16 março 2013

Pai da Europa e gigante da diplomacia


Idealizador e grande articulador do projeto de União Europeia, o francês Jean Monnet era, no vocabulário das políticas públicas, um "empreendedor de políticas" ("policy entrepeneur"), ou seja, alguém sem o qual a sorte de muitas das políticas, desde sua formulação até sua implementação, pode variar da linha tênue que vai do sucesso ao fracasso.

Monnet (cuja imagem está na homenagem do selo feito pelos alemães, acima) morreu no dia 16 de março de 1979, aos 90 anos, em Bazoches-sur-Guyonne, perto de Paris.


Leia a matéria abaixo, de Max Altman, do Opera Mundi.



Em sua carreira diplomática, tratou de assuntos espinhosos como a divisão da Silésia entre Polônia e Alemanha; o futuro da região de Sarre (entre França e Alemanha) ou ainda a recuperação econômica da Áustria. Quando da invasão da França pela Alemanha nazista, sugeriu a Churchill uma imediata fusão entre seu país e o Reino Unido, porém sua proposta chegou tarde demais.

Após a Libertação da França, cria um plano de modernização do país que levou seu nome, organizando inclusive um comissariado para supervisioná-lo. Propõe ao ministro Robert Schuman o projeto da Ceca (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), projeto que deu origem à atual União Europeia. Por essa razão e por incentivar a criação de um continente organizado no modelo federal norte-americano, recebeu o título honorífico de "Pai da Europa".

Nascido em 9 de novembro de 1888 em Cognac (oeste da França), em uma família de negociantes de vinho, Monnet era produto da burguesia da província. Aos 16 anos, o pai o envia a Londres aos cuidados de seu agente local a fim de aprender o negócio. Aos 18 anos, parte para a cidade de Winnipeg, no Canadá.

Chega 1914 e a declaração de guerra. Valendo-se de relações familiares, o jovem de 26 anos consegue um encontro com o presidente do Conselho (cargo equivalente ao primeiro-ministro francês naquela época), René Viviani, cujo governo estava refugiado em Bordeaux.

Seduzido pela sua inteligência, Viviani o despacha a Londres, em missão precisamente encarregado de coordenar os recursos logísticos aos aliados. A partir de então Monnet jamais deixou de se ocupar de questões internacionais. Em novembro de 1916, no auge da I Guerra, monta uma comissão interaliada para os aprovisionamentos em trigo.

Após o armistício, torna-se assessor de Eric Drummond, secretário-geral da Liga das Nações, onde trata de questões críticas.

Deixando a organização em 1923, participa em San Francisco, EUA, da criação de um banco de investimentos norte-americano mas dele se afasta devido à crise de 1929. Critica a resistência dos Estados Unidos em reformar seu sistema bancário: ‘‘Os homens só aceitam a mudança premidos pela necessidade e só veem necessidade em meio à crise’’.

Põe-se então em Xangai a serviço do governo chinês de Tchang Kaï-chek. Logo chegam o nazismo e a guerra. Monnet vai a Washington negociar com os norte-americanos a construção em caráter de urgência de aviões de combate para as forças armadas francesas.

Aproxima-se do presidente Franklim Delano Roosevelt e do conselheiro Harry Hopkins, pondo-se a seu serviço para lançar o Programa da Vitória. Este tinha por objetivo sustentar o esforço de guerra britânico e preparar a indústria dos EUA para um gigantesco esforço de rearmamento sem esperar a entrada em guerra formal do país, apesar da oposição de setores isolacionistas.

Quando Hitler lança sua ofensiva de 10 de maio de 1940, Monnet sugere ao primeiro ministro Churchill uma medida de grande alcance destinada a levar esperança aos franceses e ingleses. Sua mensagem intitulada "Anglo-French Unity" propunha nada menos que uma fusão imediata dos dois países, com um só Parlamento e um só Exército.

Esta proposta , aparentemente excêntrica, tornaria os dois países solidamente solidários contra a Alemanha hitlerista. Impediria tratativas diretas da França com a Alemanha, com o risco de Hitler se apoderar da potente marinha de guerra francesa e, eventualmente, das colônias da África do Norte e do Oriente.

Na noite de 17 de junho de 1940, enquanto a França mergulhava na tragédia da derrota, Monnet recebe em seu domicílio londrino o general de Gaulle, que preparava uma mensagem de rádio histórica, o Apelo, que seria radiodifundido no dia seguinte. Como a maioria de seus compatriotas, o mercador de Cognac não estava seguro sobre o momento desenhado pelas visões de De Gaulle e a perspectiva de uma ruptura com o regime recém-tomado pelo marechal Philippe Pétain.

A pedido de Harry Hopkins, Monnet encontra-se com de Gaulle na Argélia em 1943. Faz parte do primeiro governo da França Livre e tenta, sem sucesso, reconciliar os generais De Gaulle e Henri Giraud.

Malgrado suas poucas afinidades com o comandante da França Livre, iria contribuir, ao seu lado, com os esforços pela reconstrução do país.

Libertada a França, Monnet monta um plano que permite a França relançar em tempo recorde a produção básica, com a sustentação financeira do plano Marshall.

Cria o Comissariado do Plano e torna-se seu primeiro presidente antes de reunir seus amigos de toda a parte em torno do projeto da Ceca. Sua visão podia se resumir nesta fórmula, tomada emprestada de suas memórias: "Nada é possível sem os homens ; nada é durável sem as instituições".

Ao termo de seu mandato, em 1956, estimulou a criação de um comitê de ação Estados Unidos-Europa e levou adiante, até a morte seu empenho em favor da união.

Suas cinzas foram transferidas ao Panteão em 1988.

 
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