15 janeiro 2012

Um presidente difícil de engolir

"O presidente tem uma vida austera, doa grande parte de seu salário para programas sociais de habitação. O país tem hoje um dos índices de desemprego mais baixos de sua História (em torno de 6%) e um sistema de reajuste salarial semestral. Com isso, Mujica ganhou o respaldo dos pobres". Seus problemas "são os ricos e as tensões, cada vez mais fortes, dentro da Frente Ampla (coalizão de esquerda que governa o Uruguai desde 2005)".
Ignácio Zuasnábar, consultor.


"Mujica continua sendo um presidente difícil de digerir para as classes altas uruguaias, que não aceitam sua aversão ao protocolo, sua linguagem popular e estilo de homem do campo". 
Janaína Figueiredo, jornalista.

Na foto, José Mujica, presidente do Uruguai.


Abaixo, matéria de Janaína Figueiredo, cujo conteúdo é melhor que o título.

Mujica, longe da elite e sem encantar o povo
Líder uruguaio é criticado por não levar projetos adiante e compromete esquerda


Janaína Figueiredo*

BUENOS AIRES. Na madrugada de 6 de setembro de 1971, um grupo de 111 integrantes do Movimento Tupamaro conseguiu escapar da prisão de Punta Carretas, em Montevidéu, através de um túnel de cerca de 45 metros construído durante vários meses pelos guerrilheiros, entre eles, o atual presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, e seu ministro da Defesa, Eleuterio Fernández Huidobro, que mais tarde relatou o feito no bestseller "A fuga de Punta Carretas". A operação, conhecida no país como "O abuso", ganhou menção até mesmo no Livro Guinness como recorde de uma fuga de presos no século XX.

O cenário de uma das ações mais ousadas dos tupamaros, que na década de 80 abandonaram as armas e em 2010 chegaram ao poder, se transformou num dos shoppings mais badalados da capital uruguaia. Hoje, Punta Carretas é uma das regiões mais nobres da cidade, que pouco tem a ver com o bairro no qual os anarquistas, na década de 30, e Mujica e seus colegas tupamaros, nos anos 70, protagonizaram fugas cinematográficas.

A construção do shopping, em meados da década de 90, transformou Punta Carretas num dos bairros preferidos da elite uruguaia. A poucos quarteirões do gigantesco centro comercial vive, por exemplo, o ex-presidente Julio Maria Sanguinetti (1985-1990 e 1995-2000), do tradicional Partido Colorado.

Promessa de atrair imigrantes

Já o presidente Mujica, que durante a última ditadura (1973-1985) passou 14 anos preso e foi brutalmente torturado, mora numa humilde chácara de 35 hectares localizada a cerca de 20 quilômetros da capital uruguaia, na região de Rincón del Cerro.

Em termos políticos, a distância entre o ex-líder tupamaro e a elite de seu país também é grande. Passados quase dois anos de sua histórica posse, em março de 2010, Mujica continua sendo um presidente difícil de digerir para as classes altas uruguaias, que não aceitam sua aversão ao protocolo, sua linguagem popular e estilo de homem do campo. A principal base de apoio do presidente, assegura o analista político Ignácio Zuasnábar, da empresa de consultoria Equipos Mori, são as classes populares.

- Mujica é um fenômeno de representação política dos setores humildes.

Para Zuasnábar, "o presidente tem uma vida austera, doa grande parte de seu salário para programas sociais de habitação. O país tem hoje um dos índices de desemprego mais baixos de sua História (em torno de 6%) e um sistema de reajuste salarial semestral. Com isso, Mujica ganhou o respaldo dos pobres". Seus problemas, assegurou o analista uruguaio, "são os ricos e as tensões, cada vez mais fortes, dentro da Frente Ampla (coalizão de esquerda que governa o Uruguai desde 2005)".

As fissuras na Frente Ampla são, de fato, uma dor de cabeça para o ex-líder guerrilheiro. Para os mais radicais, que esperavam medidas revolucionárias no governo de um ex-guerrilheiro, Mujica é um presidente moderado. Para os de centro, o chefe de Estado ultrapassou alguns limites ao defender, por exemplo, a criação de um novo imposto sobre a produção agropecuária.

- O presidente não satisfaz nenhum dos dois extremos, ficou no meio do caminho - explica o professor da Universidade de Montevidéu, Tomás Linn.

Segundo ele, "já existem sinais de decepção entre muitos uruguaios".

- Este governo não tem claras suas prioridades - questiona Linn, afirmando que "todos os dias Mujica lança uma nova proposta e, em muitos casos, os projetos nunca saem do papel".

Um dos exemplos mais recentes foi o projeto para favorecer a imigração em massa de latino-americanos, medida que buscava resolver um dos dramas do Uruguai: sua população, cada vez mais envelhecida, de 3,5 milhões de pessoas. A senadora e primeira dama, Lucia Topolansky, também ex-tupamara, chegou a dizer que o país precisava receber entre 4 e 5 milhões de imigrantes para conseguir expandir sua economia. Mas, como ocorreu com muitas outras ideias de Mujica e seus colaboradores, nada aconteceu.

Outro dos projetos atualmente em estudo prevê a participação de empresas privadas em obras de infraestrutura estatais. O Uruguai de Mujica continua sendo um país "estatizado", que tem até uma empresa de uísque nacional. Mas alguns debates sobre parcerias com o capital privado começam a surgir, comenta Zuasnábar. O único serviço privatizado na década de 90 foi o fornecimento de gás. O país continua tendo telefonia, água, eletricidade, bancos e petróleo em poder do Estado. Em 2004, foi realizado o último referendo sobre o assunto: mais de 60% dos uruguaios aprovaram uma reforma constitucional que garante que a água sempre será um bem público.

- Mujica não nacionalizou nada, porque na verdade quase tudo no Uruguai é estatal e as pessoas estão muito satisfeitas com a qualidade e o preço dos serviços - disse o analista da Equipos Mori.

Frente Ampla sem liderança

Hoje, a popularidade do presidente oscila entre 49% e 45%. Mujica foi eleito no segundo turno, com 52% dos votos e chegou a ter 70% de imagem positiva, nos primeiros meses de gestão. Menos de dois anos depois, os uruguaios já começam a especular sobre uma futura candidatura do ex-presidente Tabaré Vázquez, primeiro presidente de esquerda do país, eleito em 2005 (não há reeleição no Uruguai). Mujica não conseguiu construir uma liderança forte dentro da Frente Ampla, nem uma base de apoio popular que inclua todos os setores sociais. Uma eventual vitória de Vázquez seria, segundo analistas, a única garantia de continuidade da Frente Ampla no poder.

* Matéria publicada em O Globo, 15/01/2012.

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