05 março 2012

Índia e China querem um FMI dos Brics




Proposta promete uma revolução na hegemonia das instituições que, há mais de 50 anos, são controladas por países ricos.

Índia e China querem um FMI dos Brics

Gigantes asiáticos vão agora buscar o apoio dos outros países que fazem parte do grupo: Brasil, Rússia e África do Sul

Jamil Chade *


China e Índia levarão à cúpula dos países emergentes, no fim do mês, a proposta de criação de um Banco dos Brics (grupo composto, além das duas nações asiáticas, por Brasil, Rússia e África do Sul). A ideia é que seja uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A proposta promete estabelecer uma revolução na hegemonia das instituições que, há mais de 50 anos, são controladas por países ricos.

O projeto já vinha sendo costurado pelos indianos há meses, com o propósito de estabelecer um mecanismo que permitisse o financiamento de projetos exclusivamente nos países em desenvolvimento. Sexta-feira, o projeto acabou ganhando um parecer positivo da China e a ideia é convencer agora Brasil, Rússia e África do Sul a se unir ao projeto.

O primeiro rascunho circulou, há uma semana, durante uma reunião do G-20 no México. Mas a ideia ficou de ser estudada pelos demais parceiros. O projeto ganhou corpo depois da reunião entre os chanceleres indiano, S.M. Krishna, e chinês, Yang Jiechi.

Na visão dos indianos, instituições como o FMI serão dominadas nos próximos anos para socorrer as economias europeias, enquanto a própria gerente do Fundo, Christine Lagarde, percorre o mundo em desenvolvimento pedindo mais recursos. Na Basileia, onde os BCs das principais economias se reúnem a partir de hoje, fontes do Banco Central Indiano admitem que os Brics começam a refletir se devem de fato sair ao socorro da Europa, ou se devem estabelecer sua própria agenda.

"A agenda do FMI e do Banco Mundial estará dominada por mais uma década na recuperação da economia mundial", disse a fonte indiana. "Os Brics precisam definir se é isso que querem ou se têm outras prioridades. Por isso, a cúpula do dia 28 e 29 de março será tão importante", declarou.

Juntos, os governos emergentes têm reservas no valor de US$ 3,3 trilhões. "Não devemos usar isso apenas para socorrer a Europa. Temos nossos próprios projetos", indicou.

Mas a criação da nova instituição, que deve ganhar o nome de Banco de Desenvolvimento dos Brics, já é alvo de acirrada disputa. Pelo projeto indiano, a presidência da instituição deveria ser rotatória entre os cinco países. Mas os chineses insistem em que devem ter um poder maior, já que sua economia é a segunda do mundo e parte importante do novo fundo virá de Pequim.

Na realidade, o debate apenas repete dentro dos Brics a disputa de poder que o bloco conduz em relação aos países industrializados. China, Índia e Brasil vêm insistindo em que devem ter um poder de voto maior dentro do FMI e do Banco Mundial, diante da nova realidade de suas economias. Reformas já foram realizadas, mas, na prática, incrementaram o voto dos emergentes apenas de forma marginal.

Os emergentes conseguiram romper a regra de que a direção dessas duas organizações devam ficar apenas entre americanos e europeus. Mas, ao menos por enquanto, dar o poder de uma das instituições a um emergente não passou de teoria.

No próximo mês, o americano Robert Zoellick deixará o Banco Mundial. Mas os principais candidatos cotados para o cargo são, como sempre, de países desenvolvidos. Um dos nomes é o da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

* Artigo publicado em O Estado de S.Paulo, 04/03/2012

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