contras da intervenção:

apesar de perder sua autonomia, a redação contou com a profissionalização dos jornalistas e melhorias no campo administrativo. 

Os dados estão na dissertação de mestrado do historiador Vandré Teotônio, defendida em janeiro de 2012, sob a orientação do professor Marcos Antonio da Silva.
A pesquisa contribui com a história da imprensa e fornece elementos para se pensar no uso impressos censurados como fonte histórica válida.

O pesquisador analisou principalmente a coluna “Notícias do Rio”, criada em setembro de 1939, apenas seis meses antes da intervenção no jornal. A linha editorial da coluna era voltada para o cotidiano, trazendo notícias sobre acidentes, sequestros, mortes, entre outros. Após a intervenção, passou a abordar o noticiário político da capital federal do país no período conhecido como Estado Novo (1937 – 1945).
Segundo o estudo, o destaque da coluna também foi alterado. Enquanto, antes da intervenção, era localizada na quarta ou quinta página, posteriormente passou a ocupar com frequência a capa do noticiário. Não apenas isso, a coluna passou a retratar as ações do Estado Novo e seus personagens.
O jornal manteve-se por muito tempo em uma situação de jogo político com Getúlio Vargas: ora concordando, ora rechaçando os projetos e ideias políticas do presidente. A partir do golpe ocorrido em 1937, o jornal, assim como todos os outros periódicos do país, passou a ser considerado um órgão de caráter público. Nesta posição, as regras deveriam ser seguidas e o governo, servido, não apenas no que diz respeito à publicação de notas oficiais. A relutância em seguir o que era imposto tornou o jornal um alvo de Vargas.
A redação foi invadida duas vezes em março de 1940 por policiais da Força Pública de São Paulo e por soldados do Exército e, em busca pelo prédio, foram encontradas duas metralhadoras. “Os proprietários e dirigentes do jornal foram acusados de tramarem um golpe contra o regime e foram expulsos de seus cargos e, posteriormente, do país”, explica Vandré.
Após a invasão, a redação ficou fechada por uma semana e reabriu as portas em abril de 1940, com editores indicados por Vargas. O impresso, apesar de continuar com a mesma identidade visual, “passou a fazer parte de um projeto de comunicação social oficial que tinha como objetivo legitimar e contribuir com a construção da imagem do governo estadonovista”, relata o pesquisador. O jornal não considera como sua a produção ocorrida durante o período de ocupação.
Por intermédio da pesquisa, foi possível perceber que a intervenção não trouxe somente prejuízos. Apesar de ter a liberdade de expressão cassada, o Estado Novo foi um dos maiores investidores na imprensa. Durante o período, jornalistas foram educados e profissionalizados, alguns direitos trabalhistas da classe foram assegurados e a imprensa se viu formada como empresa. E os benefícios também foram estendidos ao campo administrativo: ao ser devolvido à família Mesquita, donos do jornal, O Estado de S. Paulo era uma empresa próspera e bem gerida.

Fonte histórica
O método de pesquisa empregado foi a leitura analítica de seis anos do jornal diário. A leitura priorizou a coluna “Notícias do Rio”. A editoria foi acompanhada desde sua criação, em 1939, e as mudanças que ela sofreu foram estudadas pelo pesquisador. Ele não teve acesso ao arquivo oficial do O Estado de S. Paulo: os jornais que consultou estavam disponíveis no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Universidade de Campinas (Unicamp). Por concentrar-se apenas na produção noticiosa do período de intervenção, Vandré preferiu manter sua pesquisa apenas nas publicações, dispensando entrevistas com membros da diretoria do jornal ou da família Mesquita.
Um destaque do estudo é o uso da fonte histórica de pesquisa. Jornais censurados não são considerados fontes “confiáveis” e por isso esse período é pouco explorado. A falta de produção científica sobre esse evento foi o incentivo necessário para o pesquisador levar adiante o seu trabalho: “é justamente por ser censurado – ou simpático ao regime – que essas notícias são relevantes, já que trazem consigo toda uma carga simbólica que buscava louvar o Estado Novo e Vargas”. O estudo desse material dá indícios e fornece provas da imagem que o governo almejava construir de si mesmo. A imprensa, incluindo o rádio, era uma ferramenta na divulgação e implementação de ideologias do governo, o que justifica a gana para controlá-la.
A pesquisa demonstrou que a memória histórica do período de intervenção ficou registrada sob diferentes pontos de vista de acordo com os vários setores de destaque na época. “Para a historiografia, ela foi um exemplo de um regime de força; para o regime, ela se fez necessária para compor seu projeto de comunicação social para o Brasil” aponta o pesquisador. Essas diferentes óticas acabaram por dificultar a análise da política brasileira do período.
Como resultado final, a dissertação foi responsável pela redação de mais algumas linhas a respeito da história da imprensa brasileira e sobre um período nebuloso de sua existência.

Um resumo da pesquisa de  Vandré Teotônio.
Leia a dissertação "'Notícias do Rio': a intervenção no jornal O Estado de S. Paulo e a autolegitimação do Estado Novo (1919-1945)".

Obituário de Ruy Mesquista pelo Estadão.

A família. Julio de Mesquita Filho (sentado) com os filhos Ruy Mesquita, Luiz Carlos Mesquita e Júlio de Mesquita Neto. Fonte: Estadão.
 
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