06 agosto 2011

Minoria do "Tea Party" mudou o jogo da política nos EUA

Crise da dívida expõe a ascensão do radical e inexperiente Tea Party no Congresso dos EUA


Ameaça para republicanos
Janaina Lage (janaina.lage@oglobo.com.br), com agências internacionais. O Globo, Publicada em 02/08/2011 às 23h25m.

Disponível em Blog do Nassif


WASHINGTON e RIO - Em um ponto crítico das discussões na semana passada sobre o plano que permitiu a elevação da dívida nos EUA e evitou o calote, o líder da maioria republicana na Câmara, John Boehner, chamou os deputados da Carolina do Sul para negociar. No lugar da troca de argumentos, a delegação preferiu a orientação divina e se retirou para uma capela. A passagem ilustra a mudança de cenário no Congresso com a ascensão do Tea Party, a ala de extrema-direita do partido que consolidou seu poder de articulação durante a crise da dívida e ameaça influenciar os cortes de gastos e subsídios, fatores considerados essenciais para evitar que o país mergulhe em nova recessão.

Analistas críticos ao Tea Party alegam que a estratégia dos radicais substituiu a livre negociação entre os partidos pela técnica de tornar o governo refém do aval dos conservadores. Na prática, os extremistas se limitariam a negar qualquer tipo de concessão, independentemente das consequências para o país e, no caso da dívida, para a economia mundial.

A imprensa americana aponta uma extensa lista de perdedores com os resultados da crise da dívida: os democratas, o presidente Barack Obama e, finalmente, a economia americana. Mas se existe um fator de consenso entre os especialistas é que o movimento ultraconservador, que nasceu na esteira da revolta dos americanos com as operações de socorro do governo aos bancos após a crise de 2008, começou a dar as cartas no Partido Republicano e no Congresso. O heterogêneo Tea Party, unido no combate à política de "Estado grande", conseguiu a proeza de aprovar o maior corte do déficit em 15 anos, sem qualquer previsão de aumento de impostos.

O sentimento de vitória está expresso na declaração do grupo conservador Americans for Prosperity após a aprovação do plano: "É uma tremenda vitória para os ativistas do livre mercado que, pela primeira vez na História, o debate sobre o aumento do limite de dívida tenha se tornado um debate sobre corte de gastos." Mas em um sinal do que se pode esperar do grupo nos próximos meses, quando serão definidos cortes no Orçamento, a instituição ressalta que pretende continuar a lutar porque o plano é "inadequado para o tamanho do desafio fiscal que o país enfrenta".

Pré-candidatos faturam com o caso

Thomas Patterson, professor da Harvard Kennedy School, disse ao GLOBO que a natureza do debate político mudou em Washington com a chegada do Tea Party.

- É a primeira vez que a discussão sobre quanto o país pode pegar emprestado foi politizada. O Tea Party deve ganhar pontos a longo prazo. Sem dinheiro, o governo terá dificuldade para criar empregos, o que pode ser decisivo na eleição. Para os americanos, o presidente é o responsável por estimular ou derrubar a economia.

O êxito da estratégia ultraconservadora dependerá, no entanto, da ressonância dessas políticas junto ao eleitorado. Pesquisa divulgada pelo Pew Research Center mostra que para a maioria dos americanos, o debate em Washington sobre o teto da dívida pode ser classificado como "ridículo","ultrajante","estúpido" ou "frustrante". E as idas e vindas nas negociações também repercutem sobre a imagem dos partidos: 37% dos entrevistados disseram ter uma impressão pior dos membros do Congresso ligados ao Tea Party após o debate sobre a dívida.

Em artigo publicado na revista eletrônica Salon, Michael Lind, diretor da New America Foundation, argumenta que mais do que um movimento de caráter ideológico, o Tea Party seria uma nova face do conservadorismo do Sul do país. Os estados com maior número de membros do grupo na Câmara são: Texas (12), Flórida (7), Louisiana (5) e Geórgia (5).

Aparar as arestas no Partido Republicano entre a ala social conservadora do Sul, os moderados do Oeste, que defendem a presença pequena do Estado, e os conservadores econômicos do Meio Oeste do país será um fator crucial na disputa pela Casa Branca em 2012. Em um sinal dessa política de diálogo com radicais, o senador Orrin Hatch, o mais antigo do partido, disse que os republicanos não estariam no lugar que conquistaram sem o Tea Party.

- A questão é que sou um membro do Tea Party desde antes da sua existência. Fui um dos primeiros apoiadores de Reagan - explicou.

A defesa enfática surgiu depois que o site Politico noticiou que o vice-presidente Joe Biden teria dito que o grupo "agiu como terroristas" em uma reunião de democratas. Biden negou ter usado a palavra, mas o episódio foi suficiente para que Sarah Palin e Michele Bachmann tentassem capitalizar com as declarações. A pré-candidata Michele tomou o comentário como ofensa pessoal e disse precisar de espaço para defender a si mesma e aos colegas do Tea Party:

- Somente no bizarro mundo de Washington a responsabilidade fiscal pode ser definida como terrorismo.

Palin disse que ser chamada de terrorista pelo vice-presidente era "apavorante" e se disse feliz com o resultado de aprovação do plano, mas não inteiramente satisfeita.

- Não é uma vitória 100% genuína. Nós acabamos de entregar ao presidente mais esquerdista da História dos EUA um aumento de US$ 2,4 trilhões no teto da dívida - disse.

Patterson, da Harvard Kennedy School, avalia que apesar das expectativas de impacto da crise da dívida nas eleições e do lobby dos pré-candidatos conservadores, ainda é cedo:

- Há algumas semanas, a popularidade de Obama disparou com a morte de Osama bin Laden e, hoje, esse é um fator praticamente fora do jogo eleitoral. Tudo vai depender do impacto dos cortes na vida dos americanos nos próximos meses

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