09 julho 2012

Os jornais paulistas abriram mão de fazer jornalismo

Na tentativa de derrubar o governo, vestiram farda e transformaram uma guerra civil em algo que ainda hoje é comemorado como  a "Revolução Constitucionalista de 1932".

Foi assim em 1932, mas... terá sido só naquele episódio?


O artigo abaixo mostra a íntima relação entre a mídia, a política e os políticos, às vezes, até as últimas consequências.

"Se os jornais escolheram mobilizar em vez de informar, é porque haviam vestido farda bem antes da deflagração do conflito". Oscar Pilagallo.


A imprensa paulista fardada de 1932

Oscar Pilagallo *

Ela ignorou a superioridade das forças federais, fez campanha. Exceção, um jornal pró-Getúlio foi até destruído. Com a derrota de SP, jornalistas foram presos

Se nas guerras a primeira vítima costuma ser a verdade, na Revolução de 1932 não foi diferente.

O que foi diferente, isto sim, foi seu algoz. Em geral, a verdade sucumbe diante do conflito de versões dificilmente verificáveis pela imprensa. No caso da chamada Revolução Constitucionalista, no entanto, foi da própria imprensa que partiram os disparos que atingiram a verdade.

Não se trata da verdade abstrata, que resulta de convicções, de uma visão de mundo, de um entendimento particular sobre o lugar que São Paulo deveria ocupar naquela nova fase da República.

Trata-se, apenas, da verdade factual. Mal dado o primeiro tiro, em 9 de julho, as manchetes já tratavam o movimento como vitorioso, e com pouca variação mantiveram o mesmo tom até quase a derrota final, em outubro.

Nesse período, os jornais paulistas abriram mão de fazer jornalismo. Durante os três meses que duraram os combates, optaram por privilegiar uma campanha para elevar o moral da população e, sobretudo, das tropas.

Pouco interessava a informação objetiva da superioridade das forças federais, o fato incontestável de que tinham mais armas e eram mais bem treinadas.

No início, as conquistas pontuais dos soldados de São Paulo foram superestimadas. Mais tarde, os avanços das forças inimigas seriam minimizados.

Não é difícil entender por que a imprensa paulista agia assim. Se os jornais escolheram mobilizar em vez de informar, é porque haviam vestido farda bem antes da deflagração do conflito.

A revolução foi, em larga medida, articulada na sede do jornal mais importante da cidade na época, "O Estado de S. Paulo", então com mais de meio século de existência.

Toda a imprensa paulista, no entanto, logo aderiu à causa. O "Diário de S. Paulo" e o "Diário da Noite", ambos de Assis Chateaubriand, "A Gazeta", de Cásper Líbero, e a "Folha da Manhã" e a "Folha da Noite" (que em 1960 seriam fundidos na Folha de S.Paulo), todos eles se transformaram em trincheira.

Houve, efetivamente, um efêmero "Jornal das Trincheiras", com propaganda mais aberta, mas a diferença em relação aos demais jornais era mais de grau do que de natureza.

Também por um breve período circulou "O Separatista", cuja razão de ser estava expressa no próprio título. Embora não contasse com o endosso da maioria da imprensa, a ideia representava uma dissidência tolerada.

O que os jornais não podiam era ser contra São Paulo. Um jornal tenentista, que apoiava o governante então provisório, Getúlio Vargas, teve sua sede destruída pouco antes do 9 de julho.

O esforço jornalístico de guerra contou com a participação especial do rádio. Como veículo de comunicação de massa, o rádio é contemporâneo da Revolução de 32. Nasceu na Record, que embalava o suposto noticiário com uma marcha militar, a "Paris Belfort".

Não havia espaço para isenção. A imprensa paulista não apenas refletia os anseios da sociedade local. Também os insuflava, criando um círculo vicioso. Derrotadas as forças de São Paulo, jornalistas e donos de jornais foram presos e exilados. Do ponto de vista da história da imprensa, porém, a grande vítima foi a verdade.

* OSCAR PILAGALLO, 56, jornalista, é autor de "História da Imprensa Paulista" (Três Estrelas). Artigo publicado na Folha, em 09/07/2012.

 
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