04 setembro 2011

"A cabeça do BC mudou"

Desrespeito à liturgia? Quebra de protocolo? 

O que fica claro na matéria abaixo, publicada no jornal Valor Econômico, é que o mercado estava acostumado a ditar o comportamento da taxa de juros e não se conforma que seja diferente.

O curioso é que o Banco Central existe para ser uma espécie de agência reguladora. Se, ao contrário, suas decisões são tomadas em combinação com os regulados ("liturgia"?), qual o resultado? Acertou quem disse: a maior taxa de juros do mundo.

Como diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, no mundo todo, "os bancos centrais são capturados pelos mercados financeiros". Assim, a decisão do BC do Brasil de baixar meio ponto percentual em sua taxa de juros deve ser considerada como uma ousadia, um alívio, um ponto fora da curva.

Na disputa para ver quem é que manda, o sistema financeiro faz suas ameaças: "para cada ponto a mais nas expectativas (de inflação), o BC tem que dar um ponto e mais um pouco de juros".

Então, é assim que funciona. Bom saber



Queda de juros muda todo o cenário para investimentos
Valor Econômico, 02/09/2011

A surpreendente decisão do Banco Central de reduzir os juros em 0,5 ponto percentual derrubou as projeções de quase todos os bancos para o custo do dinheiro, aumentou o receio de alta da inflação, acelerou as estimativas de queda do juro real e acrescentou um ingrediente de imprevisibilidade para as políticas do BC. Colocou também os investidores diante da necessidade de rever estratégias em um novo cenário, especialmente na renda fixa, ameaçada pela expectativa de uma elevação maior dos preços. O mercado interpretou a decisão como um sinal de que o BC e o governo vão aceitar uma inflação mais alta. A NTN-B para 2014, corrigida pelo IPCA, passou a projetar uma inflação de 6% ao ano, ante 5,85% no dia anterior, a maior dos últimos seis meses. A tendência do juro real é encolher, porque estima-se que o BC continuará cortando a taxa Selic nas próximas reuniões, enquanto que a inflação não deverá declinar rapidamente. Corte do juro quebrou liturgia da comunicação com o mercado Por Lucinda Pinto, Daniela Machado e Fernando Travaglini | De São Paulo Quebrando o protocolo e sem qualquer aviso prévio, o Banco Central (BC) adotou uma nova postura à frente da política monetária ao decidir cortar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 12%, na reunião encerrada na quarta-feira. Acostumado com a "liturgia" seguida pelos mandatos anteriores do BC, o mercado ficou perplexo. Na avaliação da maioria dos economistas, a atitude do Copom quebrou um dos princípios mais valiosos no sistema de metas de inflação: a comunicação com o mercado. No comunicado que segui à reunião (apelidado de "mini ata" por economistas, dado o tamanho fora do padrão), o BC também rompeu com um procedimento clássico: em nenhum momento do texto mencionou a situação da inflação - que, ressaltam economistas, segue rodando perto dos 7% ao ano, acima do teto da meta. Em vez disso, prolongou-se em traçar a preocupação com os efeitos da crise externa sobre a atividade doméstica. "O regime é de metas de inflação, mas não está claro que inflação é o mais determinante", diz Marcelo Carvalho, economista-chefe do BNP Paribas. Segundo ele, isso não é necessariamente uma novidade, já que no início do ano o BC fez uma opção pela convergência dos preços apenas em 2012, dado o custo que um aperto maior teria para o crescimento. "Esse parece ser o racional agora." Carvalho também avalia que a surpresa da decisão veio, em grande medida, pela mudança na chamada função de reação do BC. Ele explica que o mercado faz suas previsões baseadas nas suas próprias premissas e também na expectativa que tem da reação do BC ao cenário inflacionário, mas essa resposta mudou. "O mercado ainda tinha uma convicção, para não dizer esperança, de que o BC desse um peso maior à inflação do que ele mostrou", conclui. "A cabeça do BC mudou", afirma o estrategista para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. "Com essa decisão, o BC "comprou" um seguro contra um choque econômico, mas, como consequência, descuidou da inflação, o que é uma mudança de postura importante." A questão, afirma o especialista, é que esse novo foco não foi informado com clareza. "Se o BC vai perseguir uma taxa de crescimento em 2012, então eu consigo entender a decisão desta semana. Mas, se é isso, então que ele diga." De fato, o Banco Central já havia incluído em seu discurso a preocupação com a evolução do ambiente externo como um dos elementos a serem considerados para o rumo da política monetária. Mas, dizem economistas, não foi percebido uma piora expressiva ao final do mês em nenhum desses fatores, que justificasse essa mudança de rumo dos juros. O preço das commodities se recuperou em relação ao início do mês, as bolsas americanas ganharam fôlego e o mercado de crédito global foi reaberto. Essa "pista" não foi suficiente. O fato de o BC ter aberto mão do procedimento clássico - que incluía mudança nas conversas com economistas e discursos públicos; ajuste no comunicado e na ata; eventual placar dividido; e interrupção do ciclo em curso - vai atrapalhar, na opinião de especialistas, a capacidade de traçar cenários futuros. "Agora ficou bem difícil ter convicção de qualquer coisa sobre a condução da política monetária", afirma Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Crédit Agricole Brasil. "O problema de não se comunicar bem é que pode provocar um curto circuito nessa ligação", acrescenta, ressaltando que, em condições específicas, a surpresa pode ser até uma ferramenta. "Mas não vejo necessidade de ter feito isso agora." Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, pondera que o BC não tem obrigação de dizer qual é o próximo passo de política monetária. A surpresa serve para os casos em que a autoridade monetária quer derrubar os juros na economia de forma generalizada (derrubar a chamada curva de juros, que serve de base para as taxas de empréstimos bancários, por exemplo). Essa estratégia serve para estimular a economia, mas para isso o BC tem que fazer um ajuste maior do que já estava previsto pelos investidores. "Ele não sinalizou. Não é obrigação dele. Eles quiseram fazer surpresa." A mudança na reação do BC, no entanto, foi tão brusca que o mercado terá que esperar a ata da reunião, na quinta-feira, para entender se haverá novas altas. Segundo ele, o BC fez uma aposta em um cenário muito ruim para a economia mundial, cuja chance de concretização é muito pequena. "Tem que se repetir um cenário tão ruim quanto foi 2008. Fora desse cenário apocalíptico ele não entrega a inflação na meta." Dessa forma, o BC tomou uma decisão que em larga medida não é totalmente irrevogável, mas caso tenha que voltar atrás "vai custar caro", com perda de credibilidade. "Custo e credibilidade estão intimamente relacionados. Para cada ponto a mais nas expectativas (de inflação), o BC tem que dar um ponto e mais um pouco de juros", diz Schwartsman.  

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