18 janeiro 2012

A miséria do liberalismo no Brasil

Um dos "pais" do Plano Real acha que o grande problema do Brasil é a ausência de um liberalismo forte.
Acha que os Estados Unidos são um modelo. 
Diz que a sociedade norte-americana reagiu à violação das liberdades civis em Guantánamo em pleno contexto do 11 de Setembro.

Na defesa de algo que não existe (um liberalismo forte), Pérsio Arida faz um malabarismo teórico, historiográfico e sociológico, onde aparecem coisas do tipo:

"Ninguém é contra os pobres".
[Ninguém?]

"Existe um pacto entre Estado e grupos empresariais e elites no Brasil que é um pacto antiliberal".
[Adam Smith dizia isso em 1776 com relação à Inglaterra, mas dava nome aos bois. Citava que esse pacto beneficiava as Companhias Comerciais britânicas que praticavam o monopólio comercial. Dizer que existe esse pacto e não apontar quem se beneficiar dele é, no mínimo, um raciocínio pela metade].

Houve uma nítica "reação da sociedade norte-americana à violação das liberdades civis em Guantánamo em pleno contexto do 11 de Setembro".
[Então acabaram com Guantánamo e se esqueceram de nos avisar?]


A entrevista é um exemplo da pobreza do liberalismo no Brasil, que continua defendendo teses difíceis de engolir.

Trechos da entrevista de Pérsio Arida, ao jornalista Nelson Ching, da agência Bloomberg*.


Como explicar isso [o atraso do Brasil em conseguir alguns avanços]?

Existe um pacto entre Estado e grupos empresariais e elites no Brasil que é um pacto antiliberal. Liberal no sentido norte-americano, que é o da plataforma, cronicamente fraca no Brasil, da diminuição da intervenção estatal e das liberdades civis.

O Brasil tem muitas similaridades com os EUA, mas, contrariamente a eles, aqui o liberalismo foi sempre fraco. Se olharmos para a escravidão, o FGTS ou a hiperinflação, há um denominador comum: os mais prejudicados são os mais pobres, sempre. O país tem um pacto entre elites e governo antiliberal.

É um pacto a favor do Estado e que sempre se pautou por uma certa repressão de liberdades civis.

É um pacto contra os mais pobres?

Ninguém é contra os pobres. Pacto é feito para tentar beneficiar. Quando se fazem políticas protecionistas, créditos direcionados, privilégios a determinados grupos, quem está implementando e quem recebe benefícios genuinamente pensa que está fazendo o bem comum.

A fraca tradição liberal se expressa nas dimensões econômica e política. Isso se aplica também para liberdades civis. O caso da Comissão da Verdade é um exemplo.

Basta comparar com a reação da sociedade norte-americana à violação das liberdades civis em Guantánamo em pleno contexto do 11 de Setembro.

O sr. leu o "Privataria Tucana"?

Não falo sobre isso.

Como está o seu indiciamento na Operação Satiagraha?

Não quero falar sobre isso.

E sobre Daniel Dantas, seu ex-sócio?

Não quero falar sobre isso.

*Publicada pelo jornal Folha de S. Paulo em 16/01/2012.

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Na foto desta postagem, um escravo. As referências mais fortes do liberalismo no Brasil, no Império, justo no auge do liberalismo, eram grandes senhores de escravos. Ou seja, a permanência da escravidão até as vésperas do século XX não ocorreu em razão da fraqueza do liberalismo, mas, antes, por sua influência política.
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