02 maio 2012

O Rei do Tango

Em homenagem aos 149 anos de seu nascimento, Ernesto Nazareth ganha site e em breve terá biografia, além de revisão de suas obras.

Cristina Romanelli, da página da Revista de História da Biblioteca Nacional.


As comemorações pelos 150 anos do compositor carioca Ernesto Nazareth (1863-1934) estão tão agitadas que foram adiantadas em um ano. No dia 20 de março, o pianista, famoso pela autoria dos tangos brasileiros “Brejeiro” (1893) e “Odeon” (1910), teria assoprado 149 velinhas. 
Como presente, o Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro inaugurou um site todo dedicado a ele. 
Os internautas agora têm acesso a manuscritos, fotografias, discografia completa, partituras para piano e para rodas de choro, linha do tempo e informações biográficas inéditas, cedidas por Luiz Antônio de Almeida, herdeiro do acervo de Nazareth. 
E vêm mais novidades por aí: Almeida está em busca de uma editora para publicar um livro sobre o músico, e o pesquisador e pianista Alexandre Dias está fazendo uma revisão completa de suas obras em parceria com a professora Sara Cohen, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ).
“Comecei a pesquisar Nazareth aos 14 anos, depois de ouvir falar sobre ele em um programa de televisão. Conheci um filho e uma sobrinha dele nessa época. Como Nazareth não teve netos, eles me passaram o acervo, e agora cedi para o site todas as imagens e também informações do livro que acabei de escrever”, conta Almeida, que hoje é chefe da sala de pesquisa do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
A cravista Rosana Lanzelotte é outra que fez contribuições. Cedeu nada menos que as 218 partituras de Nazareth publicadas em 2009 no portal www.ernestonazareth.com.br. A iniciativa fez com que o compositor se tornasse, naquele ano, o primeiro brasileiro com todas as partituras editadas na Internet – e gratuitamente. “Vários compositores estão esquecidos por falta de partituras editadas. No caso de Nazareth, tinha-se acesso a 20 ou 30 músicas mais conhecidas... Agora elas são vistas no mundo inteiro. Temos de 1.500 a 2.000 acessos por mês, de vários países”, conta Rosana. 
O portal do IMS deverá atrair ainda mais visitantes graças a novidades, como os textos explicativos sobre cada obra e as mais de 2.000 gravações feitas desde a inauguração da Casa Edison (1902), primeira gravadora do país. “Vamos tentar colocar todas as gravações no site, inclusive oito feitas pelo próprio Nazareth, em 1912 e 1930. Muitas vezes, só com as gravações dele e com os manuscritos das partituras dá para descobrir a versão original das músicas”, explica Dias. 
Tudo isso ajudará a divulgar a obra de Nazareth, e pode funcionar também como uma espécie de reparação, já que o compositor foi por muito tempo considerado inferior. “Isso acontecia porque ele está no limite entre o popular e o erudito. Mas é um absurdo. Os choros que ele transportou para o piano são tocados no mundo todo. Muitos o comparam a Chopin, que transpôs para o piano a dança urbana chamada mazurca”, afirma o pesquisador. 
Nazareth, conhecido como Rei do Tango, também teve muitos momentos de glória. Na década de 1910, não era raro ver a sala de espera do Cinema Odeon, no Rio de Janeiro, lotada de pessoas que desistiam dos filmes para ouvi-lo ao piano. Quem sabe se todas essas iniciativas – e outras que estão por vir – poderão fazê-lo ganhar novamente um lugar de destaque como um dos mais importantes compositores brasileiros? 

 
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