03 fevereiro 2012

O candidato de Wall Street

A campanha nos EUA pode se concentrar em uma questão chave: quanto os ricos devem pagar em impostos? 
Wall Street já entendeu isso.


Wall Street apoia Romney para a Presidência dos EUA 
Kevin Drawbaugh*


Os figurões de Wall Street já escolheram um candidato na eleição deste ano para a Presidência dos Estados Unidos. Os registros das doações de campanha mostram que ele não é Barack Obama, e sim o republicano Mitt Romney.
Os dados divulgados na terça-feira pela Comissão Eleitoral Federal dos EUA ilustram uma mudança fundamental nas doações políticas no nível presidencial feitas pela elite financeira do país.
Após um flerte com Obama - o carismático democrata apoiado quatro anos atrás durante a grave crise de crédito eclodida durante a gestão do presidente George W. Bush -, Wall Street está apoiando Romney, fazendo uma volta à sua inclinação majoritariamente republicana.
As seis maiores fontes de contribuição à campanha de Romney em 2011 foram executivos, parentes e comitês de ação política (PAC) ligados a Goldman Sachs, J. P. Morgan Chase, Morgan Stanley, Credit Suisse, Citigroup e Bank of America, de acordo com o Center for Responsive Politics, um grupo sediado em Washington que monitora as finanças das campanhas.
O grupo afirma que os líderes dos seis gigantes de Wall Street - que foram salvos da ruína pelos contribuintes americanos há cerca de três anos - deram US$ 1,8 milhão à campanha de Romney.
Do lado de Obama, a Goldman Sachs foi a única grande financeira entre as suas 20 maiores fontes de contribuição em 2011 - com doações de apenas US$ 64 mil, contra US$ 496 mil para Romney.
Ao se alinharem com Romney, os bancos e as firmas de investimentos estão na companhia de uma nova geração de gerentes de fundos hedge e de private equity com bolsos recheados. Eles estão apoiando o candidato que vem de suas fileiras - Romney presidiu uma empresa de private equity.
"A indústria financeira escolheu Romney desde o início, quando ele começou sua campanha", diz Viveca Novak, porta-voz do Center for Responsive Politics. "[Romney] faz parte do mundo deles. Eles acreditam que Romney os compreende. Dessa maneira, pouco surpreendente, eles o preferem."
Newt Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul, os demais três pré-candidatos republicanos, receberam um apoio bastante limitado do setor financeiro.
Quando Obama chegou ao poder, a indústria financeira achou que teria bons laços com ele, assim como ocorrera com o presidente Bill Clinton nos anos 90. Inicialmente, foi assim. Mas aí a economia afundou e Obama passou a criticar os banqueiros por seu papel na crise do crédito. Essas críticas foram um choque para banqueiros de destaque, que estavam acostumados a ser lisonjeados por Washington.
"São pessoas que se afastaram totalmente de Obama quando ele parou de exaltá-las. Alguns ficaram ressentidos. São pessoas com ego enorme que gostam de ser afagadas", disse Leonard Steinhorn, ex-consultor político que hoje é professor da Escola de Comunicações da Universidade Americana.
Outro ponto de atrito com Obama é tributário. O presidente quer taxar mais os ricos para reduzir o déficit fiscal e pode aumentar os imposto sobre ganhos de capital.
Para analistas, muitos banqueiros ficaram incomodados nos últimos anos com os conservadores sociais, que ganharam poder dentro do Partido Republicano e sentem que podem se identificar com Romney, mais moderado. "Romney é um deles", afirmou Steinhorn. "Assim, eles se sentem confortáveis com ele."

* Reuters. Tradução publicada no Valor, 3/2/2012.
 
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