26 maio 2012

Um judeu baiano, marxista, um dos grandes historiadores do Brasil

Militante, combatente na II Guerra e contra as ditaduras que se abateram sobre o Brasil de 1937 a 1945 e de 1964-1985. 
Celebrizou-se com a tese do escravismo colonial. Escreveu "Combate nas Trevas", essencial para se entender o período da ditadura militar de 1964 e os rumos da esquerda brasileira nos anos 1970 e 1980.

Nascido em Salvador-BA, em 20 de janeiro de 1923, foi-se embora neste 11 de junho de 2013.

Jacob Gorender, em um documentário da TV Câmara.


Biografia
Jacob Gorender
Lincoln Secco
Do Blog da Boitempo.

Poucos países têm uma tradição historiográfica marxista como o Brasil. Nelson Werneck  Sodré, Caio  Prado Junior, Edgard Carone, Emilia Viotti  da Costa, Alberto Passos Guimarães, Wilson do Nascimento  Barbosa,  Heitor Ferreira Lima e Leoncio Basbaum foram, em diferentes gerações, intérpretes que cultivaram a história numa perspectiva dialética e vinculada direta ou indiretamente a uma prática política.

Jacob Gorender é um exemplo tardio daquela “escola” tão variegada e até contraditória. Foi membro do PCB, integrou a Força Expedicionária Brasileira, foi dirigente comunista, esteve na URSS por ocasião do XX Congresso do  PCUS e, de volta ao Brasil, foi  um  dos redatores  da Declaração  de Março  de 1958,  a qual mudou a orientação revolucionária do partido no sentido de um caminho parlamentar  e reformista.

Depois do Golpe de 1964, Gorender dirigiu o PCBR, ao lado de Mario Alves. Preso, ele reinventou-se como intelectual. Não era um escritor. Seus artigos na Revista Fundamentos eram carregados da linguagem stalinista e caracterizavam o existencialismo, por exemplo, como filosofia de “degenerados e homossexuais”. Estudou a História do Brasil colonial e escreveu  uma obra polêmica e original: O escravismo colonial. Neste  livro, ele visava elevar a  historiografia marxista a  um novo patamar categorial e sistemático.

Criticou de maneira acerba a obra de Werneck Sodré e dele  recebeu  resposta  não menos dura  num  artigo  chamado “As  Desventuras da Marxologia”. Também  questionou as ideias de Caio  Prado Junior.

Embora sua obra seja polêmica, foi fruto de pesquisa  solitária e de ideias amadurecidas no cárcere com um objetivo claramente político: entender o  fracasso da estratégia dos comunistas brasileiros a partir da sua inadequada leitura de nossa história. Mas Gorender não rompeu ao menos com  uma linha de pesquisa dos comunistas brasileiros (excetuado Caio Prado): o estudo e a classificação das relações de produção internas.

Assim, Gorender se coloca no  interior da mesma problemática de Werneck Sodré,  Passos Guimarães e tantos outros, embora veja  com mais  simpatia o  único que, de  fato,  polarizou o debate com  aqueles autores: Caio Prado Junior.

Gorender ainda retornaria à polêmica com seu livro A escravidão reabilitada, a partir do qual teria como alvo  não mais o PCB e sim historiadores acadêmicos. A tese central do livro, no entanto, é a do abolicionismo como a expressão política da Revolução Burguesa no Brasil.

Sua obra mais importante, contudo, talvez seja Combate nas trevas. Livro escrito de maneira romanesca, mas sem  faltar com  a  verdade  histórica. Ainda  que  marcado pelas antipatias do autor (como é o caso  de sua crítica a Luiz Carlos Prestes) é uma obra difícil de ser igualada, pois combina a  testemunha ocular da história e o historiador dotado de um método analítico insuperável.

Em 1990 ele ensaiava novos passos. Escreveu Marxismo sem utopia e Marcino e Liberatore,  acompanhou a queda da  URSS quando viajava  por lá. Para  obter apoio diplomático brasileiro, obteve intermediação do então Deputado Federal Florestan Fernandes. Gorender filiou-se depois ao Partido dos Trabalhadores, com o qual já colaborava antes e deu respaldo às tendências da esquerda petista, escrevendo para  suas revistas e jornais. Ele participou de muitos  debates do  Núcleo de Estudos de O  Capital e da  Revista Práxis.  Gorender telefonava solicitando livros, referências, mas era generoso em suas preocupações com os jovens militantes. Mais recentemente, ele se dedica a compreender o Brasil numa  perspectiva crítica dos anos Lula.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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