21 junho 2012

Getúlio redescoberto

Na verdade, ele não sai da cabeça dos brasileiros faz tempo.  

Seu legado é um dos mais persistentes do presidencialismo brasileiro. 

Só para se ter uma ideia, o Congresso discute, atualmente, a revisão do Código Penal, firmado em 1940, e mudanças no horário da Voz do Brasil, criada por Vargas e considerada o programa de rádio mais antigo do mundo. A CLT, embora bastante modificada, é obra de 1943. Estatais como a Petrobrás e o BNDES continuam sendo bases essenciais do desenvolvimento brasileiro.

Getúlio volta a ser assunto candente, desta vez, com mais duas biografias.

A do jornalista Lira Neto está na lista dos mais vendidos do País.

Outra é a de Richard Bourne (professor da Universidade de Londres), Getúlio Vargas, a esfinge dos Pampas.

A filmografia do ex-presidente também ganhou mais um título. Leia mais...





A obsessão Getúlio

Leonardo Cavalcanti

Apontado como um dos melhores biógrafos da atualidade, Lira Neto lança em Brasília o primeiro volume da trilogia sobre um dos personagens mais complexos da história brasileira
O jornalista cearense Lira Neto é um obcecado. Pelo menos durante a construção de um livro, no caso, ao longo da feitura de uma biografia. Foi assim, por exemplo, em Padre Cícero. É assim com Getúlio, a mais recente obra do escritor, que será lançada hoje, às 19h30, na Livraria Cultura do Iguatemi. Nos últimos dois anos, Lira Neto só respira Getúlio Vargas — o personagem mais importante e controvertido de toda a história brasileira, como o próprio autor o define. Agora, que a obra vai ao mercado, o jornalista passará mais 26 meses mergulhado nos outros dois volumes que completam a trilogia, a serem publicados em 2013 e 2014.

“Trabalho cerca de 10 a 12 horas diárias durante o processo de pesquisa e redação. É um regime de dedicação exclusiva. Além disso, o tema acaba invadindo meu tempo livre”, diz Lira Neto, 48 anos, autor também de Maysa (Globo, 2007), O inimigo do rei (Globo, 2006) e Castello (Contexto, 2004).

No “tempo livre”, ele compra discos da época, assiste a filmes e vasculha sebos. “É uma tentativa de viajar ao período em questão. Meu escritório fica atulhado de quinquilharias que me ajudem a embarcar nesse túnel do tempo.” É a mais pura obsessão de alguém em busca de contar a vida de outra pessoa.

Lira domina como poucos a arte de contar histórias. O texto é limpo e, ao mesmo tempo, instigante. O resultado em parte pode ser atribuído ao ofício de jornalista, mas tal coisa não explica por si só os acertos. O escritor é disciplinado na investigação e na redação. Busca o inédito e a qualidade narrativa. A seguir, a entrevista de Lira Neto. Ele fala sobre jornalismo, literatura e, é claro, obsessões.

Por que Getúlio Vargas?

Getúlio é, sem dúvida, o personagem mais importante e controvertido de toda a história brasileira. Costumo dizer que a história do Brasil, para o bem e para o mal, pode ser dividida em a.G. e d.G., ou seja, antes e depois de Getúlio. É impressionante como, quase 60 anos após sua morte, Getúlio continue dividindo opiniões, provocando controvérsias, servindo de material para apologistas e detratores. Sempre me incomodou o fato de um personagem tão fundamental e discutido como esse ainda não ter sido alvo, até aqui, de uma biografia moderna, isenta, escrita sem as tintas dos afetos extremados ou dos rancores radicais.

Quais as diferenças no método de produção de Getúlio e os livros anteriores, como o de Padre Cícero?
Meu método de trabalho é, sempre, o de repórter. Escrevo livro-reportagem. Sou, essencialmente, um jornalista. Apenas não estou submetido aos dois instrumentos de pressão que incidem sobre o texto de imprensa — o tempo e o espaço. Isto é: posso me dedicar anos e anos a apurar uma única “pauta” e, ao colocar no papel o resultado dessa minha investigação, posso fazê-lo em algumas centenas de páginas, e não apenas em poucas linhas.

O que diferencia uma biografia feita por um acadêmico, um historiador, por exemplo, da escrita por um jornalista?
Jornalistas e historiadores têm trabalhos de natureza distinta e complementares. O jornalista, por dever de ofício, preocupa-se mais com a recepção, ou seja, escreve pensando prioritariamente no leitor. Há quem fale de uma tensão e uma rivalidade atávica entre historiadores e jornalistas que escrevem sobre temas históricos. Acho essa uma questão bizantina. Como regra, sirvo-me de muitos estudos acadêmicos — alguns inclusive ainda inéditos em livro, na forma de dissertações e teses de mestrado e de doutorado. Basta conferir isso nas notas relativas às fontes de pesquisa e na extensa bibliografia ao final do primeiro volume de Getúlio. Ao mesmo tempo, para minha satisfação, o livro vem obtendo excelente receptividade no mundo acadêmico. Historiadores e cientistas políticos, especialistas no assunto, como Boris Fausto, Marly Motta e Maria Celina D’Araújo, escreveram textos e resenhas bastante positivas sobre o trabalho.

Quais as melhores biografias, nacionais e estrangeiras? Quais os seus autores favoritos?
Entre os biógrafos brasileiros, não há como deixar de citar o nome de dois colegas que, nos anos 1990, numa geração anterior à minha, modernizaram o gênero no país: Fernando Morais e Ruy Castro. São mestres no ofício. Mas também creio que devo certa influência a escritores nacionais que não escreveram biografias propriamente ditas, mas que tenham me servido indireta e inconscientemente de modelo, como Joel Silveira, Graciliano Ramos e Lima Barreto. Lá fora, entre os autores de não ficção que mais admiro poderia enumerar Gay Talese, Norman Mailer, Truman Capote e Jon Lee Anderson, por exemplo. Na juventude, consumi muita literatura norte-americana, textos de ficção que iam do romance “noir” de Raymond Chandler à dicção minimalista de Ernest Hemingway, da obra visceral de Henry Miller à poesia épica de Walt Whitman. Meu texto, de alguma forma, deve ser tributário dessas leituras dos anos de formação.

Como você começa o trabalho de uma biografia?
Como primeiro passo, preciso proceder a uma vasta revisão bibliográfica sobre o assunto. Procuro me inteirar do estado da arte das pesquisas acadêmicas em torno do tema, antes de me lançar em campo, na busca pelas fontes primárias que fornecerão a musculatura e espinha dorsal à obra. No caso de Getúlio, o primeiro ano de trabalho foi consumido nessa tarefa de ler e fichar o que de mais relevante existiu e existe na caudalosa bibliografia sobre a chamada Era Vargas. Depois, saí pelo país em busca de documentos, cartas, jornais de época, músicas, filmes, fotografias, tudo aquilo que me ajudasse a produzir um retrato falado de um Getúlio de corpo inteiro e colorido, o mais fidedigno possível ao original.

Em Getúlio, o que foi mais difícil?
Todo brasileiro, bem ou mal, conhece a trajetória de Getúlio, ainda que em linhas gerais. O maior desafio foi articular o maior número possível de fontes, promovendo uma polifonia de vozes, para extrair daí um texto que se sustentasse não só pela fluência, mas também pela consistência de dados. No caso desse primeiro volume, representou uma dificuldade extra a necessidade de desencavar a chamada “pré-história” de Getúlio, antes de 1930. Por questões óbvias, a documentação a respeito do período anterior à sua chegada ao poder é mais rarefeita e bem menos explorada.

Em que pé estão os dois próximos livros da continuação da biografia de Getúlio, que serão lançados nos próximos dois anos?
Estou, no momento, escrevendo o segundo volume. Tenho cerca de 150 a 200 páginas já escritas de Getúlio (1930-1945): do governo provisório à ditadura do Estado Novo. Estabeleci um roteiro prévio do conteúdo que terá cada um dos dois volumes que ainda faltam para completar a trilogia. O segundo sai em 2013. O terceiro, Getúlio (1945-1954): da volta ao poder pelo voto até o suicídio, em 2014.

Há uma profusão de livros históricos escritos por jornalistas no Brasil atualmente. Você leu algum deles? Ou algum o interessou de fato?
Infelizmente, não os li. Quando começo a trabalhar em um livro, todas as minhas leituras ficam direcionadas para esse campo de interesse específico. Mal me sobra tempo para ler, por exemplo, ficção. Do mesmo modo, não estou familiarizado com o que tem se produzido no país na área da não ficção. Mas sei, óbvio, que há uma tendência e um apelo editorial em torno do gênero histórico. Talvez isso seja um reflexo, um efeito colateral, digamos, do “instantaneísmo” a que estamos submetidos no mundo contemporâneo, uma reação espontânea à presença avassaladora das novas tecnologias de comunicação on-line. As pessoas consomem tanta informação instantânea que talvez sintam falta de se conectar com uma noção de tempo mais duradoura, menos efêmera. Além disso, desde que as vanguardas estéticas implodiram o romance tradicional, imagino que tenha subsistido uma certa orfandade pelo deleite que a boa narrativa proporciona.

Você foi ombudsman do jornal O Povo, do Ceará. Qual a sua impressão sobre o jornalismo brasileiro atual?
O jornalismo contemporâneo está exposto às contradições de nosso tempo. Com o advento da internet, talvez nunca antes na história da humanidade tanta gente tenha lido tanto e de modo tão frenético. Mas existe uma notória dificuldade por parte da imprensa de responder a essa demanda com produtos mais relevantes do ponto de vista da informação de qualidade. Assusta-me a velocidade e a facilidade com que meros boatos acabam tomando ares de verdade na rede. Além do mais, o tempo de apuração das notícias diminuiu drasticamente. Muitas vezes, o jornalista “entrevista” apenas o Google e se dá por satisfeito. Jornalismo, como diria Gay Talese, exige gastar sola de sapato. E isso, completo eu, exige também levantar o traseiro da cadeira, largar o telefone, ir para a rua, olhar a vida que existe para além das paredes da redação.

Disponível em: http://biografiagetuliovargas.com/
Texto publicado originalmente no Correio Braziliense em 13 de junho de 2012.

Biografia de Getúlio Vargas, em livro de Richard Bourne


A Esfinge dos Pampas
Por Andre Araujo, no blog de luisnassif, seg, 07/05/2012 - 10:49

GETULIO VARGAS – A ESFINGE DOS PAMPAS,  por  Richard Bourne – Geração Editorial – Abril de 2012 – 313 paginas – Bourne é um respeitado professor da Universidade de Londres, especialista em temas latino-americanos e já fez uma biografia de Lula. Este novo  lançamento é uma visão moderna, abrangente  e  interpretativa do grande estadista brasileiro do Seculo XX., um personagem que marca definitivamente o Brasil moderno.

Não existem muitas  biografias  escritas sobre Getulio Vargas. Um historiador estrangeiro tem o olhar de fora que muitas vezes os naturais do Pais não conseguem ter e pode exercitar a historia comparativa e inserida em um campo global, o Brasil como parte da História mundial.

Não há espaço aqui para uma analise de todo o livro mas a obra trata em dois capítulos de um dos episódios mais intrigantes e menos conhecidas da biografia de Vargas. Trata-se da queda do ditador em outubro de 1945, pouco mais de um mês antes das eleições gerais marcadas para 2 de dezembro do mesmo ano. Porque Vargas foi derrubado pelas Forças Armadas, de forma até certo ponto humilhante, ele sendo um ditador de longo período, o mais poderoso na historia moderna do Brasil? Como explicar sua saída pela porta dos fundos do Poder?

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Bourne compõe um enredo de coerente credibilidade e vai  desde as causas visíveis e imediatas para chegar às razões profundas e menos conhecidas. Os pontos centrais  dessa observação de longo alcance e formulada a partir das grandes variáveis da realidade:

1. Vargas de fato nunca controlou, como um ditador, as Forças Armadas. Contou  com a colaboração do Exercito para implantar o Estado Novo em 1937, mas  o mesmo Exercito foi  lento em defende-lo da  perigosa  investida integralista em 1938, uma atitude que não passou despercebida a Vargas e sempre foi um mistério histórico.

2.  Com a esmagadora vitoria dos aliados em Maio de 1945 o vento mudou no mundo, o Brasil apoiou e colaborou com o campo anglo-americano  mas o Estado Novo era uma clonagem do Estado fascista de Mussolini e apesar de apoiado pelos militares, a conta do Estado Novo seria paga integralmente pelo ditador, para que as Forças Armadas livrassem  sua  responsabilidade  perante a nova ordem mundial, baseada na Carta das Nações Unidas e na legitimação da Democracia no mundo ocidental como a forma de governo aceitável para os grandes países.

3. Quando marcou as eleições gerais, para Presidente e depois para Governadores para a mesma  data, 2 de dezembro, antecipando  a de governadores  que anteriormente estavam  marcadas para Maio de 1946, havia cada vez maior desconfiança nas Forças Armadas que Vargas repetiria o golpe de 1937, quando também marcou  eleições e depois  as  cancelou.   Essas desconfianças aumentaram muito de grau quando Vargas nomeou seu irmão Beijo Vargas, de má reputação e perfil nitidamente autoritário, para Chefe de Policia.  A nomeação de Beijo funcionou como gatilho para os que acreditavam em um novo golpe. Os generais exigiram que Vargas tornasse sem efeito a nomeação de Beijo, o que foi considerado por Vargas como sua deposição.

4. O homem chave para a deposição de Vargas foi o General Gois Monteiro, Ministro da Guerra que substituiu o General Dutra, em campanha para a Presidencia da Republica.

Gois tinha grande ascendência sobre a cúpula do Exercito, foi companheiro de Getulio e também peça chave da Revolução de 30 e do esmagamento da revolta paulista em 1932. Os dois candidatos à Presidencia eram militares, o Brigadeiro Eduardo Gomes e Dutra, o que diminuía consideravelmente a margem de manobra de Vargas para  um eventual cancelamento das eleições.

Mas havia um fator externo importante para o qual Bourne chama nossa atenção. Enquanto se desenrolavam os acontecimentos no Brasil, na Argentina o ex-Secretario do Trabalho, Coronel Juan Domingo Peron, deposto do cargo e preso pelos militares, era libertado por um movimento de massas, recolocado no cargo e tornava-se o político mais forte da Argentina.    Esse episodio influenciou os dois lados no Brasil, Vargas pensou em um movimento de massas para permanecer no poder e os militares desconfiavam que Vargas poderia tentar isso, repetindo o golpe branco argentino.

Outro fator importante foi a influencia das ideias democráticas captada pelos oficiais brasileiros que participaram da campanha da Italia a  partir do convívio com os generais americanos aos quais estavam subordinados. Os soldados brasileiros estavam lutando na Italia contra um Estado  parecido com o que Vargas montou e chefiava no Brasil, o que parecia uma contradição e influenciou a oficialidade que retornaria  pouco antes das eleições.

A analise de Bourne é bem mais complexa e nuançada  do que aqui relatei.  O ponto mais importante entre todos e que esta muito bem delineado é que Vargas não tinha e nunca teve o real comando das Forças Armadas, a relação era de aliança e não de subordinação, desfeita a aliança termina o poder de Vargas e ele se retira da cena sem resistência, exilando-se em São Borja  de onde não deveria sair.

Quem comunica a Vargas no Catete que sua missão terminou e que deveria sair de cena foi o General  Cordeiro de Farias, que teria um papel também marcante nos acontecimentos de 1964.

O livro tem excelentes fotos, inclusive uma que nunca tinha visto antes, de Ernesto Geisel ao lado de Vargas no Catete e outra foto impactante de Vargas com o General Gois Monteiro, imponente em trajes civis , foto de 1938.

Uma biografia imperdível, ousada e moderna, que traça um perfil pessoal de Vargas.

Um enredo para conhecer melhor essa fascinante personalidade que explica muito o Brasil de hoje.


Saiba mais sobre Getúlio Vargas e suas presidências.


 
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