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24 maio 2011

Oposição vive crise de identidade e de projeto

"A oposição vive uma crise de identidade e de projeto. Não sabe muito bem quem ela é e aonde quer chegar". 

Entrevista Fernando Abrucio - Cientista político

Por Vera Ferraço, "A Gazeta", 21/05/2011 - 18h55 - Atualizado em 21/05/2011 - 18h55
foto: Agência Estado
Fernado Abrucio, cientista político - Editoria: Política - Foto: Agência Estado
"A oposição precisa fazer uma oposição mais propositiva e menos, digamos, ao estilo Arthur Virgílio, menos histérica"


"A oposição não morreu. Vive crise de identidade"

Apesar de o PSDB e o DEM sofrerem um processo de encolhimento por conta da debandada de filiados rumo ao PSD de Gilberto Kassab e de os dois partidos baterem cabeça quando o assunto é o posicionamento (ou inércia) em relação ao governo de Dilma Rousseff (PT), o cientista político Fernando Abrucio afirma que a oposição não morreu. "A oposição vive uma crise de identidade e de projeto. Não sabe muito bem quem ela é e aonde quer chegar", disse o professor Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em entrevista para A GAZETA, ele afirma ainda que o recém-criado PSD "é o encontro da fome com a vontade de comer". O cientista político destaca também que o senador Aécio Neves é o melhor nome tucano para 2014 e que o ex-presidente Lula é o "reserva de luxo de Dilma" no caso de alguma eventualidade abalar a candidatura à reeleição da petista.

O que aconteceu com a oposição? Ela morreu?
Não morreu, não. A oposição domina alguns governos estaduais. Dois dos mais importantes governos estaduais, São Paulo e Minas, estão nas mãos do principal partido da oposição (PSDB). A oposição mesmo com uma certa redução de tamanho recente ainda mantém uma bancada razoável no Senado e, em menor número, na Câmara. Não dá para dizer que ela morreu. O que pode ser dito é que a oposição vive uma crise de identidade e de projeto. Não sabe muito bem quem ela é e aonde quer chegar.

O que a oposição deve fazer para mudar o cenário de crise?
Primeiro, ela tem que fazer bons governos estaduais. Se ela fizer bons governos estaduais, ela tem uma vitrine para fazer a disputa política no plano nacional. Segundo, ela tem que buscar ter um papel mais ativo na organização da sociedade e dos movimentos dentro da sociedade. E por fim a oposição tem que continuar discutindo os projetos do governo, controlando e fiscalizando o governo como não tem feito, talvez de uma maneira mais propositiva. A oposição tucana nos últimos anos tentou repetir a oposição que o PT fazia no governo Fernando Henrique. Só que eles esqueceram de uma coisa: o PT podia fazer aquela oposição mais dura e radical porque tinha uma articulação social muito forte, uma articulação com movimentos de base, com sindicatos. A oposição precisa fazer uma oposição mais propositiva e menos, digamos, ao estilo Arthur Virgílio, menos histérica.

Fernando Henrique escreveu um artigo em que diz que se os tucanos e seus aliados continuarem tentando dialogar com o "povão" acabarão "falando sozinhos". Por isso, aconselha o PSDB a priorizar "as novas classes médias". A avaliação do ex-presidente está certa?
O problema é que a gente não sabe exatamente quem é a classe média. No Brasil não tem classe média, tem várias classes médias. O que quero dizer é que precisa ter um pouco de cuidado em acreditar que exista um discurso como um pó de pirlimpimpim que vai alcançar a enorme classe média porque nós temos aí várias subdivisões dentro da classe média. O mais importante é buscar entender essas subdivisões e, de alguma maneira, construir algo coerente junto aos diversos grupos sociais.

Como o senhor definiria o PSD de Kassab?

O PSD é aquela história do encontro da fome com a vontade de comer. O PSD representa na verdade uma janela de oportunidade para vários políticos governistas e oposicionistas se reposicionarem depois de oito anos de lulismo. No fundo a grande motivação comum a situacionistas e oposicionistas para entrarem no PSD foi a luta política local. É bom lembrar que quem chega ao plano nacional só consegue chegar lá porque organizou bem suas bases políticas locais.

Aécio Neves busca se cacifar para ser o candidato do PSDB à Presidência em 2014, mas José Serra também manteria esperança em se candidatar novamente. Essa disputa pode atrapalhar o partido? E qual o melhor nome tucano para 2014?
O melhor nome tucano para 2014 é Aécio. Até porque o Serra já concorreu a duas eleições presidenciais, já há certo desgaste em relação ao nome dele e, se ele for o candidato do PSDB, o partido vai se dividir. A candidatura de Aécio tem mais condições de agregar apoios dentro do PSDB e fora do partido. Isso não quer dizer que a candidatura de Aécio seja a favorita para 2014. Favorita é a recandidatura da presidente Dilma ou a candidatura de Lula. Esses são os favoritos.

O senhor acredita que o Lula pode ser candidato em 2014?
O Lula está no banco de reserva. É o Pelé ou o Ronaldo Fenômeno no banco de reserva, em boa forma. Ele está lá, se precisar ele concorre. Ele não vai disputar com a Dilma, mas se precisar, por alguma razão, ele concorre. É um baita reserva de luxo porque se ele for candidato a presidente em 2014 é muito difícil que ele perca a eleição. A não ser que o Brasil entre numa hecatombe econômica e social que nem oposicionista mais radical sugeriria hoje.

Aécio virou alvo de polêmica ao se recusar a fazer teste de bafômetro numa blitz no Rio. Esse episódio impactou negativamente a imagem do tucano?
Por enquanto, acho que isso impactou muito pouco. O problema é que isso pode voltar na época da eleição. E ele vai ter que lidar com isso. Vai depender da maneira como Aécio for hábil suficiente para lidar com essa situação. No momento em que ocorreu aquilo, ele não foi nada hábil. Ele foi muito desastroso na sua resposta pública. Sorte dele que isso ocorreu agora. Ele tem um tempo para construir uma forma de responder a essa situação. Não é nada que necessariamente condene a sua candidatura, mas Aécio terá que explicar um pouco mais esse episódio da carteira vencida. O que não ficou bem explicado é porque ele não fez o teste do bafômetro.

Como o senhor avalia a volta do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares ao partido? A decisão reforça a sensação de impunidade?
Acho que sim. O PT deveria esperar o final do processo do mensalão para reabsorvê-lo. Não sou ministro do Supremo para dizer se ele é culpado ou inocente, mas ele está numa situação de suspeição. No atual contexto, aceitar a refiliação de Delúbio sem que tenha havido um processo é no mínimo uma grande inabilidade política e no máximo uma forma, digamos, de ignorar a opinião pública. Acho um grande equívoco essa história do Delúbio por parte do PT.

Como o senhor avalia a rápida evolução patrimonial de Antonio Palocci e a postura do governo Dilma de blindar o ministro?

Sabendo que ele foi ministro da Fazenda e que nos últimos quatro anos foi um grande palestrante e consultor de empresas, não é nada absurdo essa evolução patrimonial. Os valores que o mercado paga a um ex-ministro da Fazenda, a um ex-presidente do Banco Central, sobretudo de alguém cujo partido ainda tem a perspectiva de continuar no poder, não me parece absurdo essa soma de dinheiro. Agora, acho que Palocci deveria dizer simplesmente que fez consultorias para tal ou quais empresas e ponto final. Isso não vai gerar impacto negativo. Acho que há uma má leitura do governo nessa história acreditando que, se Palocci disser que fez uma série de consultorias para bancos, que foi em grande medida talvez o financiador dos recursos dessa empresa (do ministro), isso vai manchar a imagem do PT. Tolice. Isso é uma bobagem. No fundo, Palocci e o próprio governo não estão sendo minimamente habilidosos em toda essa história.

Quem é Fernando Abrucio

Formação. Fernando Luiz Abrucio é formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1990), com mestrado e doutorado em Ciência Política pela também pela USP. 

Professor. É professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (SP) desde 1995, ocupando atualmente o cargo de Coordenador do Mestrado e Doutorado em Administração Pública e Governo. Trabalhou como colunista político do jornal Valor Econômico de 2000 a 2006 e hoje é colunista da Revista Época.

Prêmios. Ganhou o prêmio Moinho Santista de Melhor Jovem Cientista Político Brasileiro (2001) e por duas vezes venceu o prêmio Anpad de melhor trabalho na área de Administração Pública do país (em 1998 e 2003).

Pesquisas. Pesquisa temas nas áreas de Ciência Política, Administração Pública, Políticas Públicas e Política Comparada, tais como federalismo, relações intergovernamentais, gestão pública brasileira e internacional, políticas educacionais e controles democráticos.

Artigos. Publicou 25 artigos em revistas científicas, foi organizador ou autor de 9 livros e escreveu 32 capítulos de livros.

Livros. Entre os principais trabalhos, destacam-se "Os Barões da Federação" (Hucitec, 1998) e "Reforma do Estado e o Contexto Federativo Brasileiro" (com Valeriano Costa, Fundação Konrad Adenauer, 1999). Organizou, junto com Maria Rita Loureiro e Regina Pacheco, a coletânea "Burocracia e Política no Brasil - desafios para o Estado democrático no século XXI" (Editora FGV, 2010). Além de organizar, ele também publicou um ensaio nesse mesmo livro, intitulado "A formação da burocracia brasileira: a trajetória e o significado das reformas administrativas". Também é um dos autores do livro "Governança das Metrópoles - conceitos, experiências e perspectivas".

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