09 agosto 2010

Adam Smith: o iluminista anti-iluminista

Adam Smith é o pai fundador do liberalismo econômico. Seu livro "A riqueza das nações" (1776) é uma obra clássica que merece ser lida por todos, liberais ou não.
A influência de Adam Smith no pensamento econômico e no redirecionamento das políticas econômicas no mundo inteiro, a partir do século XIX, são bem conhecidas.
Também é notória sua importância, junto com David Ricardo, para o surgimento da teoria do valor trabalho, ou seja, a concepção segundo a qual a origem da riqueza não é a terra (como defendia a escola fisiocrática, de Quesnay), nem a posse de metais e pedras preciosas (obsessão do mercantilismo), mas sim o trabalho. Por isso, Karl Marx, autor de "O capital" (1864), é tão cerimonioso em relação a ambos, reconhecendo serem eles os autores da teoria do valor trabalho que ele utilizaria, aprofundaria e revolucionaria. 
Mas nem sempre se fala sobre o que e quem influenciou Smith e quem ele combatia. Sabe-se que sua visão não era uma defesa, e sim uma crítica à política econômica inglesa no século XVIII. Mesmo com todo o avanço da Inglaterra, com a pujança econômica que alcançava e com o poder das companhias de comércio, Smith achava que se seguia o caminho errado. Estado demais, monopólios demais e dificuldades demais para a livre iniciativa.
O livro de Nicholas Philipson reconstrói a trajetória de Smith, combina biografia e História e dá grande importância à formação intelectual do pensador escocês.
Além de mostrar a influência exercida sobre Smith por pensadores como David Hume, o livro de Philipson situa o quanto o autor de "A riqueza das nações" era um adversário intelectual do iluminismo francês e de suas ideias econômicas, políticas e jurídicas. Neste sentido, Smith era principalmente um crítico de Condillac, Montesquieu, Rousseau e Quesnay.
Ou seja, Smith era um iluminista anti-iluminista, adepto de um iluminismo liberal contra o iluminismo francês, no qual o Estado permanecia com um papel central e estruturante de toda a vida social. Para o economista escocês, ao contrário, o Estado deveria sair de cena e apenas assegurar o espetáculo da "sociedade" (uma palavra que, no século XVIII, restringia-se à parcela ínfima de cidadãos livres, autônomos e proprietários). Embora o Estado inglês pós Adam Smith não tenha ficado menor, e sim maior, de fato o mestre da economia clássica foi bem sucedido em convencê-lo a deixar o palco a outros atores, para cuidar melhor da bilheteria e depois entregar seus frutos aos que comandariam o espetáculo.
Diferente do liberalismo vulgar, que gasta todas as suas energias discutindo tamanho do Estado, Smith estava mais preocupado era em mudá-lo de lugar.

PHILIPSON, Nicholas. Adam Smith: An Enlightened Life. Yale: Yale University Press, 2010. 368 pages.

Se quiser ler a obra clássica  (versão disponível em Inglês):
SMITH, Adam. An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. 1776. Disponível em http://www.marxists.org/reference/archive/smith-adam/works/wealth-of-nations/index.htm Acesso em 11 set 2006.
Siga o blog e receba postagens atualizadas por email. Clique na opção "seguir", ao lado.
Para enviar email para o blog de Antonio Lassance: lassanceblog@gmail.com
Para siguir no Twitter: https://twitter.com/antoniolassance